quinta-feira, agosto 30, 2001
terça-feira, agosto 28, 2001
Nó no tempo
Nada no mundo é perene e parece que tudo aqui é mutante. A ciência engole a ciência e revisiona os conceitos dessa natureza tonta, e as leis que vigiam ontem hoje já não vigem tanto e vão se reconfigurando conforme a dança do tempo. Quem tá propalando isso é o povo das ciências. As observações mais recentes indicam que o mundo tá é ficando gagá e certos enunciados tidos quase como eternos foram todos pras cucuias e mais além.
Daí é preciso tá atento pra não fundir os miolos porque nem tudo que você vê, é na verdade o que é, e nem tudo que brilha reluz, nem todo sonho é sonho, nem tudo que é surreal inexiste, nem toda fome é fome e pode ser até fastio. Nem tudo que se come é comida ou pasto como pensava o outro lá, nem tudo que se engole desce, porque tem o regurgito que fica no vai-e-vem ali da boca para o gogó. Nem tudo que se nega é verdade, e tudo que é verdade pode não ser verdadeiro. O absoluto não há, nem o relativo convence. O sólido pode ser só fumaça e pode ser que nem a fumaça exista. E isso não tem fim, é como aquela do avesso do avesso e que sempre tem mais um.
E como o tempo aqui é curto, melhor faz quem o gasta amando, porque assim ele não passa, e se passar, a gente faz de conta que nem viu.
segunda-feira, agosto 27, 2001
quinta-feira, agosto 23, 2001
Corações perversos
Toda paixão me ferra a alma num alvoroço fodido. E segue seu curso e se instala nos amplos limites do amor, e vai me acalmando um pouco. Mas quando a dúvida chega e pinta, seja na banda de cá ou na outra que tá lá, e tudo ameaça se dissipar que nem nuvens no verão, começa tudo de novo e o coração se sobressalta e resfolega e se agita provocando sofrimento.
E cada momento desse é um tranco, e cada tranco desse encaliça mais um pouco os sentimentos da gente como se fosse um escudo. E os desencontros acabam por engendrar uma estranha serventia, essa armadura potente de autopreservação pra resguardar a gente dos perversos corações que pululam por aí, em tudo que é lugar.
quarta-feira, agosto 22, 2001
Valentin, o desossado flatulento do Moulin Rouge
Moulin Rouge já foi tema de bons filmes porque era um ambiente rico de personagens interessantes. Agora tem esse aí de um australiano, o Baz Luhrmann com a Nicole Kidman. Não sei se é bom, mas sei que as criaturas que circulavam por aquele cabaré no final do século 19 e início do 20 eram realmente marcantes, com vidas atribuladas. Desde os artistas como Toulouse Lautrec até as dançarinas La Goulue, Jane Avril e outras, mais o resto do povo todo.
Mas pra mim, o personagem mais estranho e misterioso dali era Jacques Renaudin, o Valentin le Desossé, essse que aparece com sua silhueta neste pôster do Toulouse junto com La goulue. Ninguém sabia onde ele morava exatamente, nem o que fazia. Mas de noite se esbaldava no Moulin, dava o show dançando e fazendo acrobacias. Uma grande atração lá. O bicho tinha o nariz aquilino, meio quebrado, um queixo saliente de queixada, dançava pra caramba e tinha os quadris soltos, que nem Ney Matogrosso.
E quando terminava o show, as pessoas iam embora e ficavam só os boêmios inveterados, os mais íntimos da casa como Toulouse, bebendo absinto e se divertindo com com o mulherio. Ai Valentin dava mais um show, e fazia do seu bucho um fole, enchia de ventosidade flatulenta e tocava, pelo furico, com peidos afinadíssimos e cadenciados toda a marselhesa. Era um sucesso. Grande Valentin.
terça-feira, agosto 21, 2001
O povo underground tem história
Pra mim, é na fricção do confronto da transgressão com o conformismo que a história avança. E assim nos costumes é mais evidente, e cada época sempre teve lá seu povo underground. Esse que faz o contraponto da norma, se rebelando pra quebrar as arestas dela.
No século XIII, em em mil duzentos e cacetadas, os goliardos eram esses tais ali pela Europa. E essa raça aí era composta por religiosos ou estudantes universitários que cheios do tédio se mandavam das escolas, abadias ou conventos, e iam pra gandaia se empanturrar de sexo, vinho e música (não muito diferente de hoje com essa de sexo, drogas e rock, né?) pelas tabernas de então, vivendo às custas das putas, dos freqüentadores embriagados e dos admiradores da sacanagem em geral. Era uma raça errante.
Pois foi esse povo aí que escreveu os poemas (em latim e alemão) que foram encontrados na abadia de Benediktbeuern, na Bavária, em 1803, e que Carl Orff musicou, e virou a ópera Carmina Burana (Poemas de Beuern). Tava ouvindo um trechinho aqui e parecem inocentes hoje. Mas naquele tempo em que a igreja tentava travar a libido ( que mesmo assim explodia), era um chute no saco dos conservadores.
Tem versos louvando a bebida, a natureza e o sexo, como esses:
Amor volat undique,
captus est libidine.
Iuvenes, iuvencule
coniunguntur merito.
Siqua sine socio,
caret omni gaudio;
tenet noctis infima
sub intimo
cordis in custodia:
fit res amarissima.
O Amor voa por toda parte,
capturado pela libido.
Rapazes e moças
se juntam corretamente.
A garota sem um parceiro
perde toda a alegria;
tem a noite escura
presa no íntimo
de seu coração:
quanta amargura!
domingo, agosto 19, 2001
quarta-feira, agosto 15, 2001
Invertebradas criaturas
Mesmo sendo meio despirocada a natureza tenta equipar os homens e os outros bichos com os mesmos ou parecidos apetrechos. Assim, se as gentes são dotadas dos sentidos, aqueles cinco que as ciências atestam (penso eu que são mais), e desfrutam se lambuzando com o gosto gostoso das coisas, se arrepiam nos mais suaves e leves toques táteis, se alertam com as fragrâncias dos cheiros cheirosos, se extasiam espiando as belezas espalhadas por aí e se deleitam com a harmonia dos sons, os bichos pequenos, os ditos inferiores, aqueles que tão ali no começo da escala da vida, também são contemplados com isso. E nos invertebrados insetos parece que a coisa é mais ou menos assim:
Paladar
Nas lagartas, borboletas e outras iguais, mais que prazer gastronômico, o paladar pra elas funciona é como sobrevivência. Elas são é o paladar dos outros, dos predadores, geralmente aves, e pra ficarem intragáveis se alimentam com substâncias tóxicas que só elas conseguem comer, e ficam com um gosto desgraçado de ruim que ninguém se atreve a bicar. E assim vão preservando a espécie. Tem delas que ficam tão amargosas que afastam até semelhantes da mesma espécie.
Tato
Nos invertebrados em geral, os receptores táteis são assim que nem filamentos, pêlos ou saliências sensíveis ao atrito, contato ou à pressão. O contato tem que ser suave e não resistem muito à pressão, se apertar um pouco mais, eles ploft...
Olfato
Tem função fundamental no acasalamento, e o feromônio é o tal e é quem manda e estimula as trepadas. Pode ser sentido a quilômetros de distância. E nos insetos os receptáculos olfativos ficam ali pelas antenas, que têm lá uns poros minúsculos e é através deles que as ramificações das células sensoriais entram em contato com o ar. Quando o ar fica impregnado de outros cheiros estranhos ao meio, os bichos costumam perder o rumo. Fora do cheiro dos grupos deles se desnorteiam
Visão
Os insetos têm olhos variados, desde o ocelo até olhos compostos, um monte deles. Mas creio que isso não é muito bom porque cada olho capta só uma fração da coisa e quando junta tudo dá uma noção fragmentada, não muito precisa, assim como quem sofre de astigmatismo. Nunca vê o semelhante como ele é, se assusta com o igual e perde umas oportunidades. Buscam formosura e não conseguem enxergar. Agora pra ver predador é dez, por isso que eles se picam rápido quando pinta um.
Audição
Aqui a natureza não conseguiu fazer muita coisa, parece. Poucos invertebrados têm sistemas auditivos, e os que têm é uma lástima, são precários. Servem mesmo, segundo quem se dedica a estudar isso, é pro equilíbrio, pra evitar aí uma labirintite e tal. De qualquer forma essa quase ausência tem uma serventia: evita que os coitados sejam bombardeados por certos sons musicais que azucrinam muitos ouvidos por aí.
Pensando bem, e mal comparando, têm lá umas similitudes com as gentes supostamente superiores, né não?
terça-feira, agosto 14, 2001
Reverso
Por tudo e nada o que me falta agora é um desvelo, e o som da voz também ainda guardo aqui neste meu degredo, e um olhar me mira perdido e fixo de dentro desse retrato quase roto e diminuto, e provoca em mim uma desolação forte e passageira, e aí eu já não sei e nem tampouco distingo o que de fato acontece, e me pergunto se entre mim e ela é só a distância que separa ou é o tempo, com suas dobras, que desnivela.
Ave vulva e tudo
Venus 4 from Roc-aux-Sociers, Upper Paleolithic ca 14 000 BP
É na vulva, ali nas delícias dos tais lábios
que o macho viril se queda e é dominado
seja ele um mortal comum ou seja sábio.
É onde começa esse fosso bocetal
e o homem diante desse morno e úmido orifício,
desse canal misterioso, se rende fascinado,
porque além de provocar prazer e muito gozo
é também caminho natural para o ovário
que é onde a mulher fecunda e elabora
outros seres com iguais propriedades.
É porta de entrada pra germinação da vida
e é por lá que toda nova vida também sai.
segunda-feira, agosto 13, 2001
"Eppur, si muove!"
É, sucede que o mundo gira, e em cada giro que dá um monte de coisa muda, e é por isso que é bom, pois se tudo fosse parado e as coisas sempre iguais seria uma merda este mundo.
Daí se ontem uma coisa assim era, hoje já não é igual ao que foi, e amanhã do mesmo jeito segue nessa mutação. Vale pra tudo, e até pros sentimentos, e o amor que tenho agora, se bobear, daqui a pouco já era, e logo depois pode ser outro. E isso não tem nada de volúvel, é só a dinâmica das necessidades das humanas e mutáveis criaturas. E viva a vida, porque ela se acaba é ligeiro e logo.
domingo, agosto 12, 2001
Emasculando ninguéns
Na mídia, toda notícia, seja ela boa ou ruim, traz sempre um malícia embutida. E a tétrica notícia do jornal informava que ali morreu mais um, e o corpo que jazia estendido naquele chão devia ser de um jovem de não mais de 20 anos, que além das várias escoriações também havia sido castrado. E perguntava o porquê.
E essa pergunta me remeteu a um castrado famoso que viveu lá pela França há 800 anos passados, o Pierre Abélard, aquele Abelardo, o grande amor de Heloísa. O da história real de amor de Abelardo e Heloísa. Teria sido o motivo parecido? Uma intolerância igual aquela?
Abelardo era um moço brilhante, que transitava garboso pela elite intelectual da Europa, e aos 22 anos já era guru de muita gente daqueles países lá, tinha uma escola de filosofia e refundou os conceitos da dialética. Heloísa tinha só 17, se interessava pelas coisas do saber, e era atraente demais. Foi estudar com ele por ordem do tio dela, cônego Fulbert, e não deu outra: paixão doida e muito amasso e sacanagem. Se lambuzavam de amor, numa trepação que resultou em gravidez. E por causa disso esse Fulbert aí mandou cortar a cru os possuídos de Abelardo, que assim mutilado e desapetrechado de suas bolas viris virou abade. Heloísa foi ser freira e trocaram cartas de amor até ele morrer ao 63 anos. Bela, verídica e trágica história de amor que inspirou tantas outras famosas de amores impossíveis.
O moço que morreu anônimo e capado talvez não se interessasse pelas coisas do espírito como Abelardo, mas será que houve uma história de amor por trás dessa castração? Como ele era pobre, desprovido da grana e da fama, não circulava nos circuito culturais, provavelmente nunca se saberá se foi vingança passional, queima de arquivo, ou só a desova corriqueira de um "presunto". E dessa vez com mais requinte.
sábado, agosto 11, 2001
Xô, anjo chocho
Tenho muito receio de anjos. Não desses celestiais, de cabelos sempre iguais e asas de muitas plumas, porque esses, modelo barroco ou gótico, me parece nem existem. Meu temor é dos pretensos, é do tal do anjo torto, do fajuto, da criatura humana que incorpora essa vontade e pensa logo que é um. Essa é perigosa, e como assim se considera, inventa seu próprio código, como se dos anjos fosse, e se dana a fazer estragos, dizendo que é o contrário. Em vez de código, isso é arma defensiva e morna que ela sempre dispara por frustração ou vingança, e nesse ofício fictício só destrói
Meu sentimento é quer tem um anjo fuleiragem desses aí dando uns calços em mim, solapando, pelo lado de lá, emprenhando pelos olhos ou pelos poros, tentando dar cabo de uma sólida querença que nascia e que eu queria que fosse muito mais que isso só. Queria e quero.
quinta-feira, agosto 09, 2001
Pulsão de tudo
É ali, no âmago de cada um, onde a pulsão da vida irrompe, o lugar em que as coisas do amor e das demais se encontram e se resolvem, por via das harmonias da gente com a gente mesmo, ou então se dissolvem pelo viés dos conflitos que azucrinam o juízo de todo mundo que o tem. E nessa altercação os sentimentos balançam, e se o que tá em jogo é o amor, enquanto ele, o amor, não se manda, nada apazigua e tudo se exaspera.
É bem capaz de ser por isso que em mim agora se constata uma exacerbação desse sentimento, na forma de desejo e sem pudor, que me deixa mais sensível do que antes.
quarta-feira, agosto 08, 2001
O fuzuê da clonagem
A cambada da clonagem botou o berro no mundo, dizendo que vai clonar gentes recrutando quem quiser se habilitar, e iniciou mais uma pendenga cheia de lero e lenga, uma dessas já manjadas entre a ciência e a ética e também religião, e que sempre resultou no triunfo da primeira. Não tem barreira que barre, nem nunca vai ter fronteira pra limitar essa sede das criaturas humanas de ir além, de entender, de inventar e criar, produzindo quase sempre um avanço conseqüente pra essa estupefata humanidade. Quase sempre, porque sendo que nem faca de dois gumes, cada qual mais afiado, o conhecimento gerado tanto salva como mata.
Mas começou a gincana, daqui pra frente vai ser uma correria pra ver quem chega primeiro com um clonado na mão pra mostrar o seu troféu. Pode dar certo ou não. Se der certo vai mudar tantos conceitos e costumes que a maioria do povo que vive agora decerto vai é pirar. E eu cá só quero ver é o fuzuê que isso vai detonar.
terça-feira, agosto 07, 2001
Reciclando o juízo
Tô querendo dar um trato nos meus confusos miolos, pra ver se eles cobertos com capas de indiferenças não deixem que eu me ligue, nem tampouco me apegue, assim de primeira e tão rápido, a outras desatentas criaturas, e me preservem também das previsíveis angústias que a frieza provoca.
E assim com esse escudo, pode ser que eu me proteja, e não mais use com afinco essa desusada arte de cultivar um querer.
segunda-feira, agosto 06, 2001
Fêmeas
Admiro esse paciente povo que se dedica a xeretar a vida e o comportamento do chamados animais sociais, esses que estão uma escala abaixo de nós, os ditos selvagens, pelo o saco que tem de observar, dia após dia, a rotina dos inquietos e imprevisíveis bichos e pelas curiosas descobertas que faz. Como se sabe, eles praticam a sociobiologia que é um sub-ramo da própria. Não sei muito bem qual a utilidade disso, mas considero interessantes os resultados dessas observações.
Descobriram ali, naquelas intermináveis horas de acompanhamento que as mamíferas fêmeas desse mundo irracional, em geral são assim: agressivas e belicosas nas atividades cotidianas e corriqueiras como caçar e proteger o bando. Mas são dóceis e receptivas a um parceiro específico no momento da reprodução, e aos filhotes durante a amamentação. Também quase sempre cabe a elas a escolha do companheiro, e buscam sempre que possível um único, que precisa reunir algumas qualidades para gerar e manter suas crias, além de provar que dá no couro e que é digno de sua atenção e confiança.(Minha dúvida é se pinta amor nesse chamego, e se elas acertam mesmo nessas escolhas).
E tem mais. Por terem certeza da origem de sua prole, o que não ocorre como os atormentados machos, são um recurso de altíssimo valor, a ser conquistado e preservado.
Nesses aspectos, e tirante umas exceções, parece que aquele mundo das espécies selvagens de lá não tá muito distante desse mundo da nossa espécie domesticada de cá.
sábado, agosto 04, 2001
Suplícios
O desejo não se doma, pensamento também não. A história do homem tá repleta de tentativas frustradas de subjugar as vontades, seja pelo método suave da doutrinação, ou pela via infame da truculência pauleira. Parece que foi mesmo na idade média onde o desejo humano foi mais reprimido, pois foi naquele tempo lá que os odiosos instrumentos de tortura física foram mais utilizados pra penalizar com terríveis mutilações quem ousasse contrariar, publicamente, as regras dos desejos bitolados pelos costumes.
E o desejo dito lascivo foi um dos mais perseguidos. Os homens viviam se engalfinhando em guerras idiotas, em busca de mais poder, deixavam as mulheres sozinhas, mas tinham um medo danado de se tornarem cornos, porque a rapaziada imberbe e vigorosa não ia pra guerra e ficava ali rondando o mulherio que por sua vez tava naquela abstinência forçada. Aí surgiu a infeliz idéia do cinto de castidade ( devia ser desconfortável pra caramba), que se por um lado diminuiu a relação sexual com penetração, por outro desenvolveu no povo as artes das bolinações.
Lembrei dessas coisas aí por conta das notícias do Afeganistão, daquele povo Taliban, mulçumano radical, que com idéias obscuras tenta reviver a face mais cruel da idade média, e eliminar o desejo das pessoas, principalmente das mulheres, impondo costumes medievais, e proibições absurdas como essa de impedir que as meninas continuem a estudar depois dos oito anos de idade, com a intenção deliberada de deixá-las na mais completa ignorância.
Os suplícios da idade média já passaram, esses também certamente passarão, porque não se encurrala a liberdade pra sempre, e nem se consegue segurar o desejo das gentes por tempo indeterminado.
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