sábado, junho 29, 2002
sexta-feira, junho 28, 2002
Amava
Aquele Gregório, o de Matos, era mordaz, sarcástico e contundente que só. Baixava o cacete nos costumes do seu tempo, gostava de dá uns nós nas hipocrisias reinantes e era sempre certeiro nas críticas e nos torpedos lançados. Mas tinha um coração apaixonado por uma donzela e se derretia todo quando pensava nela, e se angustiava assim:
Ó tu do meu amor fiel traslado
Mariposa entre as chamas consumida,
Pois se à força do ardor perdes a vida,
A violência do fogo me há prostrado.
Tu de amante o teu hás encontrado,
Essa flama girando apetecida;
Eu girando uma penha endurecida,
No fogo, que exalou, morro abrasado.
Ambos de firmes anelando chamas,
Tu a vida deixas, eu a morte imploro
Nas constâncias iguais, iguais nas chamas.
Mas ai! que diferença entre nós choro,
Pois acabando tu ao fogo, que amas,
Eu morro, sem chegar à luz, que adoro.
quinta-feira, junho 27, 2002
O embate
(Final Brasil x Alemanha)
Nesse confronte que se aproxima, esse de domingo, entre as chuteiras de lá e as de cá, convém talvez, para destrinchar a natureza das fraquezas e fortalezas de cada um, saber a origem de cada qual, tirar proveito disso e montar as estratégias e táticas. Pode ser de grande serventia nesses tempos de muitas ciências.
Pois no princípio pintaram eles e nós assim:
Nós
(...)/ estará bem empregado todo o cuidado que Sua Majestade mandar Ter d'este novo reino; pois está para edificar nele um grande império, o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão soberano que seja um dos Estados do mundo.."
(...) Tem estes índios mais que são homens enxutos, mui ligeiros para saltar e trepar, grandes corredores e extremados marinheiros, como os metem nos barcos e navios, onde com todo o tempo ninguém toma as vellas como elles; são grandes remadores ... são também muito engenhosos para tomarem quando lhes ensinam os brancos, como não for cousa de conta, nem de sentido: porque são para isso muito bárbaros. (Gabriel Soares de Sousa - Tratado Descritivo do Brasil - 1587)
(...) com grande tripúdio matam os prisioneiros, tendo-os engordado cuidadosamente por alguns dias, e comem-nos assados em espetos. Marcham alegres para a morte aqueles a quem está reservado tal destino, e publicando como de uma resenha, as façanhas praticadas contra os seus próprios verdugos, unfanam-se de não morrer sem vingança." (Gaspar Barlaeus - Rerum per Octennuim in Brasília -1647)
Eles
(...) Toda a Germânia está separada das Gálias, da Récia e da Panônia pelo Reno e Danúbio; da Sarmátia e da Dácia por alguns montes e por seus mútuos temores (...)/ com habitantes e reis que a guerra nos fez descobrir recentemente. O Reno nasce de um despenhadeiro inacessível dos Alpes Récios, e depois de torcer um pouco para o poente desemboca no oceano setentrional. O Danúbio, espalhado de um monte pouco elevado e de acesso suave no monte Abnoba, passa por muitos povos até que se lança ao Ponto Euxino por seis bocas, a sétima some nos pântanos. (...)
(...) Creio que os germanos são naturais da própria terra e que jamais se mesclaram com a vinda e hospedagem de outros povos; pois, antigamente, todos que emigravam não iam por terra senão por mar e são raros os navios que de nosso mundo se aventuram a penetrar no Oceano imenso e, por assim dizer, oposto ao nosso. Ainda sem o perigo e o horror de um mar desconhecido, quem abandonaria a Ásia, África ou Itália para dirigir-se a essa Germânia(...)
(...) Sou da opinião dos que crêem que os povos da Germânia não se alteraram por casamentos com nenhuma outra nação e que são uma raça singular, genuína e semelhante só a si mesma. Portanto, possuem uma perfeita analogia de figura entre eles, ainda que tão numerosos; são de olhos azuis e selvagens, de cabelos ruivos, corpo avantajado e forte só para o ataque violento, mas não suportam com resignação os trabalhos e as fadigas, metem-lhes medo o calor e a fadiga, todavia toleram a fome e o frio por afeitos à avareza e à inclemência do clima. ( Tácito - Germania - 98 d.C.)
Penso que sabendo desses macetes já dá pra gente deduzir quem vai pro beleléu no domingo, né não?
segunda-feira, junho 24, 2002
Bis
Há mais ou menos um ano eu cravava esse lastimoso post aí embaixo neste meu desconsolado blog, parido num desconforto sensorial que as perdas quase sempre provocam. Hoje ele ressurgiu na minha memória, e ficou ali engasgado nos meus gorgomilos, próximo do tal pomo-de-adão, como se fosse um nó ou uma tampa que abafa.
Desconfio que seja uma artimanha dessa minha ardilosa alma pra conter possíveis soluços, lamentos ou gritos. Taí:
Pranto
Dia a dia me convenço
que pra lágrimas de amor
é inútil ter lenço
sexta-feira, junho 21, 2002
Beat
Esse cara era daquela geração, aquela beat, que deu um peteleco no conformismo e inventou a contracultura e provocou o maior rebu na estética da literatura americana ali do norte e que respingou no resto do mundo.
A partir deles o babado comportamental deu um salto, embora consumissem anfetaminas e outras drogas como quem bebe água, eram ativistas civilistas e quebraram o maior pau pra legitimarem a inserção social e plena cidadania dos negros, mulheres, homossexuais, deficientes físicos e tudo o mais que era considerado de terceira classe e tal.
Quase todo mundo passou a escrever diferente depois deles. Taí um dos:
Arte É Ilusão, Pois Eu Não Ajo
Fico ou Parto - com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.
Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.
Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fé e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.
( Allen Ginsberg)
quinta-feira, junho 20, 2002
Mundo bola
Taí a suplicatória reza do povo de lá, aquele fleumático inglês, contra as mandingas do povo de cá pro jogo de logo mais. Tá tudo redondo no mundo.

quarta-feira, junho 19, 2002
Hediondo
O povo desgarrado da vida, esse que foi empurrado pro subsolo da existência por incapacidade de adequação ou vontade própria, os chamados mendigos, os pirados, os dependentes químicos, vagabundos e desencantados, os sem porra nenhuma que sobrevivem nas ruas do mundo agora são protagonistas de um show macabro.
Li aqui que dois sacanas que sacam bem os baixos instintos dessa nossa escrota raça humana estão ficando milionários explorando as mazelas desse povo. Os bichos fizeram um vídeo chamado Bumfights, qualquer coisa como Lutas de Vagabundos, que mostra um grupo desses indigentes lutando entre si, rachando a cabeça contra cartazes nas paredes ou arrancando seus próprios dentes com uma torquês, como se fossem pregos, na frente das câmeras com direito a risadas do câmera. Tudo isso por umas mirradas merrecas. Uma vil e despiedosa tortura.
Diz que ainda tem um segmento chamado Bum Hunter (Caçador de Vagabundos) que mostra um sujeito vestido de safári e que sai de noite em busca desses coitados e quando surpreende um dormindo amarra seus pés e braços e tapa sua boca com fita adesiva. Um horror parecido com o que já fizeram por aqui com índio e mendigo, só que aqui com a extrema crueldade de tostar no fogo aqueles desvalidos.
Tem quem faça isso e filme pra vender ( e tá vendendo uma barbaridade nos Estados Unidos e Inglaterra) e tem quem compre pra curtir. Aí é que minha descrença nessa insensata e dita raça humana aumenta. E me pergunto cá se algum dia a gente será capaz de abolir definitivamente os resquícios de instinto animal que nos persegue, esse que tá inoculado no nosso sangue como herança maldita e que vem desde quando a gente era um bicho puro, violento, sem as nuances domesticadas de hoje.
Pra mim tá é longe o dia desse instinto ser domado.
terça-feira, junho 18, 2002
sábado, junho 15, 2002
Translação
Parece que o meu ponto de equilíbrio, aquele de gravidade, fica é fora do eixo normal, como o dos malucos e de outros detonados da vida. Esses estão sempre de pé, o mundo é que se desordena e sai de órbita, embirutece.
Percebi isso hoje quando pensei que estava de ponta cabeça, no chão, e estava mesmo era de pé, no ar. E nesses tempos de bolas sendo chutadas pra todo lado dei um chute na tristeza que insistia em ficar perto de mim.
sexta-feira, junho 14, 2002
Caminhos
Todo ponto tem o seu ponto invertido que a ele se contrapõe. No caso da euforia seu contrário é quase sempre aquilo que desaponta. E a distância que separa cada um dos contrapontos pode ser longa ou não, depende de quem percorre.
Embora eu pareça um atleta da desilusão, não consigo vencer essa distância tão rápido como alguns conseguem, mas sempre chego, e tem vez que chego inteiro, noutras me quedo estropiado. Talvez seja porque pra mim esses caminhos nunca são iguais, sempre mudam, e pros outros sejam sempre os mesmos.
Penso que sei distinguir agruras verdadeiras de coisas fantasiosas e tenho a exata noção que a mistura desesperada das duas pode pirar e pifar o quengo de muita gente. Vira e mexe sou tentado a exagerar na mistura. Nunca pirei, mas confesso que aqui acolá saio meio chamuscado.
Parece que hoje eu fiz mais um desses percursos entre contrapontos e não cheguei eufórico nem combalido, apenas triste.
quarta-feira, junho 12, 2002
O meu amor proclamo
Há esse horizonte que não se amplia para além desse círculo estreito que me cerca, dessa sala, desse prédio, desse limite que a mim não me impus e que compulsoriamente teima em se antepor entre mim e a criatura ardentemente desejada. E lá e cá tem as circunstâncias da vida que atam vidas a outras vidas e produzem os laços que prendem e os nós que acocham. O estranho conformismo que resulta disso paralisa o passo, impede o salto e gera as ansiedades, as angustiantes incertezas, as tristezas por não se ter a quem se quer.
Aí o quengo arde, vira geléia, e o coração se aflige e incomodado se impacienta marcando passo. De quando em vez acelera e noutras quase pára. Bandido coração, esse meu apaixonado, descrente de pulsar junto do dela no compasso ou destoado, insinua que devo rumar noutro rumo, buscar aqui ou nas bandas de lá outro coração menos arisco.
E ainda tem o tempo que encurta e vai, e por conta dele, desse funil que se estreita, dessa vida útil que se dissipa, o desalento bate forte feito um exterminador de sonhos e de vontades.
Mas não desisto. As minhas vontades sempre se originam nas entranhas, são viscerais, e quando se incrustam ali dificilmente se abatem. Por isso o meu amor proclamo.
terça-feira, junho 11, 2002
Traducere
Ouvi essa música agora e estranhamente me vi traduzido nela. Deve ser porque o meu coração é bobo mesmo. De qualquer jeito taí pra rapartir com outros bobos corações.
Meu coração tá batendo
Como quem diz não tem jeito
Zabumba, bumba esquisito
Batendo dentro do peito
Teu coração tá batendo
Como quem diz não tem jeito
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
Coração bobo, coração bola
Coração balão, coração São João
A gente se ilude dizendo
Já não há mais coração
(Coração Bobo - Alceu Valença)
segunda-feira, junho 10, 2002
domingo, junho 09, 2002
sexta-feira, junho 07, 2002
quarta-feira, junho 05, 2002
Imperfeito
Pode até ser mais um desses meus descabidos delírios heréticos, ou ignorância mesmo, mas digo cá, correndo o risco de ser trucidado pelos estetas e filosofeadores, que a perfeição não existe. Nem nas coisas do comportamento onde é só uma exaustiva busca, nem nos baratos da beleza onde é só um eugênico sonho tolo. Mas tem quem se considere perfeito.
Felizmente a imperfeição se revela nas ânsias dessas procuras, e no acasalamento que resulta das querenças, seja de bicho ou de gente, dois imperfeitos têm muito mais chances de imbricação que dois pretensos perfeitos perfeitos, ou um de cada modalidade.
Pois sim, tô mesmo é proclamando aqui a minha assumida imperfeição.
terça-feira, junho 04, 2002
Gol
Nessa coisa de futebol, como no resto das coisas, o povo que tá envolvido adora complicar. Essa overdose de jogos tá me deixando zonzo de tanto ouvir as mirabolâncias táticas dos técnicos e críticos. Não manjo muito desse metiê, mas me parece que se se tem algum talento pra chutar uma bola esse ofício é até simples. As táticas é que atrapalham.
Me lembrei de uma tirada de Gentil Cardoso, um desses sábios das areias deste nosso imenso patropi, que dava uma lição singela pra esse esporte e que vale pra vida: quem pede tem a preferência, mas quem se desloca recebe. Simples, né?
Agora, se eu fosse técnico de futebol seguiria essa filosofia aí e mandaria atacar em xis e defender em ziguezague.
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