quinta-feira, setembro 12, 2002



O gosto da vida

Tenho cá pra mim que grande parte do povo traz e tem uma escala de intensidades embutida dentro de si, imposta e esculpida pela anímica razão, burilada pelo tempo e que regula o exato tanto que se deve ter das coisas que alma reclama. E como tudo que regula tolhe, dosa o choro e o riso, a paixão e o desgosto, reduz espaços, controla os passos. Aí retém os sentimentos nos limites dessa tal auto-regulação, reprimindo em cada um o que cada deles estabeleceu ou pensa ser excesso. Assim, pesado e medido, esse povo é meio insosso.

Já o povo visceral, assim que nem eu, parece desprovido desses apetrechos regulatórios e daí, sem noção de escala, vive intenso tudo, do bagaço ao contentatamento. Pode até ser mais sofrido num momento aqui ou noutro acolá, mas a vida assim, desse jeito, quase nunca fica deserta e tem mais gosto pra saborear.

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