quarta-feira, setembro 18, 2002
Uma abala, a outra corta a carne
Ela é moça de pele apreciada pelas marcas caprichadas de corantes que lhe decoram o corpo, e de quando em vez acrescenta mais um, como o último, segundo me disse, um baudelaire no braço esquerdo tirado do mon coeur mis à nu "sois toujours poëte même en prose"
Tem alma livre que circula pelas tormentas das almas ora serena, ora aflita. Mexer com as palavras é seu ofício, mas pensa em restringir o que precisa dizer porque considera que tudo cabe em exatas 17 sílabas.
Mandou dizer que numa fúria pueril desbastou a vasta cabeleira e deixou lá um moicano feito uma taturana gigante desafiando olhares. Já traduziu umas obras por aí, e ali no seu até parece decifrou Anne Sexton em dois poemas, esculpindo palavras como quem talha a canivete sangrando os sulcos porque com Sexton tem que ser assim, e pra entender precisa ter o coração meio underground e a cuca em transe. Nunca vi Lavínia mas aprecio o imenso brilho que sua cabeça (agora) pelada tem e tenho por ela muito apreço.
Vamos nessa:
A viciada
Patroa da morte,
patroa do sono,
com cápsulas na mão toda noite.
Oito por vez, de doces vidros farmacêuticos.
Faço os preparativos para uma jornada de miligramas.
Sou a rainha dessa condição.
Sou uma mulher viajada.
E agora me chamam de viciada.
Agora me perguntam por quê.
Quê?
Não sabem
que eu prometi morrer!
Estou praticando.
Só mantendo a forma.
As pílulas são uma mãe, melhorada,
de todas as cores e bom como bala azedinha.
Estou fazendo a dieta da morte.
Sim, admito.
Tornou-se um certo hábito.
Oito por vez, no olho,
enlevada pelo rosa, o laranja,
o verde e o boa-noite branco.
Estou virando meio combinação
química.
É isso!
Meu estoque
de comprimidos
tem que durar anos e anos.
Gosto mais deles que de mim.
Teimosos do inferno, não me deixam.
É tipo um casamento.
Tipo uma guerra
e eu jogo bombas pra dentro
de mim.
Sim
eu tento
me matar em pequenas porções,
ocupação inócua.
Na verdade, estou amarrada nela.
Mas lembre que eu não faço barulho demais.
E, francamente, ninguém precisa me arrastar,
não fico por aí enrolada nos lençóis.
Sou um docinho na minha camisolinha amarela.
Engolindo minhas oito porções de uma vez,
e na ordem como
se postasse as mãos
ou no sacramento negro.
É uma cerimônia
mas, como em qualquer esporte,
cheia de regras.
É como um jogo de tênis com música
e a minha boca sempre pega a bola.
Depois eu jazo no meu altar
elevada pelos oito beijos químicos.
E que alívio é isso:
dois rosa, dois laranja,
dois verdes e dois boa-noites brancos.
Fuein-fuein-fuein-fuein-fuein.
Agora bateu.
Agora eu senti.
Tipo essa
Saí, bruxa possuída,
assombrando o ar, corajosa na noite preta,
me achando má, lição aprendida,
de janela acesa em janela acesa.
Coisa só, dos doze dedos, avessa.
Mulher assim não é mulher, não que se preza.
Eu fui tipo essa.
Descobri as cavernas quentes da floresta,
enchi de prateleiras, desenhos, relevos,
armários, sedas, inumeráveis coisas;
fiz a janta pros vermes e pros elfos:
arranjando o desarrumado, chorosa.
Mulher assim é incompreendida.
Eu fui tipo essa.
Andei no seu carro, moço,
Passei pelas cidades com os braços de fora, abanando pra elas.
Aprendendo os caminhos menos espertos, colosso,
as chamas ainda me mordendo as coxas,
as costelas partindo quando giram a manivela.
Mulher assim não tem vergonha de finar-se.
Eu fui tipo essa.
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