terça-feira, dezembro 30, 2003


Tempo, tempo, tempo...




A raça humana é esquisita mesmo e, por conta desse privilégio estranho de pensar e raciocinar, desenvolve manias, inventa coisas, ritualiza. Medir, pesar, contar e mais um monte de estranhices fazem parte desse rol de maluquices que os bisbilhoteiros da mente alheia, esse povo que tem por ofício fustigar os baratos das cucas ditas perturbadas, classifica de transtornos e tal (mas eles também não escapam disso! Pra mim, dado que isso seja verdade, todo mundo é transtornado).

Tenho cá comigo a desconfiança que até agora uma das mais extravagantes experiências humanas é essa de querer controlar o tempo, apartando o bicho em frações de segundo, hora, dia , mês, ano. Uma vã tentativa de estancar o tempo, não deixar que ele escapula. E visto assim, em escala reduzida de mês e ano, parece mais fácil suportar o desgaste que ele provoca nos ossos, na pele, na alma e em tudo mais.

O ritual, até certo ponto primitivo, da passagem de ano se enquadra nessa estapafúrdia teoria que tô desenvolvendo aqui, pois dando-se um chega pra lá no ano velho e louvando-se o ano novo que chega (e isso ta carregadinho de simbologias velho/novo, mas isso é outra conversa), tem-se a ilusão do recomeço, quando a verdade cruel é que do grito primal ao berro derradeiro do estertor da morte não há essa divisão física, biológica. O tempo é um e monotamente linear

Fui tétrico?

Independentemente de isso ser verdade ou balela, quero desejar mesmo é que todos tenham um belo ano pela proa.


quinta-feira, setembro 18, 2003


Até mais ver


Imerso em nada, este blog não fermenta, embora azede. Também não destila e permanece impuro. Daí que se pra deglutir o bicho já é ruim imagine digerir. Por isso resolvi dar um tranco nele, botar de molho em ácidas misturas e talvez assim ganhe sabor e cheiro, ou estrague de vez.

Enquanto isso ele fica aqui mofando no limbo de si mesmo, apodrecendo ou conservando-se no seu próprio caldo de cultura doido, numa incerta e inútil química, até que novos ventos soprem arejando o ambiente, e uma luz qualquer alumie a escuridão desse marasmo brabo que teima em me engolir.

Qualquer dia eu volto, ou talvez nem volte mais e escafeda pra sempre.


sexta-feira, setembro 12, 2003


Cinema




Depois de muitos anos revi ontem, em vídeo edição especial, Veludo Azul (Blue Velvet), de David Linch, um dos poucos e últimos americanos bons nesse barato de cinema de autor.

E pensei cá que nos tempos de agora parece que o cinema nem balança mais entre diversão e arte, vez que o entretenimento puro já mandou pras cucuias o que ainda restava de arte nessa dita sétima. Não é fobia contra o divertimento, coisa que quase todo mundo aprecia, eu incluso. É só um certo desconforto com a generalizada avacalhação dessa poderosa forma de manifestação artística, essa que tem a peculiar característica de possibilitar síntese com outras artes.

Sei que a grana comanda a lógica industrial desse métier, e até entendo que sem lucro farto o cinema já teria sucumbido; que seria impossível a incorporação dos avanços tecnológicos nos equipamentos de imagem, som e tal. Sei dos blablabás todos, e embora possa parecer, não sou um empedernido defensor do chamado cinema de arte que em alguns casos descamba mesmo é pra chatice.

Tá, pode me chamar de babaca pedante, mas não vou dispensar nunca um mínimo de estética - na forma e no conteúdo - desse povo que faz cinema, na hora da urdidura da história, por mais fuleira que seja.


quarta-feira, setembro 03, 2003

O povo do mundo é pobre

Pode até ser uma arapuca pra tungar otário, já que estão abertos à doação pra fazer umas caridades pelo mundo, mas os cálculos dos sacanas têm lógica matemática e são baseados em dados do Banco Mundial e outras referências sobre população e renda deste apertado mundo.

Pois sim, você põe lá no site Global Rich List o valor da sua abastada ou micha renda anual em dólar, e fica sabendo, com milimétrica precisão, se tá no topo dos bacanas ou no rodapé da miserabilidade mundial. E mais: qual a sua posição relativa em comparação com as demais seis bilhões de criaturas humanas que perambulam por este injusto planeta, e quantas são mais pobres que você.

Se você ganha, por exemplo, um minguado e ridículo salário mínimo brasileiro, sorria, pois mesmo assim ainda vai estar entre os 42% mais aquinhoados, será o indivíduo rico de nº 3.462.942.643 desse mundão ( longe que só do Bill, o Gates, aquele, o Nº 1), e na dianteira dos 2.537.057.357 pessoas mais lascadas que você por aí afora. Pode?

Donde se deduz que tirante os poucos realmente ricos, e um outro tantico mais que consegue ter uma vida confortável, o mundo tá infestado mesmo é de miseráveis, seres que conseguem sobreviver por puro milagre e que ainda acreditam que será deles o reino dos céus.


sábado, agosto 30, 2003

Efêmeros

Mesmo sem validade
sempre expira o prazo
do que penso ou faço


segunda-feira, agosto 25, 2003

Compensação

Muitas gentes aqui deste nosso incomum patropi ficaram indignadas com o Oxford Dicionary por ter incluído, na sua nova edição, um novo verbete para palavra Brazilian, que além de significar nativo do Brasil, é agora, também: Estilo de depilação no qual quase todos os pêlos pubianos da mulher são retirados, permanecendo apenas uma pequena faixa central. Tudo por conta de tal estilo ter sido inventado pelas bandas de cá.

Se vale como consolo, queria lembrar pro povo que ficou puto por ser equivalente também a um estiloso corte de pentelhos femininos, que a palavra Britânico, em certas paragens árabes hoje invadidas significa papel higiênico usado, ou popularmente papel cagado.

sábado, agosto 23, 2003

Mujeres

Acepipes, meizinhas miraculosas, águas perfumadas e mais um monte de coisas interessantes e curiosas você pode encontrar no Manual de Mujeres, publicacão anônima que circulou na Espanha por volta de 1500, com forte influência árabe. Aí vão umas, mas tem mais.

Para la flaqueza del corazón

Tomad una gallina y matadla. Y luego como la matéis, desolladla, y tiradle todo lo graso, y hacedla pedazos. Y ponedla en una alquitara de vidrio. Y poned con ella cuatro adarmes de nuez moscada, y otros cuatro de canela y de clavos y jengibre cada dos adarmes. Todas estas especias molidas. Y tapad la alquitara con masa, y ponedla al fuego. Y sacad el agua de ella hasta que se espese. Y como se espese, quitar el receptáculo. Y dad esta agua al que estuviere enfermo y sanará.

Receta de perfumes comunes

Siete onzas de juncia marina, ocho de albohol remojado en vinagre blanco y sacado el vinagre, dos de encienso, un poco de láudano, otro poco de espliego, carbón de sauz preparado en vinagre blanco lo que os pareciere. Todas estas cosas molidas, y pasadas por cedazo y juntas, amasarlas con goma de gante remojada en agua rosada un día natural. Y después de amasada, hacer de la masa lo que quisiéredes, pebetes o pasticas.

Receta para hacer chorizos

Carne de puerco magra y gorda picada, harina muy cernida, ajos mondados, clavos molidos, vino blanco, sal la que fuere menester. Amasarlo todo con el vino y después de masado, dejarlo en un vaso cubierto un día natural. Y después henchir las tripas de vaca o puerco, cual quisiéredes, de esta masa y ponerlas a secar al humo.

Remedio para que no torne a nacer el cabello

El zumo de limas batido con claras de huevos. Recién pelado el vello, ponerlo encima y polvorizarlo con polvos de jengibre. A tres o cuatro veces que se haga no tornará a nacer más.

Receta de un manjar dicho viafora

Almendras medio tostadas, majadas y destempladas con caldo grueso de gallina o carnero. Colada aquella leche y puesta en una olla, poner con ella carne de carnero que sea de pierna no muy asada, picada muy menuda, y un poco de azúcar, y canela y muy poco de jengibre. Y cueza meneándola siempre hasta que se ponga espeso. Y como sea cocido, haréis escudillas de ello con azúcar y canela por encima.

Untura para los pechos de paridas

Ocho onzas de olio violado, media escudilla de zumo de hierbabuena y otro tanto de zumo de perejil, una onza de vinagre y ocho de agua rosada. Hierva todo junto en una olla hasta que no quede más cantidad del aceite. Cuájenlo con un poco de cera. Y después que haya parido la mujer, cuatro o cinco horas, úntenle los pechos, y pónganle encima de cada teta un paño horadado por donde salga el pecho. Y fájenla con una faja limpia, y pónganle ençima unos paños mojados en agua rosada. Y hagan esto una vez cada día hasta que se le haya tirado la leche. Y desque no le venga leche, pónganle encima de los pechos un paño encerado con cera, y aceite de pepitas, y sebo de cabrito; y otro en el vientre con cera y aceite de almendras dulces, y sebo de cabrón. Y traiga estos paños lo que fuere su voluntad.



terça-feira, agosto 19, 2003


Esconjuros



A igreja difundiu, por via das necessidades, a noção simbólica e física de demônio e os males que ele é capaz de infundir na alma humana. A ciência, por outras circunstâncias, reformou os conceitos e engendrou o demônio interior abstrato, uma força renitente que vem de dentro e conturba ou excita desmesuradamente sentimentos e paixões de certas gentes.

E pra salvar das agonias as pessoas assoladas por essa desventura ficou assim: de um lado sacerdotes munidos de fé inabalável bradando rezas contidas no revigorado manual De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam (De Todos os Gêneros de Exorcismos e Súplicas), exigindo a imediata retirada do intruso para que se estabeleça a paz definitiva no âmago das infortunadas criaturas possessas. Do outro, os rompe-cucas, os intitulados psi, esses que se ocupam de fustigar, nos divãs dos consultórios, os quadrantes da alma nas busca dos tais demônios, que segundo eles, ela incorpora.

Os métodos são parecidos, os papéis é que se diferenciam: num alguém exorcisa, noutro há a auto-conjuração, mas o objetivo é igual: remoção das demoníacas agruras que deixam uma porção de gente desolada e combalida.

Se você tem lá seus capetinhas particulares e tá a fim de dá uns petelecos neles é só escolher a opção que lhe apetece.


segunda-feira, agosto 18, 2003

Anbíguo

Tudo que arfa geme?


quarta-feira, agosto 13, 2003

Tríade desiderato (ou três contos parcos)

Baliza

O mar imenso era o grande empecilho. Olhou para o horizonte indefinido entre as ondas e o céu e bebeu toda água doce que pôde.

Móbile

O requisito era ter asas. Não tinha. Ainda assim foi.

Raiz

Depois de tudo foi acometido de uma incontrolável vontade de caminhar. Contudo seus pés pesavam.


segunda-feira, agosto 11, 2003

Seu vestuário pode ser uma arma quente 
(contra você)

Pra quem considera que certas roupas e outros badulaques são desconfortáveis e prejudiciais à saúde agora tem o socorro das ciências. Pois sim, eles descobriram que o uso inadequado dos apetrechos que nos vestem e calçam quando não alejam, matam. Tá tudo aqui no The Guardian com estatísticas e tudo. Taí um resumo:

Gravatas

Gravata apertada estrangula a jugular e aumenta a pressão no globo ocular provocando glaucoma e até perda da visão. É a conclusão do Estudo publicado no Journal of Ophthalmology.

Calças compridas

Calça comprida é uma praga e provoca mais acidentes que qualquer outra peça do vestuário, e o mais comum deles é o tropeço quando se tenta vestir uma com muita pressa e se perde o equilíbrio. Nas muito compridas, tipo pantalonas, o risco é prender numa escada rolante, na porta de um carro ou trem, e por aí vai. Já as muito apertadas e de cintura baixa pressionam um sensível nervo que passa ali pelos ossos dos quadris e mucumbu produzindo um formigamento acompanhado de ardência chamado parestesia que desemboca na síndrome do túnel carpal. E o zip quando engancha nos pubianos pêlos ou na pele sensível ali de baixo?

Cuecas

Cueca tipo sunga pode tornar o homem infértil ou broxa (calça apertada também), e pode danificar os testículos. Os sensíveis escrotos segundo Dr Richard Petty, da Weymouth Street Wellman Clinic, de Londres, precisam de uma temperatura 2,2 graus centígrados abaixo da temperatura do corpo, e se eles ficarem muito aquecidos reduzem a testosterona e a conseqüência imediata é a diminuição da produção de esperma. Bagos presos e comprimidos ficam doloridos e sujeitos a câncer. (Manter os ovos sob pressão de roupa foi muito utilizado na Rússia, no século XVI, pelos homens para controlar a natalidade).

Calcinhas

Aquelas fio dental ou estreita demais além de irritarem a pele produzem o efeito correia criando a possibilidade de transmissão de bactérias da parte de trás lá pra frente provocando infecções como cistites. Como bactérias prosperam em ambiente morno e úmido, calcinha de fibra sintética, ou calça jeans apertada contribuem para um aumento de calor ali e o excesso de umidade afeta o pH da vagina, deixando-a mais propensa a infecções. Calçolas soltas de algodão são as ideais.

Sutiãs

Um sutiã desregulado pode causar dor nos seios e nascimento de cistos, restringir a respiração e irritar a pele dos ombros, e ainda provocar dor lombar. Mas não há nenhuma evidência científica de que provoque câncer.

Sapatos

O sapatos altos e estreitos deformam os pés, lascam a espinha dorsal, os quadris, joelhos, tornozelos, músculos da perna, criam os joanetes, aquela separação crônica do primeiro metatarsiano com a sua falange, e mais um monte de mazelas. Em termos de deformação equivale àquela antiga prática das mulheres chinesas, aquela de envolver os pés com bandagem pra eles não crescerem.

Melhor nu?


quarta-feira, agosto 06, 2003


Colibri




Ágil como o espírito, espreita, voa zunindo, sobrepousa suave em flores fêmeas, espalha pólen, verte vida e é misterioso como os felinos.

Lição 1 - Colibri canta

(...) são os únicos seres capazes de voar à ré; podem enxergar a luz ultravioleta que sinaliza certas flores; apresentam um metabolismo altíssimo, com as asas batendo num ritmo de até 90 vezes por segundo e o coração de até 2.000 pulsações por minuto; (...) entram em torpor noturno quando suas reservas energéticas se esgotam (...) comportamentos extremamente elaborados e uma variedade ímpar de vocalizações, com uma enorme diversificação entre as espécies (...)
Lição 2 - Colibri pára no ar ( o truque do vôo invertido)

(...) Ao contrário das outras aves, o beija-flor não agita as asas para cima e para baixo, mas para a frente e para trás, na horizontal, (...) Como a ligação da asa com o corpo não é rígida , ela pode ser revirada como uma hélice. Assim, de maneira semelhante a um helicóptero, formam-se redemoinhos de ar que mantêm o pássaro pairando. Esse vôo invertido, porém, só é adotado quando o beija-flor quer se alimentar (...)

Lição 3 - Como atrair um Colibri

(...) é necessário plantar árvores como cabreúva, canafístula, guapuruvu, quaresmeira e tipuana. Já entre as arvoretas, a amoreira-preta e a astrapéia são apreciadas por eles. E entre os arbustos, o assa-peixe, o limão, o manjericão e a orelha-de-urso. As trepadeiras, como o amor-agarradinho; as palmeiras, como a seafórtia; e as ervas, como o amor-de-moça e o margaridão-amarelo também são espécies que certamente atraem esses pássaros velozes.
(Trechos de estudiosos)

(...) Eu protegi teu nome por amor
Em um codinome beija-flor
Não responda nunca meu amor nunca
Pra qualquer um na rua beija-flor (...)

(Arias/ Cazuza/ Ezequiel)


segunda-feira, agosto 04, 2003

Imaginário

O imaginário popular é que nem uma química doida que pode transformar vilão em herói, pecador em santo, salafrário em gente fina e vice-versa. Tudo que cai nas graças do povaréu tem chance de virar mito ou lenda, e o que cai em desgraça dificilmente se recupera.

Lampião, o dito rei do cangaço, ainda é pra parte do povo mais idoso do interior brabo do sertão nordestino, o chamado grotão, ou politicamente incorreto cu do mundo, um justiceiro venerado capaz de armar o maior fuzuê até no inferno, vencer tudo quanto é diabo fazendo uma espécie de justiça divina.

José Pacheco, um antigo cordelista pernambucano, tal qual um Dante às avessas, imaginou Lampião no miolo do inferno, só que no maior quebra pau com a diabarada no cordel de sua autoria A Chegada de Lampião no Inferno. Taí uns trechos:

Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado
Que morreu numa trincheira
Um certo tempo passado
Agora pelo sertão
Anda correndo visão
Fazendo mal assombrado.
E foi quem trouxe a notícia
Que viu Lampião chegar
O inferno nesse dia
Faltou pouco p’ra virar
Incendiou-se o mercado
Morreu tanto cão queimado
Que faz pena até contar.
Morreu a mãe de Canguinha
O pai de Forrobodó
Cem netos de Parafuso
Um cão chamado Cotó
Escapuliu Boca lnsossa
E uma moleca moça
Quase queimava o totó
Morreram cem negros veIhos
Que não trabalhavam mais
Um cão chamado Traz-çá
Vira-volta e Capataz
Tromba-suja e Bigodeira
Um cão chamado Goteira
Cunhado de Satanás.
(...)
Houve grande prejuízo
No inferno nesse dia
Queimou-se todo dinheiro
Que Satanás possuía
Queimou-se o livro de pontos
Perdeu-se vinte mil contos
Somente em mercadoria.
Reclamava Lucifer:
— Horror maior não precisa
Os anos ruins de safra
Agora mais esta pisa
Se não houver bom inverno
Tão cedo aqui no inferno
Ninguém compra uma camisa
(...)
Leitores vou terminar
Tratando de Lampião
Multo embora que não possa
Vos dar a explicação
No inferno não ficou
No céu também não chegou
Por certo está no sertão.
Quem duvidar desta história
Pensar que não foi assim-
Querer zombar do meu sério
Não acreditando em mim
Vá comprar papel moderno
Escreva para o Inferno
Mande saber de Caim.



quinta-feira, julho 31, 2003

Assimetria

Peno entre seguir e não ir, e ainda assim aperto o passo. Percebo seu cheiro no ar feito um farejador de aromas e prossigo mesmo com a ausência de seus acenos. Seus rastros me guiam, mas deslizo em mim mesmo como quem derrapa e constato, desolado, que patino sem sair do lugar enquanto ela, serelepe, ruma na direção de outras plagas.


segunda-feira, julho 28, 2003

Manuela





Mais que “libertadora do libertador” Manuela Sáenz foi libertadora de si mesma e de um monte de mulheres que se espelharam nela. Nascida em 1797, aos 20 casou com um cara cheio das granas, o inglês James Thorne, e o deixou logo depois pra se juntar a Simón Bolívar na cama e no seu delírio panamericano.

Foi um amor impetuoso entre o general e a coronela, cheio de lances audaciosos pra época. Lutaram em batalhas campais, conspiraram na política, gozaram na alcova. Foram oito anos de um amor transgressor, até a morte dele em 1830. Ela morreu 26 anos depois ainda apaixonada e atuando pela causa da libertação da América do sul, dita espanhola.

Olha só a determinação da criatura respondendo, em carta, aos insistentes apelos do marido pra que retornasse pra ele depois que se mandou com Bolívar:

No, no y no; por el amor de Dios, basta. ¿Por qué te
empeñas en que cambie de resolución? !Mil veces no! Señor
mío, eres excelente, inimitable. Pero, mi amigo, no es grano de
anís que te haya dejado por el genral Bolívar; dejar a un marido
sin tus méritos no sería nada. ¿Crees por un momento que
después de haber sido amada por este hombre durante años, de
tener la seguridad de que poseo su corazón, voy a preferir ser la
esposa del Padre, del Hijo o del Espíritu Santo, o de los tres
juntos? Sé muy bien que no puedo unirme a él por las leyes del
honor, como tú las llamas, pero, ¿crees que me siento menos
honrada porque sea mi amante y no mi marido?”


Déjame en paz, mi querido inglés. Amas sin placer. 
Conversas sin gracia, caminas sin prisa, te sientas con cautela y
no te ríes ni de tus propias bromas. Son atributos divinos, pero
yo miserable mortal que puedo reírme de mí misma, me río de ti
también, con toda esa seriedad inglesa. !Cómo padeceré en el
cielo! Tanto como si me fuera a vivir a Inglaterra o a

Constantinopla. Eres más celoso que un portugués. Por eso no
te quiero. ¿Tengo mal gusto?”
Pero, basta de bromas. En serio, sin ligereza, con toda la
escrupulosidad, la verdad y la pureza de una inglesa, nunca más
volveré a tu lado…”

Siempre tuya, Manuela



sábado, julho 26, 2003

Colo

Não há amparo maior que o amparo das fêmeas porque se dá de cima abaixo, e envolve além do desvelo o calor do colo e útero, lambidas pra acalmar, peitos pra consolar e um corpo todo talhado cheio de curvas suaves perfeito pra aninhar.




sexta-feira, julho 25, 2003

Camaleoa

Em cada clique um retrato, em cada retrato uma moça, em cada moça uma mulher diferente é revelada, mesmo sendo a mesma.


quarta-feira, julho 23, 2003

Hipérbole

Suponho cá que só se suporta a vida porque a danada se reparte em bandas, nem sempre iguais, mas certamente opostas. Cada uma parece ter a precípua serventia de área de escape pra monotonia ou sacanagem da outra.

Então presumo que o embate das ditas bandas é assim: de um lado as coisas de araque, que não são vero, as fantasias desvairadas, o alento do sonho esperançoso; do outro a dura lida cotidiana, a rotina massacrante, momentos bons, outros desgastantes. É nessa onde o corpo está presente, age, pulsa, dói e se ressente. Na outra é só a pura e indolor imaginação. Mas é na soma de um naco daqui e outro dacolá desse emaranhado contraditório e belicoso que se vive e que se goza o gozo.

Transitar por uma e outra sem se fixar o tempo todo em uma delas parece ser o segredo pra não pirar.


terça-feira, julho 22, 2003

Absentia

Queria dela a inteira face, a alma toda revelada. Mas tenho só sinais difusos, como se tudo fosse sonegado, e talvez nem imagina como dói a ausência da completa imagem.


quarta-feira, julho 16, 2003

Mulher é troféu, freio ou meizinha?

O povo dito pesquisador, esse que escarafuncha o escambal e tudo mais quanto há no mundo na busca de explicação pras coisas, vez por outra dá uma contribuição interessante pro entendimento de certos fenômenos naturais, sociais e tal. Mas na maioria das vezes o resultado não tem serventia pra nada e a conclusão é esdrúxula que nem nessa aí embaixo:

Gênio e bandido atingem topo da carreira aos 30

Gênios e criminosos podem parecer não ter muito em comum, mas ambos fazem seu melhor trabalho quando estão na faixa dos 30 anos e principalmente para impressionar o sexo oposto.

Ao estudar as biografias de proeminentes cientistas, Satoshi Kanazawa, da Universidade de Canterbury, Nova Zelândia, constatou que eles fizeram sua principal descoberta antes dos 35 anos, aproximadamente a mesma idade em que o comportamento criminoso atinge o pico.

Ele acredita que a competitividade masculina para atrair fêmeas é a força impulsora para os sucessos científicos e criminosos, segundo a revista britânica "New Scientist".

O pesquisador aponta que o impulso competitivo diminui com a idade, conforme a prioridade dos homens passa a ser menos a de competir por mulheres e mais a de cuidar dos filhos. Kanazawa também constatou que o casamento amortece o impulso em criminosos e cientistas. ( REUTERS)



segunda-feira, julho 14, 2003

Açoite

Tem desencontrados momentos na vida de cada dois que certas palavras zunem num diapasão medonho como o chiar de um chicote. E no estrilo falado, gestual ou mesmo escrito, tanto estala como assusta, dilacerando propósitos do mesmo jeito cruel que o chicote corta a carne.


Infame

Decerto que povo deste nosso desigual patropi tem lá uma vocação dionisíaca e fornica como poucos povos deste mundão doido. O diabo é que há um descompasso entre o desejo escancarado do povo traduzido assim nas fodelanças, e as leis caretas produzidas pelas elites, contraditoriamente pervertidas nesse mister, pra refrear uma pretensa e temida comilança carnal generalizada.

Daí resulta que, nos modernos tempos de agora, cornear por esssas bandas, por essas do lado de cá do equador, ainda é crime e dá cadeia, conforme caso acontecido e relatado aqui pelo jornal O Povo, de Fortaleza.


domingo, julho 13, 2003

Adversu

Desde antanho é assim, e assim parece que para sempre será: amor e filosofia nunca imbricaram, e jamais imbricarão. O primeiro porque subverte os arrazoados todos, a outra porque tenta desesperadamente arrazoar o que é subvertido de nascença.


sexta-feira, julho 11, 2003

Arrupios

Carecer assim, de arrepios na alma, todo mundo carece. Então, minha carente e desolada alma, aos arrupios!


quinta-feira, julho 10, 2003


Dance com ele(a)


Quem gosta de gato(a)s pode muito bem bailar com ele(a)s. Aprenda as piruetas, os passos e as manhas aqui neste salão







quarta-feira, julho 09, 2003

Insulado

Deu-se que de olvido em olvido quedei-me banido.


quinta-feira, julho 03, 2003


Mulleres
(Tabla Reivindicativa Galega)

O mundo, esse que a gente habita continua troncho em quase tudo e vai demorar endireitar, talvez nem tenha conserto nunca. É certo que numas coisinhas até melhorou um tico, mas no mais do mais tá ruim e muito. Uma das piores mazelas é a discriminação de todo tipo. Tem gente que se acomoda, mas tem outros que esperneiam, rugem, fazem o maior fuzuê. É o caso de parte do mulherio que no mundo todo, cá e alhures, bota com justeza a boca no trombone por um tratamento igualitário e merecido com o macharal.

As galegas, ali da Galiza, cuja deliciosa língua falada tá na origem da nossa, também se mexem e tascam manifesto. Aí embaixo parte dele, e aqui o resto.


Polos dereitos sexuais , de saúde e reprodutivos
.
-Implantación en todos os centros de saúde de consultas xinecolóxicas. Instauración destas consultas nos centros penitenciários con módulos de mulleres.

-Revisión xinecolóxica anual, completa e adecuada ás distintas idades.

-Cursos de formación específica para todo o persoal sanitário en relación a aquelas doenzas que afectan dun xeito diferenciado ás mulleres.

-Eliminación na sanidade pública da obxección de conciéncia do persoal sanitário en relación aos direitos sexuais e reprodutivos.

-Direito ao aborto, libre e gratuito con cobertura real na sanidade pública.

-Sanidade pública, universal e gratuita. Inclusión dos servizos e intervencións derivadas do cámbio de sexo.

-Ampliación da rede de Centros de Orientación Sexual, actualmente COF, con atención específica ás mulleres mozas. Garantir o aceso gratuito da mocidade aos métodos anticonceptivos.

-Criación da área de educación sexual no currículo educativo con participación de profisionais de Sexoloxia, representantes de organizacións de loita pola liberdade sexual e feministas.

-Aplicación da cobertura da sanidade pública, con todos os seus servizos, ás mulleres en prisióm e ás imigrantes.



quarta-feira, julho 02, 2003


Uma mulher

Não milito em partido político, nem em nada. Sou contra toda forma de dominação, seja intelectual, física ou de outro naipe, e de uns tempos pra cá tenho abominado a manipulação descarada que as ideologias provocam.

E por ser a favor da escancarada liberdade de expressão quero deixar aqui minha solidariedade a essa moça Heloísa Helena que disse lá pros seus algozes, escudada na sua quase ingênua crença utópica e inabalável fé nos princípios da dita utopia: (...) prefiro ter o coração partido do que a alma vendida.




sexta-feira, junho 27, 2003



Desaparição

Dentre as sacanagens que a natureza apronta pros efêmeros viventes, a morte é mesmo a mais escrota. Ontem se foi um parente próximo com que eu tinha imensa afinidade.

Daí concluo cá que só o tempo tempera os nervos da gente pra suportar as perdas definitivas, porque as outras, essas pequenas perdas diárias que todo mundo tem é só um treino. A vivência é que encaliça nosso quengo e alma.

Ainda assim percebo que povo novo e povo antigo sofrem igual nessas horas.

terça-feira, junho 24, 2003


Pentelhos, pintura e rigor acadêmico

Uma curiosa criatura, amante e fuçadora assim das coisas da pintiura, escreveu pra cá dizendo que remexendo nesses meus mixos e desordenados posts encontrou uma referência sobre a influência do estrepitoso e indigitado Jules-Etienne Bover na origem do fauvismo.

Segundo ela, deconhece o tal e o fato. Confesso que eu também, mas asseguro que é verdade e dou crédito a uns felas das bandas de lá que me contaram essa e outras bebendo uns vinhos e comendo uns queijos naquelas noites frias.

O post publicado aqui em 16/10/2001, é esse daí embaixo:

Pentelhos

Nas artes, nos jeitos e nos trejeitos a França sempre foi imbatível. E sempre criou e exportou moda, inclusive nos costumes. E foi lá que surgiu, por volta de 1750 a moda de enfeitar os pentelhos do mulherio com muitos laços de fitas coloridas, numa profusão de cores que transformava os púbios pêlos em pequenas obras de arte.

As fidalgas européias logo aderiram, o que provocou o surgimento de um profissional sofisticado: o enfeitador de boçanha. Jules-Etienne Bover se destacou nessa estranha arte e ficou conhecido como Juju dos Laçarotes.

O macharal delirava com a moda nova, não tanto pelos efeitos artísticos e estéticos dos laçarotes, mas com a excitante brincadeira de desatar, um por um cada laço daqueles.

A coisa era tão inútil que a moda não durou muito. Juju tentou ser pintor e só pintava pentelhos em primeiro plano. Fracassou nesse novo metiê mas deixou um legado pra uma geração que apareceu 150 anos depois e inventou, baseado nos traços do tal Jules, o fauvismo, aquela técnica de pintura em que as pinceladas parecem fitas coloridas fundidas.

Difícil essa moda voltar assim nos dias atuais porque as mulheres mudaram muito. Mas se houvesse um revertério e por acaso voltasse, encontraria uma dificuldade: espaço pra pendurar os laços. A depilação que avançou das virilhas pro centro acabou com essa possibilidade e transformou aqueles antigos capinzais em estreitas, primorosas e delicadas fileiras de pêlos que mais parecem nervosas taturanas.


domingo, junho 22, 2003


Ciência na arte


Esse cara, o inglês Eadweard Muybridge (1830-1904), tinha obsessão por movimento e precisão. Fotografava como quem tinha orgasmo, e gozava em cada clique. Suas fotos sequenciais davam a ilusão de movimento quando dispostas em fila assim, rapidamente.

Foi precussor dos irmãos Lumière com seu cinematógrafo. Pois sim, o bicho foi também um dos pais do cinema. Veja um pouco da sua arte aí embaixo e delicie-se com o seu delírio aqui.










terça-feira, junho 17, 2003



Paralaxe




Capte-me, e ali além da lente, ate-me.

segunda-feira, junho 16, 2003





Rusticana




O vaqueiro, esse que ainda remanesce aqui e acolá no sertão e toca bois pelas caatingas é rude e rústica é sua poesia cantada em forma de aboio. A metáfora é dura, sem sutileza. Boi no chão é boi no chão. Quando canta e o canto se refere a mulheres sempre erotiza, reduz a dureza mas mantém a crueza.

Ouvi da boca de um, semana passada, nas quebradas do Nordeste essa aí:

A menina quando nasce 
traz um passarim com ela
quando novo é pelado
quando véi se encabela
pra amolecer nervo duro
é mió do que panela



sexta-feira, junho 13, 2003



De facto

Eu labareda, ou fogo-fátuo?





terça-feira, junho 10, 2003



Carrossel

Eu sei que o mundo gira como quem baila numa rota repetida, e nessa dança rodada, nesse rodízio infinito traz lembranças e de quebra outras leva .

Dizem que é nesse orbe que todo vivente mora, mas sei de gentes que por meio de trapaças só orbitam.


segunda-feira, junho 09, 2003


Edipiana


Altivos, emparelhados, de justa forma e volume, no tamanho que apetece à mão que se entorta em concha e preenchem a exata medida dessa concha. Sensíveis a leves toques de dedos, de lábio ou língua, estremece com igual intensidade quem é tocada e quem toca. Seios são assim, mistérios que nenhum macho destrincha.


sexta-feira, maio 30, 2003

Transe





Em ti, além da vaporosa veste, um lânguido, morno colo de arfantes seios me espera. Me espera?

sábado, maio 17, 2003



Vulvas

Róseas, roxas, rubras ou carmesim, não importa a cor, volume ou forma. É por ali, nas mamíferas e outras fêmeas criaturas, que o mistério da vida entra tece e trama a própria vida, e é por lá que ela sai à luz.

Ave vulvas!


sexta-feira, maio 09, 2003



No fogaréu do inferno

Parece que o povo das comunicações, esse que se ocupa de facilitar o entendimento das coisas manejando a tal da semiótica, tem avançado tanto na forma de escrever ou dizer, influenciando pessoas e instituições que vez por outra atropela a nuance e a sutileza.

Essa nota aí embaixo publicada no Informativo da Paróquia Nossa Senhora do Líbano lá de Fortaleza, certamente recebeu essas influências e joga, sem dó, quase todos os fiéis cordeiros de deus nas profundas e quentes bibocas do inferno.

Por que se preocupar?
Só existem duas coisas que você deve se preocupar: Se você está bem ou se está doente.
Se você está bem, não há com que se preocupar.
Mas se está doente, só há duas coisas com que se preocupar: Se você melhora ou se você morre.
Se você melhorar, não há com que se preocupar.
Mas se você morrer, só há duas coisas com que se preocupar: Se você vai pro céu ou se vai para o inferno.
Se você for para o céu não há com que se preocupar.
Mas se você for para o inferno, estará tão ocupado cumprimentando velhos amigos que não terá tempo para se preocupar.


Cruz credo!


sábado, maio 03, 2003



Boneco nazista






HONG KONG (AP) - Soft drink giant Coca-Cola pulled a promotional robot figurine adorned with what looks like Nazi swastikas following criticism from a local Jewish leader. 

The company withdrew "Robowaru'' from a promotional set of plastic figurines derived from the Japanese television series "Robocon'' following a complaint by Rabbi Yakkov Kermaier of Hong Kong, Coca-Cola spokesman Kelly Brooks said Wednesday in Atlanta.

The original Robowaru has two Buddhist symbols printed on its chest _ but the Coca-Cola promotion inverts the ancient symbols, making them very similar to Nazi swastikas.

"We regret any misunderstanding this may have caused,'' Brooks said in a telephone interview from Atlanta.

The ancient Buddhist symbol common in Asia is nearly a reverse image of the swastika adopted by the Nazis. The four arms on the Buddhist symbol point counterclockwise, while the arms on the Nazi swastika point clockwise.

The arms on the swastika on Coca-Cola's robot figurine point clockwise.

Esse lançamento aí em cima tá causando o maior qüiproquó no sofrido e esperto povo judeu do mundo todo. Quem produziu isso aí pra Coca ao inverter as pontas do símbolo budista transformando-o em suástica, ou se enganou ou tá botando pra fora seu anti-semitismo e difudindo o nazismo no meio dos curumins.

É o bom a gente não esquecer que esse símbolo representa um dos mais terríveis e horrorosos momentos pelos quais essa nossa humanidade biruta ja passou.



quarta-feira, abril 30, 2003



Heróis tupiniquins

Esse cara do Falou & Disse, esse que heroicamente oferece um sistema de comentário brasileiro pra blogs, e de graça, facilitando a vida de quem quer dar um pitaco nos posts que quicam na frente da gente por aí é um herói. O bicho sofreu que só couro de pisar fumo nas mãos da picaretagem webiana e estoicamente não desistiu.

Os comentários voltaram, conforme ele explica aí embaixo:

No ar

Somente ontem meu novo DNS foi atualizado e agora todos conseguem ver o sistema na web.

Por enquanto apenas os comentarios dos ultimos 30 dias estão carregados. Em breve coloco o restante até 01/01/2003. Os anteriores a essa data estarão disponiveis offline para download pelo painel. Em breve tudo volta ao normal de dantes
.

Quem quiser saber da via crucis dele pra fazer retornar o sistema pode ver aqui o seu relato.


terça-feira, abril 22, 2003



Olhares

Tem olhar que quando mira alucina, mas tem outros que fitam com tanta ira que fuzilam sem qualquer misericórdia de razão a iniqüidades.



segunda-feira, abril 07, 2003



Guerras

Tenho cá pra mim, e a mim me convenci faz tempo, que nada que dilacere a carne ou alma pode ser bom.


quinta-feira, abril 03, 2003



Espelho

Mirar eu miro, só que tem vez que não me vejo. Deve ser porque o reflexo de nada é nada.


sábado, março 22, 2003



Descompasso

Eu sei que o mundo e o povo que nele habita são contemporâneos, mas parece que os dirigentes desse doido mundo são absolutamente mesozóicos e destrutivos e ferram inocentes como quem mata formiga, assim, sem dor na consciência.

Já se disse que o poder é afrodisíaco, mas penso que desperta mesmo é o instinto assassino dessa nossa mutante espécie.

Por que esse Bush e esse Saddam não se ferram a si mesmos?


domingo, março 16, 2003



Arre égua

Estranho país o nosso, este patropi de destino incerto onde o passado não passa nem se aparta do presente. Parece que o nosso futuro é o passado eternizado, pois quase tudo o que era ontem continua igual hoje, ou pior.

Ô elite escrota!

(Que fique claro que toda classe social, casta, categoria profissional ou sindical ou qualquer aglomerados de gentes gera,de pronto, uma elite)


domingo, março 09, 2003




Igualdade


Ah, sim...







segunda-feira, março 03, 2003



Olvidar, jamais

Prefiro lembrar não apenas porque seja difícil esquecer, mas porque são lembranças inesquecíveis.


quarta-feira, fevereiro 26, 2003



Ao alvo

Tá no rol das necessidades fisiológicas, mas todo mundo sabe que nas gentes de pileque, assim de manguaça, o mijo perde o rumo. Aqui, os caras bolaram um jogo onde qualquer pigunço ou pigunça pode testar a pontaria no vaso e a capacidade de manter o prumo e a direção do líquido farto. Segundo eles, depois de entornar o terceiro copo fica difícil pra caramba.

Essas cybergentes inventam cada coisa!


sábado, fevereiro 22, 2003




Gato





Pergunta aí se ele tá preocupado com o que tá ocorrendo no reino da felinagem feroz, esse da rapinagem e da loucura, onde daqui a pouco muitos inocentes do Iraque podem ser imolados por ordem de apocalíptico cavaleiro, um diabo papudinho a serviço dos interesses das ganâncias.

Pergunta aí se ele tá puto porque o cara que fo ieleito por estas bandas foi engolido pelo FMI, igualzinho ao outro que se foi, e daqui a pouco muitos inocentes daqui podem ser sacrificados no mesmo altar das tais ganâncias com comida zero.

Não tá nem aí pras outras grandes mazelas desse mundão. Por isso na próxima encarnação quero ser um gato, que tirante a o perigo de virar tamborim, parece que o resto é moleza, e ainda me livro do lero enganador desses que se dizem gentes.


terça-feira, fevereiro 18, 2003



Mais uma mulher daquelas

Essa moça, essa Violante Montesino viveu num tempo esquisito, naquele em que desilusões amorosas quase sempre desembocavam numa tísica galopante e trágica ou num confinamento voluntário (vez por outra também desastroso) nos conventos ou mosteiros.

Uns, na tentativa de abafar o amor e as paixões nos corações desesperados, se isolavam de si mesmos e definhavam até a morte. Outros se isolavam dos demais nesses lugares ermos porém não conseguiam sufocar o desejo do corpo nem as necessidades da alma e hajam palavras avassaladoras de louvor ou de lamento ao que foi perdido e siriricas solitárias, embora depois a ressaca da culpa provocasse até auto-flagelo pra amenizar os temidos pecados.

Parece que com Violante foi assim e ela foi ser, aos 28, no glorioso ano de 1630, Sóror Violante do Céu, no Convento de Nossa Senhora do Rosário, da Ordem de S. Domingos ali em Portugal e se revelou uma tremenda poeta barroca das boas. Talvez a maior. Taí uma de suas agruras traduzida em versos:

A uma suspeita

Amor, se uma mudança imaginada
É com tanto rigor minha homicida,
Que fará, se passar de ser temida,
A ser, como temida, averiguada?

Se só por ser de mim tão receada,
Com dura execução me tira a vida,
Que fará, se chegar a ser sabida?
Que fará, se passar de suspeitada?

Porém, já que me mata, sendo incerta,
Somente o imaginá-la e presumi-la,
Claro está, pois da vida o fio corta.

Que me fará depois, quando for certa,
Ou tornar a viver para senti-la,
Ou senti-la também depois de morta.



segunda-feira, fevereiro 17, 2003



Banana


Larry Korhank, esse fotógrafo aí enfim encontrou o tal do tão procurado elo perdido, aquele que nos une definitivamente a eles.


segunda-feira, fevereiro 10, 2003



Predadora

Chega sorrateira, insufla e arranha desejos, depois some sem deixar sinal.


sábado, fevereiro 08, 2003



Vesga e troncha eqüidade

Inclusão geral era o lero da campanha presidencial de quem ganhou a contenda eleitoral e por isso o povo correu atrás pra se incluir elegendo o cara. Criou-se agora aí um imenso Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social composto por gentes da tal sociedade civil pra dar uns pitacos e ajudar a descobrir e desobstruir os tortos caminhos da inclusão que passa pela cruel desigualdade regional. Pois sim, o dito conselho tem 82 membros, e tirante os ministros tá assim distribuido: 42 paulistas, 5 do Paraná, Minas 3, Mato Grosso do Sul 2, Goiás 1 e Santa Catarina 1. O nordeste só tem três representantes e o norte nenhum.

Penso que a distribuição de pessoas tá troncha e a visão vesga. Nada contra o povo de sampa que aprecio muito, mas precisa balancear melhor esse barato aí ou vai pender prum lado só. Ou então nosso patropi só tem uma banda de primeira mesmo, o resto é tudo de terceira e representa, além de um peso pro país, uma tremenda ameaça.

Pelo menos é o que ficou entendido pela infeliz fala do ministro Graziano, aquele que se condoendo da fome nordestina (e do resto) propôs o destrambelhado fome zero. Pois sim, o bicho tascou num auditório de ricos e bem alimentados empresários paulistas que ou se segura os nordestinos nas bibocas onde moram ou os paulistanos vão ter que continuar andando em carros blindados. Dá pra aguentar uma dessas?

O povo que tá de plantão no poder agora carece urgentemente entender que só se contrói a sonhada e necessária inclusão geral se primeiramente zerar os preconceitos.


quarta-feira, fevereiro 05, 2003



Miss Kittin



Penso que uma das boas coisas deste nosso degringolado mundo é a diversidade. E se o povo é diverso os ouvidos também são. Daí que tem uns que gostam de silêncio e outros de barulho pauleira. A mim me seduz mais o som manso, delicado, embora não tenha preconceito contra os brabos, dissonantes e outros mais.

Confesso cá que tenho uma certa dificuldade em apreciar alguns certos e ditos neopagodeiros, neosertanejos e neoelectropops. Juro que tento ser isento quando ouço, mas o diabo dos meus ouvidos se irritam fácil apesar do esforço pra serem benevolentes.

Tudo isso pra dizer que vi, de madrugada, num canal europeu e pago de televisão uma performance dessa moça francesa de um pouco menos de 30, Caroline, essa Herve que se nomina Miss Kittin e que andou detonando pelas noites das capitais do mundo civilizado, tá ou teve aqui arrasando nas noite metropolitanas do nosso amado patropi, e se tornou a musa atual do tal electro, esse movimento que por mixar bases eletrônicas, loops e vocais com trechos de músicas new wave do passado jura que cria, mas parece que só recicla.

O povo entendido das artes e das culturas tá afirmando que esse barato aí, esse que a moça representa é provavelmente o primeiro movimento cultural jovem genuíno do século XXI. Pois sim, se for, meus ouvidos e os dos meus descendentes imediatos tão é fritos.

Ah, ela é irreverente pra caramba e tem umas letras escatológicas como essa aí embaixo chamada Frank Sinatra:

"every night with my star friends 
we eat caviar and drink champagne
sniffing in the v.i.p. area
we talk about frank sinatra
you know frank sinatra?
he's dead... dead!
ha ha ha!"

"to be famous is so nice
suck my dick
kiss my ass
in limousines we have sex
every night with my famous friends

..."

"motherfuckers are so nice
suck my dick
lick my ass

..."



terça-feira, fevereiro 04, 2003



Vício

Já morri umas vezes, mas nunca disso porque isso só mata quem tem, né?


sexta-feira, janeiro 31, 2003




Corolário





Decerto que homens amam. Mas mulheres amam amorosamente com palavras, atitudes e atos.


quarta-feira, janeiro 29, 2003



Fomes

Esse povo que pretende zerar a fome dos famintos do oco do mundo e das cercanias de nós, se empanturra de croquetes, chucrutes, outras iguarias e vinhos bacanas nas sua fartas mesas, dá suas baforadas em legítimos cubanos ou aromáticos fumos finos mas quer proibir as famélicas criaturas de encherem o bucho com o que quiserem lá com os minguados 50 mangos previstos.

Diz-se que vão impor restrições a alguns produtos como certos laticínios, e se não vão permitir que o contingente de miseráveis coma sequer um prosaico iogurte, que dirá melar o bico com um vinho de jurubeba zinabrado ou dar um pitada num fumo brabo de rolo.

E ainda querem que o povo dos cafundós dos cafundós apresente nota fiscal ou recibo da buchada de bode, do sarapatel, da meizinha pra dor de barriga e de outras coisas do gosto e da dieta do povão perdido no meio do mundo.

Essa tutela é descabida, uma tolice que encarece e burocratiza tudo. Melhor deixar o povo escolher livremente o que comer ou beber do mesmo jeito que escolheu os que foram eleitos.



Acerbo

Tem hora que sou lírico, tem outras que sou ácido. Deve ser por isso que vez por outra me sinto cítrico.


terça-feira, janeiro 28, 2003



Gilgamesh


(...) Não existe permanência
 Por acaso construímos nossas casas para sempre?
Para sempre selamos um contrato?
Irmãos mantêm unida uma herança para sempre
Ou o período de cheia de um rio dura para todo o sempre?
A crisálida da libélula solta sua larva
E vê o sol em toda sua glória somente por um dia
Tudo passa, nada permanece
As feições de um homem adormecido são diferentes
das de um homem morto?
Ou existe alguma diferença entre o servidor e seu amo
Depois que ambos não vivem mais? (...)


De Épico de Gilgamesh, um texto sumério, ali das velhas Babilônias, antigo que só (cerca de 4.700 anos) e provavelmente o mais antigo que se conhece, mas com verdades crueis que o tempo não desmentiu.



Pífias trombetas  
(Fórum Econômico Mundial  x Fórum Social)

O frenesi dos fóruns enfim findou como deveria findar. O de lá com ossos quebrados, o de cá à moda pastelão com torta na cara. No próximo ano tem mais, a lengalenga vai ser igual e tudo contiuará na mesma ou pior pras gentes lascadas que ficarão cada vez mais lisas e ferradas.

quinta-feira, janeiro 23, 2003



Forumbático outra vez

Nem Davos nem Porto Alegre. O melhor foro continua ainda sendo o íntimo.

sábado, janeiro 18, 2003



Audaz assim

E se não for assim de toda audaz
(como nos épicos tempos se diria)
que busque ao menos em sua cara
a sua própria e indivisível cara
e a partir disso assim seja capaz
de encarar torpor dor ou mazela
e também o contrário desses danos
como coisas que a vida inventa ou gera
e aprenda a digerir sem gula ou pressa
em goles em lambidas ou dentadas
pedaço por pedaço desses paradoxos
sejam eles crus cozidos ou requentados.

(Este post é de 29/07/2001, e por uma razão qualquer
acordei lembrando dele, e até agora tava martelando aqui
no meu quengo. Pra aliviar essa recorrência tô republicando o bicho)


quinta-feira, janeiro 16, 2003



Químicas

Presumo que sendo resultado de uma imprecisa mistura química, legada por uma tonta natureza, somos quimicamente inviáveis e por conta disso a gente um dia pifa. Mas é no dia-a-dia de cada um que essa tal química interfere na pele, no osso, no sangue, tripas, nervos, coração e cuca provocando alegados desequilíbrios que geram sofrimento, ou tênues equilíbrios responsáveis por efêmeros êxtases.

Ou será o contrário?

terça-feira, janeiro 14, 2003



Conchichina

Seja lá onde fique, não vale o sacrifício.


segunda-feira, janeiro 13, 2003



Há que ser ímpar

Tilintar por tilintar qualquer metal fuleiro tilinta, tenha badalo ou não. Mas pra agradar ao tímpano precisa combinação, seja metal, seja voz, assobio de passarinho, e conforme confirma a física o som pra ser melodia tem sempre que resultar em soma que seja ímpar.


quinta-feira, janeiro 09, 2003



Memória

Era como nós, em tudo semelhante, mas tinha um diferencial que incendiava a imaginação daquele bando de menino peralta, eu incluso, que jogava bola na frente da casa dele: uma imensa tatuagem no peito e outras menores nos braços.

Charles, nem sei se esse era o seu nome verdadeiro, mas o povo que morava nas redondezas se referia a ele assim. Um marinheiro dessa marinha mercante, estrangeiro, meio ruivo e forte, que se apaixonou por uma linda negra brasileira, arriou âncora lá e morava ali, perto de casa. A gente brincava nas cercanias, mas não tinha intimidade com eles, espiava de longe aquele idílio e trocava idéia sobre possíveis aventuras nos mares do mundo e cobiçava ardente e carnalmente aquela calipígia companheira dele que usava roupas provocantes, e vez por outra não usava nada tomando sol no quintal. A gente brechava e ficava doidão. Todos nós fomos penalizados várias vezes com pesadas penitências por confessar ao padre nossos pecaminosos atos carnais na intenção da moça e também pelo pecado da inveja por querer ser Charles.

Faz tempo isso, é provável que eles já nem existam mais. Eu me mandei dali ainda pequeno, dei uns rolês por aí e fui, de certa forma, um marinheiro errante, deparei com muitos aventureiros tatuados e não e com muitas mulheres negras fascinantes, mas nada que se compare com aquele casal. Pois eles foram responsáveis, indiretamente, pelo início da perda de inocência de uma cambada feliz de curumins.

segunda-feira, janeiro 06, 2003



Foco

Será harmonia a integração sensata dos sentidos?


quinta-feira, janeiro 02, 2003



2002


2002 foi um ano esquisito aqui e alhures. De formato simétrico, parece um penico chinês com suas asas iguais. Não manjo nada de numerologia, e nem sei se isso tem algum significado, mas não aprecio a perfeição numérica, essa coisa certa e par, porque penso que é na assimetria que as coisas se encaixam.

As bombásticas, quase surreais notícias fizeram daquele um esdrúxulo e doido ano.

Teve pretenso profeta nominado Rael que mandou trombetear pelos cantos todos do mundo, por uma anja ruiva, que um novo ser nasceu por obra e graça de si mesmo, gerado, não se sabe se por uma virgem, mas à semelhança da mãe, sem a participação prazerosa de um macho. Um clone. Se não for fraude pode significar o ressurgimento do glorioso matriarcado, a decadência do homem-reprodutor clássico, o nascimento do homem-eunuco. Lembra também o epsódio bíblico do nascimento daquele outro, o Cristo, que prescindiu da inseminação natural e e foi feito à semelhança do pai. Traz embutidas outras preocupações como o resgate da odiosa idéia do eugenismo, ou a manipulação geral da vida por esse povo cientista. O futuro pode ser uma bosta.

A conclusão do mapeamento genômico humano confirmou, quase no fim do ano, que além da origem macaca da tonta espécie humana somos também iguais aos ratos, e a única diferença é a ausência de rabo longo.

Pras bandas de cá houve uma eleição presidencial onde todos os concorrentes defendiam a mesma coisa, e o que ganhou convidou os outros para serem ministros e tal. A escarlate bandeira da esquerda desbotou, os discursos viraram um, a crônica fome de 500 anos do raquítico povo deste patropi virou manchete como se fosse coisa recente.

Mulheres condenadas à morte por adultério na África mulçumana, homens recebendo sentença idêntica por criticarem o excesso das leis divinas nas coisas terrenas. A invenção pelo Bush sanguinário e a Condoleeza vampira de um eixo do mal que precisa ser dizimado. E por aí vai

2003 parece que promete! O consolo é que é um ano ímpar. Isso quer dizer alguma coisa?