segunda-feira, dezembro 31, 2001



Morra o tempo, viva a vida

O homem é esse bicho ardiloso que se diverte armando armadilhas pra ele próprio cair, e inventa coisas que no fim são seu abismo. Medir o tempo é uma. E foi uma invenção tão besta que produziu o tédio, e deu a nós a expectativa de quanto dura uma vida, um amor, uma viagem, um suspiro ou transa. Tudo gira na perspectiva do tempo, tudo se emquadra aí. Um saco!

O ano é decorrência disso, uma unidade de tempo pra medir os dias. E o lapso cristão zera hoje pra recomeçar amanhã. E pra quem curte essa época de zeranças um brinde e um alerta, porque amanhã começa tudo de novo e se você se amarar no tempo vai ser tudo igual ao que ficou pra trás.


sábado, dezembro 29, 2001



Síndrome da inação

Parece coisa tântrica
pois até agora
só pintou semântica


quinta-feira, dezembro 27, 2001





Pro povo das alemanhas

Fiktor Konder
Kultur te Sabaterra!, 1933

BOEMA ZIMPHONIGUE

(Esbesiaal bra O MANHO)

Os goises, no Alle... manho,
Acora, nong estong "zoppa"!
A chende deng gue figá galade,
Deng gue figá guiedinhe!...
As rabais ta Bikotinhe
Deng lisengsa bra adirrá,
Deng lisengsa bra madá,
Bra faicê esgulhampasongs!...
Acora, dudes sitatongs,
Esdrangcherres e allemongs,
Nong bódeng mais bensá
Gome elles guér!
Deng gue figá "rasiste"!
Neng chuteu, neng gommuniste!
Neng temograto, neng bobuliste!
É ali — no padatinhe!
— Ou vae gom a Pikotinhe,
Ou vae bra a zeminderria! —
Nong deng nada gue chorrá!
E se alqueng vae brodesdá,
Veng ung bolisie to Kuarda,
Abonda ung esbinkarda
E tá uma dirra — PUMM!!! —
A chende deng gue morê!
Nong deng dembo te gorê
Nem te pebê
Uma chopp bra tesbetida!...

In: A MANHA: Zubblemend to Alle... manho, Rio de Janeiro, ano 5, n.31, 12 ago. 1933





terça-feira, dezembro 25, 2001



Declaração de amor

Eu sempre acreditei nele. Mas agora tenho cá minhas dúvidas. E tudo por conta do modesto pedido de ontem: solicitei, encarecido, que me trouxesse uma alemoa. Podia ser daqui ou d'alhures, negra, branca ou amarela, grande ou baixa, de cabelos crespos ou lisos e de qualquer cor. Olhos negros, castanhos, azuis ou verde-esmeralda. Sorriso largo e lindo, e com miolos bons à beça. Queria desse jeito aí, desde que fosse ela. Acordei tarde, só e desolado.

Pensando bem, talvez a culpa tenha sido minha que fui muito genérico. Teria sido mais simples dizer o nome dela. Ser objetivo. Parece que essa é a condição sine qua pra conseguir. No próximo vou ser.

segunda-feira, dezembro 24, 2001



Autocomiseração

Um brinde aos irresolutos, aos sem-respostas, aos sós e sem contentamento pois são, neste momento, a exata reprodução de mim. Aos outros, antípodas desses, talvez nem precise já que são brindados com doses diárias de felicidade, né?

De qualquer maneira tô dando um peteleco na tristeza e ergo um brinde a todos.


domingo, dezembro 23, 2001



Troglodita

Ando desconfiado que essa vontade de isolamento que se apodera da gente toda vez que pinta desenlace, desengano, incerteza no amor ou outras sacanagens da vida é a mais clara manifestação da nossa herança troglodítica, que driblou as armadilhas dos elos perdidos, escapuliu, e chegou cá ilesa.

Ou então como se explica essa minha compulsão mometânea por uma furna qualquer só porque ela não disse qual, dentre os uns, o um que ela deseja e ama.


sábado, dezembro 22, 2001



Demolido

A paixão avassaladora não cabe nos limites internos do corpo, e por não caber entontece e demole, embora vaze por cada poro da pele como se fosse suor. Não se interdita a paixão pelas vias burocráticas dos mandatos de prisão, nem se contém a danada por simples pedido ou ordem.

E como ela permeia tudo, em todo mundo e em mim, não há nem viés de fuga.


sexta-feira, dezembro 21, 2001



Do caramba

Esse Mário aí mesmo tendo se matado, doidão, aos 26, foi, junto com Pessoa, o que de melhor rolou na poesia portuguesa naquele tempo. Aí embaixo o bicho destila sua angustia depressiva.

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!


Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.




Tête-à-tête



Pois sim, resolvi botar esse tal de comentário aqui pra ver se o povo usa nas broncas ou no que for.

quinta-feira, dezembro 20, 2001



Horizonte amoroso

Lá tá tudo turvo e cá tá quase fusco.

quarta-feira, dezembro 19, 2001



Teorias d’amor

Perscrute as entranhas, as vísceras de baixo quando quiser inventariar os amores, aqueles que foram, os que prometeram ser e os que nunca foram nem prometeram, e os que são sem a gente saber. Pois não se engane, é lá, na cavidade abdominal, que o amor se instala: no fígado, pâncreas e tripas. Nessas partes sensíveis os registros são mais fortes, demoram esmaecer.

Já nas vísceras de cima, as tais cranianas, ele, o amor, faz é degringolar pela ação deletéria das tramas da razão, pela lógica azeda que destrói as querenças inventando impossibilidades.

Daí que o amor-cabeça engendrado no juízo já nasce é troncho e dura quase nada. Então viva o amor-pâncreas que não pensa e mergulha cego, embora se arrebente.


segunda-feira, dezembro 17, 2001



Isso ou aquilo

Não quero ser que nem uma estátua viva, truncada pela completa inação, como essas que se pintam de cor de bronze ou de prata e ficam paralisadas no meio da multidão com os músculos apáticos, como se tivessem morrido ou inoculado curare.

Quero nervos e músculos ativos, miolos fervendo, sangue nas veias, olhos atentos e poucos sobressaltos nas coisas de amar. E se o amor é mesmo amor resulta nisso. Se for fugidio ou desertor resulta naquilo.


sábado, dezembro 15, 2001



Desvão detonado

Cada um tem seu desvão, como se fosse uma escada cujos degraus não se ligam. E nesse espaço isolado uns se trancam e outros não. Tem gente que mora nele e faz dele seu casulo como bicho-de-seda ou lagarta, e morre lá sem nunca passar de crisálida.

Do meu já saí faz muito tempo, e pra lá não volto mais, porque deixei dentro dele hibernando entorpecidas as angústias que já tive e que hoje não me assolam mais. Certo é que ainda hesito em certas ocasiões, mas do meu desvão me desfiz.


sexta-feira, dezembro 14, 2001



Uma ilação

Além de míope tô ficando vesgo pelo doloroso esforço repetitivo de ler entrelinhas. E a conseqüência disso é a minha transformação num inusitado garimpador de coisas não ditas, num juntador de coisas apenas percebidas que nem sempre se confirmam.

Mesmo assim não desisto, nem retrocedo, porque minha cristalizada e doida convicção me faz crer que nas letras, como nos garimpos, o inexistente existe.


quarta-feira, dezembro 12, 2001



Abstrato no concreto

Tenho birra com certas palavras híbridas nem tanto pelos seus sons, nem tampouco pela força que tenham ou possam ter, e sim por serem pretensiosas pela abrangência que têm e pelos dúbios conceitos que quase sempre elas geram toda vez que são usadas. Psicofísico é uma.

Saca só esses sintomas aí, dependendo da intensidade, claro: o coração acelera e dispara, paralisação momentânea das funções cardíaco/respiratórias, o sangue se manda dos vasos periféricos causando palidez, a transpiração fica profusa. Ali, mais pra baixo, as atividades motrizes do estômago dão uma paradinha e as alças intestinais se dilatam, a secreção gástrica dá uma cessada e as fibras musculares lisas do tubo digestivo inteiro relaxam. E haja adrenalina abundante por toda parte.

Esse é um fenômeno dito psicofísico que o povo das psicologias classifica como medo, mas que um fã exacerbado chama de emoção quando chega perto do seu ídolo, e certos apaixonados dizem sentir quando estão junto do outro. Tem quem afirme que raiva/ódio provoca coisa igual.

A palavra, na verdade, tem culpa, só define. Se estrepa mesmo é quem tenta separar o que ela mistura.


terça-feira, dezembro 11, 2001



Poetas

“Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim (...)
(...)
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,
Fernando Pessoa”


Era presse cara aí embaixo que esse aí de cima escrevia quando tava agoniado. Mário de Sá-Carneiro que em 1916 pirou em Paris e tomou estricnina e morreu aos 26 anos. Quando soube da notícia Fernando Pessoa também quase endoidou. Duas amostras do talento dele:

Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.




Manucure

(...)Fora: dia de Maio em luz
E sol - dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Nem podem tolerar - e apenas forcados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes -
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos -
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim...(...)



sábado, dezembro 08, 2001



Tonheta

Há que ter polpa na chuleta
e força no bico da cassuleta.

quarta-feira, dezembro 05, 2001



Bumerangue

Vez em quando fracasso nos meus intentos, erro o alvo, derrapo nas sutilezas do humor, e me estrepo. Miro e disparo ironias pra frente, que mal dosadas, entopem o cano e quem explode é a culatra. Aí quase sempre quem sai chamuscado sou eu.




Babilônico mundo

Circulou por aqui uma denúncia de parte do povo do Iraque, essa que não engole aquele Sadam, o Hussein do bigodão dono de lá. Diz que de maio a novembro deste ano houve 26 execuções, 15 por motivos políticos e 11 por conta dos ditos crimes comuns, e de quebra ainda contabilizam 18 mutilações por furtos e outras contravenções "leves".

Pois me lembrei daquela pedra verde e circular que tá guardada lá no Louvre, e do que foi escrito nela há mais de 3.700 anos. Um conjunto de 282 artigos de regras rígidas que se aplicadas aos dias de hoje, conforme era lá, metade dessa população do mundo estaria morta ou mutilada, tal a sanha de justiça daquele código que vigorou ali na Babilônia (que estaria hoje dentro do Iraque), o duríssimo Código de Hamurabi, o rei que se considerava justo.

Tinha coisas assim: se alguém acusasse outro sem prova, deveria ser morto; se um homem difamasse uma mulher sem prova teria o cabelo raspado na fronte; se um arquiteto projetasse uma casa e ela caísse e matasse o dono, o arquiteto deveria ser morto; se um médico fizesse um incisão em alguém livre e o mutilasse ou matasse (imagine que naquele tempo não tinha antibiótico e as infecções eram quase fatais) teria suas mão amputadas (se isso ocorresse com um escravo a pena era mais branda. Continua assim, né?); se um juiz prolatasse uma sentença errada, pagaria as custas multiplicadas por doze e ainda perdia a condição de magistrado; se a esposa de alguém fosse flagrada em contato sexual com outro, os dois seriam amarrados e jogados na água de um rio ou reservatório, salvo se o marido perdoasse a mulher o rei ao servo. E ainda tinha outras penas cruéis desse tipo: jogar o acusado no fogo, cravar o(a) coitado(a) numa estaca, e mutilaçõs corporais dependendo da gravidade do delito como cortar a língua, o seio, a orelha, arrancar os olhos e os dentes.

O tempo passou, a civilização deu uns saltos, mas a humanidade não foi capaz de abolir o crime por via da consciência de cada um, e a pedra tá lá pra provar que a Babilônia ainda se perpetua camuflada pelo mundo.



segunda-feira, dezembro 03, 2001



Amuado

Tô cansado dos embates, desses áridos e dos férteis, dos que pululam ululando com um zunido infernal, e daqueles mais calados, escrotos, dissimulados. Quero nem saber do povo que polemiza sobre pulgas ou sobre nadas, sobre conceitos ou livros, filosofias, poesias, coisas modernas e antigas, bichanos, religiões, ratos, cavalos e patos, e também politicagem, cocô-disso ou daquilo, gente encastelada, fodida, enclausurada. E ainda dos libertos que mais parecem cativos, dos que varam a madrugada importunando o juízo de quem tem e quem não tem.

Essas coisas me emputecem não tanto porque não goste, nem também por ojeriza vez que umas me apetecem e até me estimulam. O diabo é que tomam o tempo daquela criatura meio-moça meio-pétala que se envolve aguerrida em cada combate desse como se fosse uma guerrilha, e se exaure, se aborrece, chora, xinga e até ri. E no fim roubam dela momentos que eram pra mim.