segunda-feira, março 25, 2002
Fetiche em preto e branco
Uma moça sentada, uma perna dobrada num sossego fotográfico, uma rótula perfeita e rutilante. Sobrancelhas simétricas num arco quase barroco. Um jeito pasmado, um olhar amado, um olhar. Uma moça sem igual, uma imagem cravada no meu cerebelo, palavras dela tatuadas em mim, um amor fincado no meu peito numa surpreendente invasão consentida. Uma dor de não ter que não sara nunca nem tem cura.
quarta-feira, março 20, 2002
Ser avesso do avesso nem sempre resolve
Não sei se por defeito genético, herança de rebeldia, vício de criação ou por doença qualquer sou avesso a tudo que é disciplina, não me pauto por agenda, fico puto com rotinas e tudo que é método me engasga. Pois que pra mim, toda lógica tem ardil, tudo que é sólido tem uma parte movediça, tudo no mundo se move, todo mundo é diferente, todo rio tem um leito mas a água que nele hoje passa não é a mesma de ontem, nenhum caminho de ida é igual ao de voltar. Todo senso é conformista, seja comum, seja único.
Daí que por conceber dessa forma essas e outras coisas cheguei quase a conclusão que não alcançarei, nunquinha, o supremo prazer de ser assim uma criatura disciplinada, líquida e certa, feito essas que conseguem ser.
Pode ser que isso seja mesmo é um tremendo escudo pra me desobrigar da chatice do cotidiano, e, de quebra, livrar minha alma dessas culpas escrotas que azucrinam a gente todo dia. Tem dia que livra, mas... tem outros que não.
segunda-feira, março 18, 2002
Veleidade
Amanheci com a alma em rebuliço e o coração agitado, inquieto e ávido que só. Me ocorreu então dizer umas coisas, umas pra sossegar essa quase comoção corpórea e extra-isso. Daí eu me lembrei que o Benedetti, aquele Mario, já havia poemado coisa parecida. Neste caso vai o que disse a alma dele porque poeta tem primazia.
Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte
tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte
tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte
o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.
(Benedetti, Mario - Viceversa)
sexta-feira, março 15, 2002
Paradoxo
Aqui é a casa do sol, lugar onde ele decide os solstícios e equinócios. O bicho mora o ano inteiro por essas bandas de cá e bronzeia o povo todo compulsoriamente por incidência ou mormaço. Tão exibido e constante que nem os nossos albinos conseguem ser branco total. A salvação é a brisa permanente que ameniza a quentura e cria a ilusão que ele não existe e seja percebido apenas pela intensa claridade que provoca.
Pois sim, eis-me cá, nessa propalada terra do sol, paradoxalmente agarrando com toda força e vontade uma fina réstia, um raio desse sol de um outono que promete outonar. Seguro com jeito e carinho pra que não escapula, não se mande, não se vá por entre meus dedos.
segunda-feira, março 04, 2002
Efeméride
Março é um marco em mim porque foi no primeiro dia dele que nasci. Mas não sei muito bem o significado de nascer em março, e nesse exato dia (que aliás já passou). Sei apenas que todo ano quando esse dia chega o tempo me dá mais um nó. E chego cá, na altura desses anos todos mais ou menos sossegado, nem combalido nem eufórico demais, apenas ciente do implacável avanço do determinismo temporal e de que dele não se pode desertar. Ele sempre vem.
Também tô consciente que a vida útil que me resta não tem prazo líquido e certo pra se encerrar. Tirante o inusitado de uma bala perdida ou um acidente qualquer, alongar ou abreviar minha preciosa vida só depende de mim, e por mim ela há de ir longe, muito longe.
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