sexta-feira, agosto 30, 2002


Cobra ou camaleão

Parece que este blog tem uma necessidade latente de mudar de pele, ora que nem cobra, se livrando do fardo do couro gasto, ora como camaleão, mimetizando, de leve, as nuances coloridas que o ambiente emana.

E eu, que pouco sei de códigos e cores, me lasco todo mexendo nos instestinos pouco amigáveis desses tais templates pra atender aos caprichos compulsivos deste inanimado blog e de mim.

Hoje mudamos as vestes, mas a essência permanece a mesma, como sempre.

quinta-feira, agosto 29, 2002



Feito feitiço

Toda vez que me encanto me quedo rendido.


quarta-feira, agosto 28, 2002



Raso

Amealho todo dia, aqui e ali, um pouco disso e daquilo. E como se sabe, isso e aquilo alimentam o dia-a-dia e dão sustância à vida.


segunda-feira, agosto 26, 2002



Debelar

Se a ruptura trinca, aparta ou fende, há que buscar a sutura que junta, cola e fecha.




sexta-feira, agosto 23, 2002



Alvíssaras

Mesmo comedido não tô cabendo em mim, e minha reclusa alma, agora ávida, reclama por outra que também lhe clame.

terça-feira, agosto 20, 2002





Azul




O vôo. O azul e seus matizes, o claro dia, as claras coisas e a alma alçada ao ponto-porto calmaria, aquele que se quer chegar. Desanuviou, ou quase. Tá tudo ficando azulzinho. Tomara que fique.




sábado, agosto 17, 2002



Incompleta trajetória

Latente desejo já confessado, dito, explicitado, traduzido em vontade e revelado em tortas palavras. E as palavras, por via de uns mistérios, duns enigmas ou sortilégios, há muito que estão lá, mas a resposta não pinta.

E assim a jornada não se completa, nem o destino se cumpre pela sentida ausências dessas palavras esperadas.




quinta-feira, agosto 15, 2002



Telegráfico

Eu amo. Ela ama, não proclama. O tempo encolhe, a janela é o visor do mundo e oráculo de nós. O vaticínio em parte se confirma. O círculo se fecha, o entorno é redondo. Tudo aproxima, quase tudo periga nesse altar de conchas, puro mistério e nele me emaranho, sem susto ou sobressalto. Sortilégio, visgo que nos ata, mesmo longe perfeita percepção. Enfim, afins, a fim. A espera, a espera, a espera.

Quando, por fim?


segunda-feira, agosto 12, 2002



Presságio

Pressinto que me espera
só não sei se é nesta
ou noutra distante era.


sábado, agosto 10, 2002

           Saartjie Baartman, uma mulher
                                              


Ali, na região de Hotentote, na África do Sul, as mulheres da etnia khoi-khoi sempre foram assim de belas feições e formas exuberantes, com nádegas salientes e coxas desenvolvidas. Saartjie Baartman também era igual às demais e tinha uma particularidade: acentuada hipertrofia nos lábios vaginais.

Em 1810 um sacana holandês-inglês, o médico William Dunlop zanzava por lá, deparou-se com ela e sacou logo que podia ganhar uma grana fácil exibindo-a na Europa, pois destoava do padrão da mulher européia geralmente desprovida desses atributos. Ela só tinha 21 anos e foi convencida a viajar com a promessa de melhorar de vida.

Na verdade passou a ser explorada da mais infame, sórdida e degradante maneira, exibida nua como um animal selvagem, “como um caso assombroso da natureza” em circos, bares, bordéis e até universidades. Passou a ser conhecida como Vênus hotentote.

O pessoal de Londres que na época combatia a escravidão fez pressão e ele se mandou com ela pra França e continuou fazendo a mesma coisa lá. Submetida a todo tipo de humilhação, tendo cada naco da sua anatomia vasculhada, servindo até aos baixos instintos sexuais de quem quisesse ter um “gozo animal” morreu, certamente de banzo e desamparo, entregue ao alcoolismo, contaminada pela sífilis e tuberculose numa lenta agonia, aos verdes 25 anos e teve seus incomuns órgãos sexuais e o cérebro retirados e colocados num vidro com formol passando a ser atração de museus. Seus ossos também foram guardados. Sua saga macabra continuou até 1976 quando a África do Sul começou um movimento pela repatriação dos seus restos mortais e restauração da sua dignidade.

Agora a assembléia nacional da França aprovou a devolução do que restou e que era patrimônio do Museu do Homem de lá.

Depois de quase duzentos anos finalmente ela retornou pro seu canto, mas a vergonha não foi apagada, não acabou o preconceito nem a mancha da discriminação que ainda pulula por esse mundo onde o vivente humano até hoje não aprendeu a respeitar os semelhantes nem os diferentes.


sexta-feira, agosto 09, 2002


Cativo

Não tem como deter um querer, um desses que sorrateiros se instalam dentro das humanas criaturas, porque tudo quanto é flanco de repente fica frágil, e uma languidez se apodera do corpo e do pensamento e devasta, sem nenhuma piedade, as possíveis resistências.

Daí tudo se torna vulnerável: da cabeça ao peito, da anca ao pé. Num estado de puro estupor.


terça-feira, agosto 06, 2002



Enredado

Paulo César Pinheiro escreveu, Dory Caymmi musicou e virou "Desenredo".

Por toda a terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tranças do teu desejo
O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo
Ê Minas, Ê Minas
É hora de partir eu vou
Vou me embora pra bem longe
A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo



domingo, agosto 04, 2002

Luz, sombra e reflexo



Portas e janelas escancaradas pro mundo pra que a claridade devasse cada canto devassável dessa casa-coração e expulse de mim esses resquícios de ave noturna, e reduza esse gosto pela sombra no jogo do claro-escuro.


Mas não só pra isso. Abertas também pra que eu possa, do mesmo jeito da claridade, devassar o mundo que me reflete.

sábado, agosto 03, 2002



Indícios

Não ressoa nem reverbera mais. O eco tá calado ou mudo, a luz não rutila nem cintila como dantes. Hora de escapulir, presumo.


sexta-feira, agosto 02, 2002



Atar

Parece que não há, fora das livres metáforas, uma via de atalho simples ou sinuosa, capaz de entortar retas banais e encurtar curvas complicadas pra cingir cada um a cada qual que se queira.

E na ausência de um suporte assim os lamentos só proliferam.