segunda-feira, dezembro 31, 2001



Morra o tempo, viva a vida

O homem é esse bicho ardiloso que se diverte armando armadilhas pra ele próprio cair, e inventa coisas que no fim são seu abismo. Medir o tempo é uma. E foi uma invenção tão besta que produziu o tédio, e deu a nós a expectativa de quanto dura uma vida, um amor, uma viagem, um suspiro ou transa. Tudo gira na perspectiva do tempo, tudo se emquadra aí. Um saco!

O ano é decorrência disso, uma unidade de tempo pra medir os dias. E o lapso cristão zera hoje pra recomeçar amanhã. E pra quem curte essa época de zeranças um brinde e um alerta, porque amanhã começa tudo de novo e se você se amarar no tempo vai ser tudo igual ao que ficou pra trás.


sábado, dezembro 29, 2001



Síndrome da inação

Parece coisa tântrica
pois até agora
só pintou semântica


quinta-feira, dezembro 27, 2001





Pro povo das alemanhas

Fiktor Konder
Kultur te Sabaterra!, 1933

BOEMA ZIMPHONIGUE

(Esbesiaal bra O MANHO)

Os goises, no Alle... manho,
Acora, nong estong "zoppa"!
A chende deng gue figá galade,
Deng gue figá guiedinhe!...
As rabais ta Bikotinhe
Deng lisengsa bra adirrá,
Deng lisengsa bra madá,
Bra faicê esgulhampasongs!...
Acora, dudes sitatongs,
Esdrangcherres e allemongs,
Nong bódeng mais bensá
Gome elles guér!
Deng gue figá "rasiste"!
Neng chuteu, neng gommuniste!
Neng temograto, neng bobuliste!
É ali — no padatinhe!
— Ou vae gom a Pikotinhe,
Ou vae bra a zeminderria! —
Nong deng nada gue chorrá!
E se alqueng vae brodesdá,
Veng ung bolisie to Kuarda,
Abonda ung esbinkarda
E tá uma dirra — PUMM!!! —
A chende deng gue morê!
Nong deng dembo te gorê
Nem te pebê
Uma chopp bra tesbetida!...

In: A MANHA: Zubblemend to Alle... manho, Rio de Janeiro, ano 5, n.31, 12 ago. 1933





terça-feira, dezembro 25, 2001



Declaração de amor

Eu sempre acreditei nele. Mas agora tenho cá minhas dúvidas. E tudo por conta do modesto pedido de ontem: solicitei, encarecido, que me trouxesse uma alemoa. Podia ser daqui ou d'alhures, negra, branca ou amarela, grande ou baixa, de cabelos crespos ou lisos e de qualquer cor. Olhos negros, castanhos, azuis ou verde-esmeralda. Sorriso largo e lindo, e com miolos bons à beça. Queria desse jeito aí, desde que fosse ela. Acordei tarde, só e desolado.

Pensando bem, talvez a culpa tenha sido minha que fui muito genérico. Teria sido mais simples dizer o nome dela. Ser objetivo. Parece que essa é a condição sine qua pra conseguir. No próximo vou ser.

segunda-feira, dezembro 24, 2001



Autocomiseração

Um brinde aos irresolutos, aos sem-respostas, aos sós e sem contentamento pois são, neste momento, a exata reprodução de mim. Aos outros, antípodas desses, talvez nem precise já que são brindados com doses diárias de felicidade, né?

De qualquer maneira tô dando um peteleco na tristeza e ergo um brinde a todos.


domingo, dezembro 23, 2001



Troglodita

Ando desconfiado que essa vontade de isolamento que se apodera da gente toda vez que pinta desenlace, desengano, incerteza no amor ou outras sacanagens da vida é a mais clara manifestação da nossa herança troglodítica, que driblou as armadilhas dos elos perdidos, escapuliu, e chegou cá ilesa.

Ou então como se explica essa minha compulsão mometânea por uma furna qualquer só porque ela não disse qual, dentre os uns, o um que ela deseja e ama.


sábado, dezembro 22, 2001



Demolido

A paixão avassaladora não cabe nos limites internos do corpo, e por não caber entontece e demole, embora vaze por cada poro da pele como se fosse suor. Não se interdita a paixão pelas vias burocráticas dos mandatos de prisão, nem se contém a danada por simples pedido ou ordem.

E como ela permeia tudo, em todo mundo e em mim, não há nem viés de fuga.


sexta-feira, dezembro 21, 2001



Do caramba

Esse Mário aí mesmo tendo se matado, doidão, aos 26, foi, junto com Pessoa, o que de melhor rolou na poesia portuguesa naquele tempo. Aí embaixo o bicho destila sua angustia depressiva.

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!


Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.




Tête-à-tête



Pois sim, resolvi botar esse tal de comentário aqui pra ver se o povo usa nas broncas ou no que for.

quinta-feira, dezembro 20, 2001



Horizonte amoroso

Lá tá tudo turvo e cá tá quase fusco.

quarta-feira, dezembro 19, 2001



Teorias d’amor

Perscrute as entranhas, as vísceras de baixo quando quiser inventariar os amores, aqueles que foram, os que prometeram ser e os que nunca foram nem prometeram, e os que são sem a gente saber. Pois não se engane, é lá, na cavidade abdominal, que o amor se instala: no fígado, pâncreas e tripas. Nessas partes sensíveis os registros são mais fortes, demoram esmaecer.

Já nas vísceras de cima, as tais cranianas, ele, o amor, faz é degringolar pela ação deletéria das tramas da razão, pela lógica azeda que destrói as querenças inventando impossibilidades.

Daí que o amor-cabeça engendrado no juízo já nasce é troncho e dura quase nada. Então viva o amor-pâncreas que não pensa e mergulha cego, embora se arrebente.


segunda-feira, dezembro 17, 2001



Isso ou aquilo

Não quero ser que nem uma estátua viva, truncada pela completa inação, como essas que se pintam de cor de bronze ou de prata e ficam paralisadas no meio da multidão com os músculos apáticos, como se tivessem morrido ou inoculado curare.

Quero nervos e músculos ativos, miolos fervendo, sangue nas veias, olhos atentos e poucos sobressaltos nas coisas de amar. E se o amor é mesmo amor resulta nisso. Se for fugidio ou desertor resulta naquilo.


sábado, dezembro 15, 2001



Desvão detonado

Cada um tem seu desvão, como se fosse uma escada cujos degraus não se ligam. E nesse espaço isolado uns se trancam e outros não. Tem gente que mora nele e faz dele seu casulo como bicho-de-seda ou lagarta, e morre lá sem nunca passar de crisálida.

Do meu já saí faz muito tempo, e pra lá não volto mais, porque deixei dentro dele hibernando entorpecidas as angústias que já tive e que hoje não me assolam mais. Certo é que ainda hesito em certas ocasiões, mas do meu desvão me desfiz.


sexta-feira, dezembro 14, 2001



Uma ilação

Além de míope tô ficando vesgo pelo doloroso esforço repetitivo de ler entrelinhas. E a conseqüência disso é a minha transformação num inusitado garimpador de coisas não ditas, num juntador de coisas apenas percebidas que nem sempre se confirmam.

Mesmo assim não desisto, nem retrocedo, porque minha cristalizada e doida convicção me faz crer que nas letras, como nos garimpos, o inexistente existe.


quarta-feira, dezembro 12, 2001



Abstrato no concreto

Tenho birra com certas palavras híbridas nem tanto pelos seus sons, nem tampouco pela força que tenham ou possam ter, e sim por serem pretensiosas pela abrangência que têm e pelos dúbios conceitos que quase sempre elas geram toda vez que são usadas. Psicofísico é uma.

Saca só esses sintomas aí, dependendo da intensidade, claro: o coração acelera e dispara, paralisação momentânea das funções cardíaco/respiratórias, o sangue se manda dos vasos periféricos causando palidez, a transpiração fica profusa. Ali, mais pra baixo, as atividades motrizes do estômago dão uma paradinha e as alças intestinais se dilatam, a secreção gástrica dá uma cessada e as fibras musculares lisas do tubo digestivo inteiro relaxam. E haja adrenalina abundante por toda parte.

Esse é um fenômeno dito psicofísico que o povo das psicologias classifica como medo, mas que um fã exacerbado chama de emoção quando chega perto do seu ídolo, e certos apaixonados dizem sentir quando estão junto do outro. Tem quem afirme que raiva/ódio provoca coisa igual.

A palavra, na verdade, tem culpa, só define. Se estrepa mesmo é quem tenta separar o que ela mistura.


terça-feira, dezembro 11, 2001



Poetas

“Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim (...)
(...)
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,
Fernando Pessoa”


Era presse cara aí embaixo que esse aí de cima escrevia quando tava agoniado. Mário de Sá-Carneiro que em 1916 pirou em Paris e tomou estricnina e morreu aos 26 anos. Quando soube da notícia Fernando Pessoa também quase endoidou. Duas amostras do talento dele:

Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.




Manucure

(...)Fora: dia de Maio em luz
E sol - dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Nem podem tolerar - e apenas forcados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes -
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos -
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim...(...)



sábado, dezembro 08, 2001



Tonheta

Há que ter polpa na chuleta
e força no bico da cassuleta.

quarta-feira, dezembro 05, 2001



Bumerangue

Vez em quando fracasso nos meus intentos, erro o alvo, derrapo nas sutilezas do humor, e me estrepo. Miro e disparo ironias pra frente, que mal dosadas, entopem o cano e quem explode é a culatra. Aí quase sempre quem sai chamuscado sou eu.




Babilônico mundo

Circulou por aqui uma denúncia de parte do povo do Iraque, essa que não engole aquele Sadam, o Hussein do bigodão dono de lá. Diz que de maio a novembro deste ano houve 26 execuções, 15 por motivos políticos e 11 por conta dos ditos crimes comuns, e de quebra ainda contabilizam 18 mutilações por furtos e outras contravenções "leves".

Pois me lembrei daquela pedra verde e circular que tá guardada lá no Louvre, e do que foi escrito nela há mais de 3.700 anos. Um conjunto de 282 artigos de regras rígidas que se aplicadas aos dias de hoje, conforme era lá, metade dessa população do mundo estaria morta ou mutilada, tal a sanha de justiça daquele código que vigorou ali na Babilônia (que estaria hoje dentro do Iraque), o duríssimo Código de Hamurabi, o rei que se considerava justo.

Tinha coisas assim: se alguém acusasse outro sem prova, deveria ser morto; se um homem difamasse uma mulher sem prova teria o cabelo raspado na fronte; se um arquiteto projetasse uma casa e ela caísse e matasse o dono, o arquiteto deveria ser morto; se um médico fizesse um incisão em alguém livre e o mutilasse ou matasse (imagine que naquele tempo não tinha antibiótico e as infecções eram quase fatais) teria suas mão amputadas (se isso ocorresse com um escravo a pena era mais branda. Continua assim, né?); se um juiz prolatasse uma sentença errada, pagaria as custas multiplicadas por doze e ainda perdia a condição de magistrado; se a esposa de alguém fosse flagrada em contato sexual com outro, os dois seriam amarrados e jogados na água de um rio ou reservatório, salvo se o marido perdoasse a mulher o rei ao servo. E ainda tinha outras penas cruéis desse tipo: jogar o acusado no fogo, cravar o(a) coitado(a) numa estaca, e mutilaçõs corporais dependendo da gravidade do delito como cortar a língua, o seio, a orelha, arrancar os olhos e os dentes.

O tempo passou, a civilização deu uns saltos, mas a humanidade não foi capaz de abolir o crime por via da consciência de cada um, e a pedra tá lá pra provar que a Babilônia ainda se perpetua camuflada pelo mundo.



segunda-feira, dezembro 03, 2001



Amuado

Tô cansado dos embates, desses áridos e dos férteis, dos que pululam ululando com um zunido infernal, e daqueles mais calados, escrotos, dissimulados. Quero nem saber do povo que polemiza sobre pulgas ou sobre nadas, sobre conceitos ou livros, filosofias, poesias, coisas modernas e antigas, bichanos, religiões, ratos, cavalos e patos, e também politicagem, cocô-disso ou daquilo, gente encastelada, fodida, enclausurada. E ainda dos libertos que mais parecem cativos, dos que varam a madrugada importunando o juízo de quem tem e quem não tem.

Essas coisas me emputecem não tanto porque não goste, nem também por ojeriza vez que umas me apetecem e até me estimulam. O diabo é que tomam o tempo daquela criatura meio-moça meio-pétala que se envolve aguerrida em cada combate desse como se fosse uma guerrilha, e se exaure, se aborrece, chora, xinga e até ri. E no fim roubam dela momentos que eram pra mim.


quinta-feira, novembro 29, 2001



Além de lá

Entre mim e ela um mar se expande e uma montanha barra o vento, mas há uma planície prometida. Telúrico amor.

sábado, novembro 24, 2001



Tempo, não-tempo, temporal

Não entendo nada do tempo, mas sei, por ouvir contar, que no espaço o tempo é único mas pode ser relativo conforme a velocidade de quem vai ou de quem volta. E no vai-e-vem dos viventes a impressão que se tem é que o tempo é igual pra cada um e pra todos. E o bicho só é um se for medido por lapso, que é medida conhecida e se compara a um nó porque ele se desata toda vez que se completa subtraindo da vida um quinhão do seu tamanho.

Pros amantes o tempo é outro e a ansiedade é quem mede, pode correr ou parar, e na espera não passa, e na chegada dispara. Mas pra mim, como o meu amor tá longe, o tempo só me azucrina nas formas todas que tem.


quinta-feira, novembro 22, 2001



Redundância

Quando o amor escapole do quengo é porque do coração já se foi.


quarta-feira, novembro 21, 2001



Pra filhota

Um amor diz que é mimético, outro diz que é anti-isso. Enquanto um se adequa e se encaixa, o outro alopra e se rebela porque um é amor-amor e outro é filha-amor. E se uma me quer carnal e mais, a outra só teme perder o pai.

Dois modos de amor e nenhum dos dois é banal. Pra o amor é o amor, e pra filha é o amor-de-pai. E um até pode acabar, mas o outro jamais se esvai.



sábado, novembro 17, 2001



Na espreita

É lá, onde se dão os ajustes do rumo da vida de cada um que as bandas que habitam dentro de nós se digladiam e dão pinotes e fazem um ruge-ruge danado. E já tá com alguns dias que as minhas não se aquietam, ora se acalmam e logo se exasperam e tornam a serenar. Me seguro porque sei que nessas épocas de muda não se pacificam fácil. Ficam se engolindo até que o rumo se defina.

No meu caso fico cá só de través esperando sossegarem pra que assim mais tranqüilo eu possa botar minha vida em minha mão, e dar a ela certo sentido, algum prumo e direção.


quarta-feira, novembro 14, 2001



Torpor

Pois sim, o mais doído, o que tritura e remói a alma e desassossega o coração. Aquele que nasce da culpa por ferir e que só se desvanece pela plena remissão de quem foi ferido. Pardon, mon amour.



terça-feira, novembro 13, 2001



Abstrato

Tem dia que mais pareço um esquisso do que coisa acabada. Hoje é um.

segunda-feira, novembro 12, 2001


Mais que arco, mais que círculo

Esse povo que calcula formas redondas e retas, agudas e obtusas, pontos que nunca se encontram, outros que só se tangenciam, esse da geometria, afirma e até prova, que distância pode ser longe e também pode ser perto. Diz que se eu sou um extremo e você a outra ponta e se a lonjura aumenta ela então tende a arquear-se e as pontas se aproximam. E assim nós dois em arco embora pareça longe na verdade estamos perto, e o arco que nos sustenta é mais forte que uma reta e tudo isso se comprova pela tal lei que regula a compressão.

Pro povão que não calcula, não conhece aritméticas nem tampouco geometrias, e também não acredita que toda reta é uma curva, no amor é diferente e distância é légua muita, e tá longe é tá distante, e não tem arco no mundo que sustente um amor cujas pontas não se não se toquem e se transformem num puro e perfeito círculo.

E nesse confronto entre heresias e ciências fico cá entre convicto e perplexo. Mas creio que essas pontas estando num arco ou círculo pouco importa, nem também isso explica as contradições do amor que pra se manter aceso precisa mesmo é de amor.

domingo, novembro 11, 2001



Domingueira

Ar rarefeito, ausências, pendências. Quando isso se junta pinta logo uma ponta de abatimento.

sexta-feira, novembro 09, 2001



Teses ( e os perigos imanentes...)

Nas coisas assim das idéias, nessas das filosofias e também literaturas tudo que é tese me engasga, não passa pelo gogó, e a que passa rumino e em seguida expilo pra não ficar nem vestígio, porque tese contamina que nem bacilo ou vírus e se a resistência for baixa ela fode em silêncio o que de seu você tem.

Um fato...  ( real? comprobatório?)

Foi o que se deu com aquele lá, aquele que aos 19 além de pirar broxou de tanto citar os outros, de contemplar, repetir. E era salteado e de cor que até sua firme alma se quedou abilolada. Empanzinou-se nesse farto e falso banquete das teorias e modismos que é onde se enterra e ressuscita cada ideia e quem a pariu. Só falava o que um já tinha dito e mais-não-sei-quem falou, dava logo a referência acompanhada da síntese.

E nesse parangolé o bicho trincou o juízo, ele não era mais ele, perdeu-se de si e dos outros e nunca mais se encontrou. O infeliz queria ser muitos e terminou sendo nenhum.

Antíteses (exercício de alomorfia...)
  
Gosto das idéias instigantes, das filosofias e literaturas, cito e faço referência. O conhecimento humano evoluiu foi por aí. Considero os tesistas militantes e os avulsos também. E particularmente as teses daquela moça me instigam sempre, e aprecio fundamentalmente as hipóteses que ela desenvolve sobre mim.


quinta-feira, novembro 08, 2001



Ditoso

Porque ela é o meu amor.


quarta-feira, novembro 07, 2001



Singular amor

Sou plural e uno
e nesse uno amo
essa mulher e única
assim feito um insano.

Nela tudo é vasto e tudo pulsa,
tudo é voraz e é obsessivo
e busca em cada palavra a raiz
de tudo que se fala ou que se diz.

E se palavra minha com dela se dissende
é somente por paixão que em nós é muita.
É por vontade de que tudo seja tudo e seja mais
e menos que isso parece deixar um e outro descontente.

Saiba, amor, que quando quero não desisto
nem fujo ao que desejo ou pulo fora com esquivas
e mais que sonho que ilusão ou vã quimera
esse amor é mais e não comparo e prepondera.


terça-feira, novembro 06, 2001



Saga dos desenganos

De tão anônimo é improvável que um dia de mim me contem a saga. E se contarem certamente dirão que amei demasiado, e que foi tanto e que esse tanto quase sempre me fez perder o rumo, a rota exata, o prumo, a noção das coisas e que me expus ridiculamente ao escárnio de sagazes corações bandidos que a mim, sabe-se lá por quais razões, simularam paixões desesperadas. E que por isso muitos foram os desenganos.

Dirão que amei compulsiva e docemente cada mulher como se fosse o último amor que eu pudesse ter. E que amei e tive umas, e que outras nunca tive e que uma dentre todas me arrebatou mais que as demais. Que fui feliz e não, que morri velho e sossegado de morte natural, mas que suspeitam que a verdadeira causa mortis tenha sido mesmo um tal de agudo amor.

Pra completar esse aí de cima taí dois posts antigos republicados agora pelo clima do momento.


À Deriva

Não me tome como bússola
pois é comum me perder
em cada mar que navego.
Não me tome como âncora
pois nem a mim me preservo
e quase sempre naufrago
nas águas de cada porto,
na beira de cada cais.


Pranto

Dia a dia me convenço
que pra lágrimas de amor
é inútil ter lenço



segunda-feira, novembro 05, 2001



Ela

No âmbito das matemáticas toda metade é meio porque elas se compõem de quantidades e grandezas e carecem da rígida exatidão nos cálculos que as determinam, sob pena de tudo desmoronar. E aí nunca tem erro: metade mais meio é um.

Já nas gentes é diferente e o significado é ambíguo, podendo ser esse ou outro, porque gente se compõe de abstratos sentimentos, e em cada criatura o sentimento é diverso, não tem volume nem massa e por isso não se mede nem se pesa e nem se vê. E aí metade com metade pode extrapolar de um, e pode haver tantas metades que somadas não completam nunca um.

E por serem assim amorfos os tais ditos não se enquadram nos rigores dos conceitos das matemáticas e físicas, como esses de espaço, de volume e de massa. Mas uma coisa me encuca. Embora desprovidos dos rigores dessas leis, dois sentimentos de amor, por diferentes pessoas, não ocupam porque não cabem, o mesmo espaço ao mesmo tempo, no meu quengo e também nos de outras criaturas, semelhante ao que acontece lá na lei dos corpos sólidos. E é o que ocorre comigo neste momento e digo que o meu amor é só dela, daquela das palavras ternas e de olhar pidão, que cada vez que eu olho sei que é ela que eu quero.

Tem outras teorias tipo quântica ou tipo caos que podem baratinar tudo isso que foi dito. Mas essa história é outra...


quinta-feira, novembro 01, 2001



Ela tem essas coisas

Ela tem um bichano, bebe, fuma e dança tango. Me deleita com palavras e me regala nas carícias. Tem um cachorro, bebe, não fuma e dança mambo. Faz ginástica, estica o corpo e estira a mente, tem sorriso de contente, diz coisas que me deleitam, faz outras que são delícias. Ela tem outros bichos, dança rock e outras danças e tudo o mais que chamam pop. Não fuma, bebe pouco, tem um olhar que me zera, esse oblíquo de lagarta, daquela mais perigosa. Carrega uns desenganos, anda descalça e a pé, curte ouvir mais do que ver, devora letras e com letras me afaga, tem o segredo do verbo e só falta verbalizar. Ela é meu desejo, meu querer e meu encanto.

E me deixa tão grogue que eu nem sei se é assim. Mas se não for não importa, importa só que me ama.


segunda-feira, outubro 29, 2001



Abracadabra

É uma luz e alumia, é um sinal traduzido em siga. É nossa sina sem rechaço.


Ambíguo amor

Dou esturros feito fera e ela diz que é murmúrio. Sou vendaval indomado e pra ela isso é brisa. Me lasco todo por dentro, exponho o que é visceral, estremeço, me encanto, digo que amo e que quero, detono eus indecisos pra sobrar só o decidido e mesmo assim refuga o afeto afirmando que é pouco. Aí eu me pergunto se não falta é concomitância lá e cá nesse querer.


sábado, outubro 27, 2001



Eus detonados

O avesso é um. O por dentro é outro, e tem mais uns. E talvez no fim apenas seja metade que com a outra soma mais. E meio forte meio frágil, solto, perdido no espaço sem certezas e muitas dúvidas, tenta com tanta fúria, coisa que nenhum tem, ser um só pra ser só teu.

sexta-feira, outubro 26, 2001



Feromônio

Gente e bicho tem muita coisa em comum no comportamento e libido e até nas sacanagens e artes das seduções e enganos. Um tempo atrás vi um documentário sobre bichos cujo nome era Pequenas Histórias de Amor. Me chamou atenção a dos insetos, pois sim , insetos esses tais que picam, ferroam e azucrinam, mas que por detrás disso tudo dão pinta que também amam .

A mais impressionante foi a das vespas. Como se sabe, a fêmea não tem asas (o que considerei profundamente injusto. A natureza também tem lá suas discriminações talibãs), e ela tem um imenso traseiro e anda pelo chão. Pra encontrar o macho procura uma haste pra subir, e lá em cima arrebita o tcham, solta o feromônio e enlouquece o bicho (onde ele estiver), que do jeito que vem no vôo, tchum, engata nela e saem voando (ele tem que pegá-la num ponto elevado, pois não consegue levantar vôo com ela a partir do chão), aí ela fica enroscada nele, bonitinha, durante cinco dias, na clássica posição papai e mamãe. A maior duração de transa contínua que já tomei conhecimento.

Eles fazem tudo engatadinhos, comem, bebem, se divertem. Achei interessante quando eles pousam assim numa folha que tem orvalho, ele bebe e afasta a cabeça pra ela beber também, num gesto aparentemente carinhoso. Aquilo é inteligência ou instinto? E rola uma paixão durante aqueles dias. Me ocorreu que o diretor (ou roteirista) de Nove e Meia Semanas de Amor se inspirou naqueles danadinhos.

Mas findo aquele período de louca paixão ele desengata e se manda em busca de outra, pois o único objetivo da vida do sacana é a reprodução, assim que nem acontece com outras espécies que tão lá na frente na cadeia da vida.

Daí penso que eu e certa pessoa somos bichos de uma mesma espécie cujo feromônio é a palavra e o fascínio que ela tem, e que impele um na direção de cada qual como inseto pra inseto.


quarta-feira, outubro 24, 2001



Par

Mistério há e muito nas metáforas todas, e somos isso, você e eu (e os outros com outros também) não mais que metafóricos seres, buscando saber de cada outro a essência de cada qual. E aos poucos os fragmentos de nossas almas surgem, caleidoscopicamente, e vão compondo devagarinho o modo, o modelo que cada um é. E se um se encaixa no outro então já se é quase um par.

Não circulo pelo espaço largo da premonição, e é sabido que o meu faro é fraco, e que a minha intuição é falha, mas ando pressentindo uma ensambladura iminente com aquela moça instigante.

segunda-feira, outubro 22, 2001



Rumo ao alvoroço

O tempo, nesses anos todos, e que não são tão poucos, me ensinou umas coisinhas, e dentre elas esta: quando o rebuliço se instala, não tem jeito, o próximo e inevitável passo conduz sempre ao alvoroço. E alvoroço no amor é raro, e nada a ele se equivale.

domingo, outubro 21, 2001



Rebuliço

Tem vez que chega suave e pouco a pouco ocupa espaço. Tem outras que galopeia e invade de supetão com grande voracidade. Não há regras que regule, que enquadre ou que segure o ímpeto que o amor tem, nem seus ardis e suas manhas, nem seus muitos paradoxos e todas suas estripulias. Aí ele deita e rola, se apodera, faz de você o que quer, deixa alegre, deixa bobo, e enquanto ali permanece usurpa feito um tirano o pensamento da gente e faz com que ele se ocupe e se ligue o tempo todo é na amada criatura. Porém parece que uma coisa é certa, chegando brando ou brusco o rebuliço que causa é semelhante ou igual.

E nem precisava ser assim tão sorrateiro e astucioso porque quase ninguém no mundo lhe oferece resistência, e as gentes todas do mundo tão querendo, na verdade, é encontrar um. Mas o grande barato é esse, esse de pintar sempre de forma diferente pra surpreender, encantar. Tem hora que o efeito explode é logo de imediato, mas tem outras que o resultado chega meio retardado.

E se você tá inquieto, vez em quando palpita tudo, o pulso dispara e freia, o pensamento vagueia e termina rumando prum rumo ali bem pra além de onde mora, e o riso escancara dentro e tenta conter ele lá, mas escapole espontâneo e os seus  lábios denunciam o que o avesso escondia, então desconfie, pois foi contagiado por esse tal rebuliço.



sábado, outubro 20, 2001



Exercício pra desenrolar a língua ( e o juízo)

Afago afeta como afeto afaga.

sexta-feira, outubro 19, 2001



Incantare

Toda mandinga enfeitiça pelo feitiço que tem, e sortilégio é mais que isso e encanta por outras vias. Tem o das porções maquinadas com desejos misturados em cafeteira ou pipeta, em folhas de formas cônicas, na concha da mão ou em cálice, onde os dedos são cruzados pra cristalizar as vontades. Diz o povo que dá certo, basta crer, ter muita fé.

Tem aqueles das palavras que dispensam ritual ou qualquer vaso, só carece enfileirar cada qual em seu lugar e elas se encarregam do ofício de encantar, independente de fé, ou de crença turbinada. Elas, as palavras, acariciam ou ferem com igual intensidade, enlevam ou magoam na mesma velocidade, daí que pra mim elas são o maior dos sortilégios.

Tem outros que maravilham pela forma, pela imagem que a retina retém, mas esses são enganosos porque seduzem por conta das formusuras e formusuras se sabe são efêmeras, quase sempre nunca duram.

Mas  há outros sortilégios, são tantos que ninguém sabe. Só sei que tem uns aí que nos atingem em cheio, por isso que vira e mexe o coração se alumbra e deixa assim nesse deslumbre encantado.


quarta-feira, outubro 17, 2001



Empatias

O tempo registra e prova que toda vez que se quis, por persuasão ou castigo, sufocar dentro dos outros, e também dentro de si, os manifestos quereres que as empatias provocam não se conseguiu debelar esses impetuosos impulsos porque nascem da avidez, e avidez parece que é autônoma.

Por isso se me pinta uma empatia eu abraço, e se tem alumbramento, aí eu reverencio pra não terminar amargurado, com os miolos fundidos por ter refugado o que o querer queria.


terça-feira, outubro 16, 2001



Pentelhos


Nas artes, nos jeito e nos trejeitos a França sempre foi imbatível. E sempre criou e exportou moda, inclusive nos costumes. E foi lá que surgiu, por volta de 1750 a moda de enfeitar os pentelhos do mulherio com muitos laços de fitas coloridas, numa profusão de cores que transformava os púbios pêlos em pequenas obras de arte.

As fidalgas européias logo aderiram o que provocou o surgimento de um profissional sofisticado: o enfeitador de boçanha. Jules-Etienne Bover se destacou nessa estranha arte e ficou conhecido como Juju dos Laçarotes.

O macharal delirava com a moda nova, não tanto pelos efeitos artísticos e estéticos dos laçarotes, mas com a excitante brincadeira de desatar, um por um cada laço daqueles.

A coisa era tão inútil que a moda não durou muito. Juju tentou ser pintor e só pintava pentelhos em primeiro plano. Fracassou nesse novo metiê mas deixou um legado pra uma geração que apareceu 150 anos depois e inventou, baseado nos traços do tal Jules, o fauvismo, aquela técnica de pintura em que as pinceladas parecem fitas coloridas fundidas.

Difícil essa moda voltar assim nos dias atuais porque as mulheres mudaram muito. Mas se houvesse um revertério e por acaso voltasse encontraria uma dificuldade: espaço pra pendurar os laços. A depilação que avançou das virilhas pro centro acabou com essa possibilidade e transformou aqueles antigos capinzais em estreitas, primorosas e delicadas fileiras de pêlos que mais parecem nervosas taturanas.



segunda-feira, outubro 15, 2001



Azul


Cada cor tem seu mistério e matizes, e como na vida, ausência ou ajuntamento colore ou desbota conforme a intensidade da luz. De perto cada cor é uma, mas quando o ar se adensa, seja de perto ou de longe, não importa a cor da cor, a que resulta é azul. Esse é o fascínio, e essa cor me ata.


domingo, outubro 14, 2001



Teorias inúteis

Toda teoria que invento não resiste ao menor sopro do vento. Meu consolo é que as outras todas que pululam por aí quase não têm consistência e são do mesmo quilate, se esboroam pelo ar com a maior facilidade porque se sustentam mesmo é somente na rasa lógica da ida. Na ardilosa, intricada e escorregadia lógica invertida da volta empacam e não se comprovam. Teoria pra não ser troncha tem que transitar com desenvoltura no fluxo e na contra-mão lubrificando os contrários.

Esse blá todo aí em cima é só pra justificar uma prática que poderia se transformar numa lustrosa, tola e inútil teoria. Mas pelo menos nasce de um avesso comprovado.

Pois sim, tava eu aí nesses rolês motorizados que esses feriados compridos me possibilitam por essas trilhas virgens de dunas, barrancos e lamas quando dou de cara, numa pousada, com um grupo da andarilhos peregrinos que rumavam em busca de um santo graal tupiniquim. Grupo heterogêneo de gentes, de gênero e idades diferentes, como diversificado era o nível social e intelectual. Eles já haviam caminhado uns 80 quilômetros e ainda faltavam uns 30 pra chegar no tal santuário (há uma rede de trilhas e pousadas com infraestrutura pra isso, aqui, em outros cantos do país e no exterior, me informaram uns lá que são useiros e vezeiros nessas caminhadas mundo a fora ).

Num impulso que me remeteu aos meus bravos anos juvenis resolvi acompanhar o grupo. Deixei meu 4x4 estacionado ali e me mandei a pé com o povo. Grandes papos, nada de religião, só miolo de pote (água, pra quem não conhece a expressão), só conversa mole, nada de papo-cabeça. Já tava meio cansado dos solavancos anteriores, do motorizado, e cheguei lá foi quase esgotado. Olhei pro santo e pras pessoas e percebi que elas tinham uma fé danada. Me senti meio deslocado ali. Voltei de carro até o ponto de partida, peguei o meu e fui pra casa, onde cheguei com o corpo moído e a alma em pandarecos.

Ah, a teoria. Minha conclusão a respeito de descanso agora tá completa. Se você pretende descansar, aliviar mesmo a fadiga do corpo e da cuca, primeiro tem que deixar o esqueleto totalmente exausto, porque assim o juízo fica demente aí o repouso tende a ser absoluto. Só que dá uma canseira doida. Elementar e pífia, né?



quarta-feira, outubro 10, 2001



Lá pra trás e hoje o povo é um

Esse bicho aí era um religioso, um frei da Ordem Beneditina ali de Portugal, e tava mais a fim dos prazeres da vida mundana, das delícias das sacanagens terrenas que da salvação eterna. No seu leriado barroco confessava aí seu desengano com uma donzela ingrata.

Frei Jerónimo Baía, famoso na corte daquele tempo, escreveu essa poesia por volta de mil seiscentos e cinqüenta e qualquer coisa, e convence a gente que, independente do tempo, qualquer desventura é uma. E disse lá no seu simbolismo mineral o mesmo que diria hoje um desventurado no amor.

Madrigal a uma crueldade formosa

A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?



terça-feira, outubro 09, 2001



Alvo

Se premedito um sacolejo pras bandas de lá, dali, quem termina sacolejado quase sempre sou eu. Se mando uns tirombaços travestidos de torpedos abarrotados de paixão, de desejo ou de amor todos ricochetam em algum canto ou lugar, batem e voltam e me atingem em cheio, parece até que a culatra é a saída do cano.

Preciso reformular minha crença nessa metáfora bem sucedida do coração, essa que coloca o bicho como repositório de todas ternuras e agruras que agoniam a gente. O diabo é que já tentei, mas como ele pulsa com ritmo ou arritmado, bate mais forte e acelera conforme os sentimentos explodem, a crença não se destrói. Daí eu continuo assim, mais alvo do que gatilho.


sábado, outubro 06, 2001



Afrodisíaco

Parece que toda certeza esbarra mesmo é na dúvida que cada certeza cria. E uma certeza provada, ou assim considerada, uma que o povo tinha era que o medo broxava. Pois desconsidere daqui pra diante e pra sempre que o pavor é broxante, porque ao contrário disso, paúra é na verdade excitante e deixa todo mundo doidão e na maior fissura, a fim de uma comilança querendo um vuco-vuco.

É o que diz esse povo, esse das psicologias, esse que tem a mania de escarafunchar o que se passa e o que vai nos quadrantes do quengo de cada um e de todos pra depois espalhar por aí que todo mundo age igual ou parecido.

Depois daquele alvoroço aéreo ali pras bandas do norte, aquele das torres gêmeas e os demais e do fuzuê resultante, a fodelança aumentou, tá todo mundo faceiro e já se espera pra daqui a nove meses um aumento na tal taxa de natalidade de lá.Tá tudo aqui nessa matéria.

Pois sim, seguindo essa lógica aí, quando pintar uma ameaça, um fastio no parceiro ou na parceira é só provocar um susto que é capaz de tudo voltar ao normal.


sexta-feira, outubro 05, 2001



Volare

No ar me embaraço
e não há bico, pena ou asas
e me convenço, não sou pássaro.

No chão me falta espaço
e travo a boca, pés e braços
e me pergunto: sou um pássaro?

quinta-feira, outubro 04, 2001



Efêmera

Fugaz, ela passou como um bólido,
arrebentou minha inércia
e me deixou zonzo feito um bêbado.

quarta-feira, outubro 03, 2001



Abissal

O maior dos precipícios
não cabe nem caberia
nesse espaço nesse vácuo
nesse vão desmesurado
que cada alma esconde
e que não tem fim nem início.

segunda-feira, outubro 01, 2001



Enquadrando a fornicação

Teve um tempo que os sábios sabiam pouco sobre os mistérios das coisas das ciências e aí se danavam a querer justificar os fenômenos através de lógicas tão tronchas que deixavam era o povo zonzo. Pois Francisco, o tal Núñez de Coria, médico e tratadista espanhol era um desses. O bicho escreveu em 1572, em castelhano (arcaico), Tractado del uso de las mujeres, uma espécie de guia sexual que tinha pouca ciência, muita heresia, forte influência da igreja no sentido de frear a fornicação e a fodelança e um enorme preconceito contra as mulheres, a começar pelo título.

Lá o bicho diz que o coito desmesurado faz mal a saúde, mas moderado é bom porque expele o supérfluo do homem e ainda serve pra reprodução; indica a época do ano mais apropriada pra prática desse ajuntamento macho/fêmea; informa que a ereção é resultado das ventosidades internas provocadas por certos tipos de alimentos (e aconselha os religiosos e quem quiser se manter casto evitar tais iguarias); que o homem trepa com fúria e tem gozo intenso, mas na mulher o gozo é maior porque é extenso e que o apetite sexual delas é insaciável, seja ela formosa ou não; que o homem só dá no couro se tiver determinada compleição física, e o esperma é a essência mais pura do sangue e as formas lícitas de evacuação se dão pelo coito, suor e urina, e quanto mais se usa mais descolorido ele fica. Ainda fala dos orifícios estreitos das donzelas na sua juventude, de fricções, de umidades, de enfiamentos e dos bagos externos masculinos e dos femininos que são internos, suas vantagens e desvantagens e coisas assim.

E pra fixar o perigo que são as mulheres diz que as éguas chamam os cavalos com seus relinchos, a vaca dá uns bramidos pro touro e nas humanas criaturas a atração é por via da luxúria. E cita um provérbio de Salomão, aquele outro sábio, este “ três coisas são que nunca se fartam: a boca do inferno, a vulva e o fogo”.

Ainda trata dos banhos, sono e digestão. Os capítulos tão dispostos assim:

CAPITVLO 1. En el qual se declara, que cosa sea el coyto, o acto venereo, y si la delectacion del tal acto sea mayor en la muger que en el varon.

CAPITVLO 2. En el qual se declaran las vtilidades y prouechos que se siguen del moderado ayuntamiento con las mugeres, y delos daños y males que se siguen de dexar la tal obra, a los que estan acostumbrados a ella.

CAPITVLO 3. Delos daños y males del superfluo vso del coyto y luxuria.

CAPITVLO 4. En el qual se demuestra que tiempo del año sea dañoso para el coyto y a que complexiones mas dañe.

CAPITVLO 5. A que conplexiones y naturalezas de hombres mas conuenga el coyto moderado, y a quien menos haga daño el desmoderado y desordenado, y que hombres sean aptos para casados, y que hombres no.

CAPITVLO 6. En que tiempo del año, y en que hora mas conuenga el debito, o coyto.

CAPITVLO 7. De que cosas se deuen guardar los religiosos y varones que quieren guardar la castidad.

CAPITVLO 6 [8]. Que es lo que deuen hazer los que quieren no ser molestados, ni fuertemente tentados de la carne.

CAPITVLO 9. Que tracta de los vaños que cosa sean que condiciones ha de guardar el quevuiere de entrar enel vaño.

CAPITVLO 9 [10]. Del vaño de agua fria y de sus vtilidades y prouechos, y quienes se ayan de vañar en el, y en que tiempo y hora.

CAPITVLO 8 [11]. Que cosa sea sueño, y como sea necessario y dende proceda, y como conuenga para bondad de digestion.

CAPITVLO 11 [12]. Quales sean las vtilidades y prouechos del sueño templado y de sus daños quando es desmoderado y superfluo.

CAPITVLO 12 [13]. A que hora se deue dormir, y en que
disposicion de cuerpo, y sobre que parte del cuerpo.


Parece que surgiu como contraponto a um outro tratado anônimo chamado Speculum al foderi. Bom esse.


sábado, setembro 29, 2001



Femina

Uiva, grita e range os dentes
numa imitação febril de fera,
e como vampiro de si mesma
se fere dentro como se fosse fora,
e se suga, mortifica se consome
num feroz embate entre ela e ela,
e sobra é a dor que ela demonstra
por não ser a fera que se mostra
sempre que alguém lhe pisa ou fere
num ataque ou numa circunstância
que ofenda a condição de ser mulher.
E no fim de tudo o que aflora mesmo
é uma alma sensível, meiga e calma
que discerne bem e é determinada.
Tudo isso esse admirável gênero herda
e não tem culpa nem pode ser culpado
desse mundo transformar-se numa merda

quinta-feira, setembro 27, 2001



Gostosa, balsâmica e necessária

Parida naquelas bandas da Grécia pela mitologia de lá, e espalhada pelo mundo pela compulsão fantasiosa e sincrética de navegadores e pescadores, a sereia incendiou a imaginação do povão masculino, virou uma quase-verdade e assumiu formas variadas, mas sempre derivadas da mulher. Num tratado de Histoire Naturelle publicado na França, no século 17, era descrita assim:

(...) Entre os moluscos há um peixe com rosto e seios de mulher, do tamanho de um novilho, cuja carne tem gosto de vaca. Dizem que seus dentes são um bom remédio para disenteria.(...)

Como se sabe, naqueles tempos a mulher tinha uma condição precária e passiva diante do macharal, que pra mim, de forma consciente ou subliminarmente, queria mesmo era dizer que a mulher além de ter sabor faz um bem danado ( pro corpo e pra alma também).


quarta-feira, setembro 26, 2001



Na dança

Pode ser mais uma asneira, mas não se consegue, é o que penso, disfarçar uma esquivança, nem remorso nem rancor ou qualquer outro tormento, inclusive seus reversos, porque sentimento é coisa difícil de controlar e tudo isso ta é solto e liberto no absconso do quengo que é lugar que ninguém pisa.

Daí que já desisti faz é tempo de segurar meus desejos, encurralar as paixões pra limitar o amor, pois toda vez que tentei me dei mal e me lasquei e por pouco o coitado do tal do ego não resultou avariado de tanto levar traulitada. E pra preservar quase intacta a dita sanidade mental desconsidero os controles do botão da regulagem pros sentimentos fluírem.

Pensando bem, de um jeito ou de outro a gente termina mesmo é implodindo pela ação que vem de dentro. Pois é.


sexta-feira, setembro 21, 2001



Cura

Vira e mexe me pergunto, mas nunca sei responder, se pessoas escaldadas por desenganos sofridos ou outros padecimentos no amor e cercanias são capazes de zerar e sempre recomeçar baixando a guarda e as defesas, encarando novo par sem essa de um pé na frente e outro ali mais atrás.

Tô propenso a acreditar, embora não convencido, que corações magoados tendem mais pra retração e preferem navegar num grande mar de amargura, e não sei porque diabos não deixam de navegar, e isso vale pro meu que vez por outra embarca nessa também. Aí as criaturas por via das desventuras seguem lambendo o amargo que destrói o paladar em parte ou por inteiro pelo uso demorado, e ainda contamina o restante dos sentidos. Embota a vista, retesa a carne e amolece os ossos num insalubre processo que transforma lentamente gente em invertebrado.

No meu caso já tô dando uns piparotes no meu juízo pra ver se ele toma jeito e me apruma os rumos e me põe na rota dela, sem escudos ou seqüelas.


quinta-feira, setembro 20, 2001



Estratégia fuleira

Certos dias são tão densos, tão cheios de revertérios que até o tempo se engasga, parece que não avança, e qualquer nada extrapola assim como se fosse tudo, e tudo que se tenta agoniza e degringola como se fosse um nada.

De quando em quando um desses aí me pinta atravessado. E quando o danado termina é como se findasse uma batalha, um combate que me deixa além de combalido, meio amuado e sem saco. Meu sentimento é que pra enfrentar esses tais é preciso mais que destreza mental. A gente carece além de preparo físico ter outras habilidades. Daí que tô pensando em me tornar saltimbanco, desses que engolem giletes junto com cacos de vidro, se deitam em camas de prego, se contorcem e cospem fogo.

O resultado final pode até ser pífio, e certamente será, mas em contrapartida a gente entorta a rotina desses tais dias sacais.


quarta-feira, setembro 19, 2001



Sanguessugas na parada

Parece que tudo no mundo funciona que nem gangorra, ora sobe depois volta e retrocede de novo num vai-e-vem sem compasso. Isso na vida, nas ciências e em tudo mais. Pois tava lendo que ali pelo mundo dito mais civilizado e cheio das tecnologias, ali na Alemanha, o povo das medicinas tá fazendo uma experiência inusitada: usando a velha e escrota sanguessuga, aquela que nossos bisavós já usavam pra sangrar os infermos e afinar o sangue. Pois sim, essas. As bichas tão sendo utilizadas lá pra ajudar a tratar as dores crônicas causadas pela tal da osteoartrite, é. E tá dando legal. É o que diz essse trabalho: Effect of leeches therapy (Hirudo medicinalis) in painful osteoarthritis of the knee: a pilot study, publicado nessa revista aí: Annals of Rheumatic Diseases.

Agora é preciso ficar atento porque tem sanguessuga de todo tipo e qualidade, e tem umas que além de sugarem o sangue também sugam a vida do povo.


terça-feira, setembro 18, 2001



Da origem das coisas

Nesse embate constante entre o determinismo e o destino, esse que mói e tritura todo dia as poucas certezas da gente, só escapa com um pouco de sanidade quem se manda e escapole pelas brechas traiçoeiras dessas duas engrenagens que vivem se atritando, onde uma afirma e diz que tudo já tá escrito e a outra logo responde que a escrita depende mesmo é do punho de quem escreve.

Minhas dúvidas se ampliam cada vez que penso nelas, pois se uma doutrina é pauleira a outra é puro pau, e cada fato concreto acrescenta nesse fato duas pitadas de cada complicando mais ainda esse babado todo e deixando todas duas como se fossem uma só. Parece até simbiose, mas na verdade não é, e quem se atreve a destrinchar os caminhos sinuosos do que determina ou destina termina é ficando lelé.

Daí qualquer coisa que na minha vida pinte, seja um desencontro ou amor ou outro evento qualquer apenas curto ou não, se for boa agradeço ao destino e ao determinismo também, e se for ruim eu esculhambo com os dois. Convicção é isso!


sábado, setembro 15, 2001



Mais que um laço

Não tem data
pra se desatar
o nó que nos ata

quinta-feira, setembro 13, 2001



Dilemas

Todo dilema azucrina pela pressão da escolha. Parece até que a sina de cada vivente humano é digerir todo dia uma porção de dilemas. Tem os grandes e os menores, os que parecem e não são, tem os simples e os enredados que mais parecem novelos de fios finos intricados. Mas todos carecem de ser desfiados ou então a vida empaca por falta de decisão.

Os mais cruéis sempre pintam é na zona ali das querenças, essa da paixão ou do amor, porque é sempre um e mais outra criatura, coisa de par ou parelha, e a escolha pode magoar ou ferir. E aí tem gente que deglute e não consegue digerir, e o bicho então fermenta e incha, fica maior do que era e deixa de ser dilema para virar paranóia ou então assombração, duas primas bem próximas daquela tal da doidice.

Tento papar os meus sempre que me aparecem, mas vez em quando um me engasga e fica parado no meio numa hesitação danada e só se resolve (tem uns que nem se resolvem) aos trancos, meio torto, de trivela, como acontece com quase todas as gentes desse nosso doido mundo. Dilema é um nó danado, e por isso me pergunto: será que sou um dilema no quengo daquela moça?



quarta-feira, setembro 12, 2001



Zás!

Tudo zune, tudo chispa, tudo trava.
O mar se queima e o ar se molha,
a terra ruge e depois ronca e rosna
e provoca maremoto susto e agonia.
A carne treme, a cama some, o sono zarpa,
o corpo bóia, o sonho finda, a vida pifa.


terça-feira, setembro 11, 2001



Fúria desumana

Bateu, tiniu, pipocou... O ódio é o bicho e só a raça humana tem. Trágica raça.

domingo, setembro 09, 2001



Alfa

Nunca acreditei muito nessas propostas mirabolantes do autocontrole absoluto e tal. Essas de hibernar dentro de si mesmo, de submeter a mente ao controle dela mesma e domar o pensamento como se doma um cavalo. Esses controles alfas e outros que tais. Mas meu propósito nesse feriado comprido era dar uma desligada do mundo e de mim, alfar em beta ou betar em alfa, sei lá. Queria descansar, pra desanuviar umas idéias e regular as obsessões. Me mandei sozinho prum hotel fazenda pra buscar tranqüilidade na paz dos matos e relaxar desligado desse mundão doido.

O resultado foi duplamente desastroso: cientificamente mixo e cansativo na prática. E constato como um mané que sou, o que se sabe há trilênios: corpo e mente são um bloco só. Ou descansam os dois ao mesmo tempo ou vão ambos pro beleléu.

O povo que vai se hospedar nesses cantos pretensamente calmos não consegue se acalmar. As pessoas acordam antes dos bichos, ficam excitadas com a paisagem, parece, e não conseguem dormir cedo. Um pandemônio. Pra agravar mais ainda o fuzuê eu não conseguia segurar meus pensamentos que ficavam girando pelos pontos cardeais todos, mas nunca ficava ali junto de mim, só apontava pra longe, porque é longe que ela tá. Voltei um dia antes do combinado. Ontem de noite. Agora tô cá nesse meu ambiente barulhento, cheio das tecnologias e dos ruídos esquisitos conseqüentes. Relaxei um pouco. Tô quase em alfa, mas os miolos continuam fervendo.Tem jeito não.


quinta-feira, setembro 06, 2001



Aflição

Me atiça e some
tripudia e cala
e me deixa com fome.


Tísicos

Aprecio esse povo que faz poesia, mas nunca quis ser um. E se fosse, seria provavelmente um romântico comedido, já que os estabanados morrem antes. Ou morriam. (Isso no século 19 e início do 20, segundo minha estatística pessoal).

Nas minhas ânsias juvenis lia sobre as vidas atormentadas de uns e as fragilidades de outros. E talvez resida aí o meu receio em poetar desde cedo, pois os bichos, esses desconsolados pelos desdéns das musas perdiam a noção do que era demasia e viviam como se fossem poemas ambulantes, tristes pelos cantos e embriagados nas madrugadas sucumbiam desvairados, quase todos tísicos, golfando sangue nas hemoptises.

Quem tinha grana e sentia paura da morte na hora do pega-pra-capar se mandava pra Suíça pra escapulir do fim melancólico, pois o remédio indicado pra essa enfermidade naqueles tempos era a mudança de ares e clima. É o que fizeram aqueles dois tísicos que eu gosto: Manuel Bandeira e Paul Eluard. Se conheceram num sanatório naquelas bandas de lá e se influenciaram mutuamente. O primeiro viveu foi muito, o outro que foi casado com aquela Gala que depois se casou com Dalí, aquele do bigode teso e impostor talentoso, manteve o triângulo amoroso e pifou mais cedo. Grandes poetas. Taí um e outro:

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação


Nous Deux

Nous deux nous tenant par la main
Nous nous croyons partout chez nous
Sous l'arbre doux sous le ciel noir
Sous tous les toits au coin du feu
Dan la rue vide en plein soleil
Auprès des sages et des fous
Parmi les enfants et les grands
L'amour n'a rien de mystérieux
Nous sommes l'évidence même
Les amoureux se croient chez nous.



quarta-feira, setembro 05, 2001



Além da demarcação

Nenhuma barreira, limite ou linha
de qualquer cor ou mesmo incolor,
inexistente ou real ou seja o que for
será capaz de barrar ou conter
os impulsos incontidos do amor.

terça-feira, setembro 04, 2001



Ela amava


Aquela Violeta, do Chile, a Parra, era uma mulher daquelas. Dessas que amam, proclamam e cantam. E pintava e bordava e compunha e cantava, e deixou sua marca nas telas, nas cerâmicas de barro queimado, nos tapetes que urdia e nos corações latinos onde gravava suas poesias musicadas pra sempre.

E amava tanto, e sublimou tantas paixões que explodiram em melancolia pura. E isso perturbou o curso da sua vida. E ela deu cabo dela em 1967, num suicídio ainda hoje misterioso, porque paradoxalmente ela cantava a vida. Hoje ouvi, taí uma:

Gracias a la vida

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes, al hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado el cielo, que en todo su ancho
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro,
madre, amigo, hermano, y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado la marcha de mis pies cansados,
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me dio el corazón que agita su mano,
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto,
y el canto de todos que es mi propio canto.



segunda-feira, setembro 03, 2001




Dragões



Tinhoso e medonho, esse bicho era o bicho. Difícil de domar por falta de domadores, poucos deles foram domesticados. Há quem diga que nunca existiram, mas há registros orais que insinuam que os tais atanazaram umas quantas regiões do mundo e pessoas.

Nas bandas do oriente tem um monte de povo antigo, e ouvi lá da boca de um descendente direto de um domador dessas serpentes, que elas não eram diferentes das gentes, assim nas artimanhas e malícias, nas artes de enganar. Expeliam fogo pelas narinas e boca, mas o perigo tava mesmo era nas garras ( pois o fogo a água cura e as garras são mortais).

Consta que todo dragão era múltiplo, era mais que apenas um, e pra reverter ferocidade em amor, por via da confiança, era preciso destreza pra identificar num relance, qual era o um de verdade, pois somente o verdadeiro não se ocupava da tarefa de engodar. Daí pra frente a convivência seguia sem dissimulação da parte de cada qual, pois é ela que destrói qualquer barato nesse trem da amizade. Pelo o ouvido, o mundo ainda tá cheio de dragões.


domingo, setembro 02, 2001



Peitos e Bundas

Tava aí nas madrugadas vendo numa estação de tv tupiniquim um programa sobre sexo e tal. E parece que o tema recorrente nesses programas, seja aqui ou em qualquer parte, é sempre sobre as tais preferências de uns e de outras. Pras outras perguntam sobre tamanho, pros demais sobre peito e sobre bunda.

Se as perguntas são rasas, as respostas vêm rentes. Uma tédio só. Mas nas estatísticas da noite pintou uma novidade no meio do macharal: peito empatou com bunda, contrariando a tese que aqui neste patropi bunda ganha disparado. Quer dizer, ser calipígia ou peituda nas variadas formas e volumes, inclusive silicônicos, agora tanto faz. Eu cá aprecio as formas naturais e mais suaves, seja pra frente ou pra trás.

A histórias das preferências é antiga. Até o Agostinho, aquele argelino esperto que nasceu ali no ano 354, e que aos 17 vivia na maior concupiscência e já era amancebado, mas depois se tornou santo e doutor da igreja católica, e talvez o mais sábios deles, também entrou nessa milenar pendenga, e se amarrava era nuns peitos e morreu atormentado porque não conseguia esquecer os da mãe e pensava que essa fixação era pecado. Só muito tempo depois o dr. Freud ( que também padecia da mesma atração) deslindou o mistério. Mas a história continua...


sábado, setembro 01, 2001



Tropeços

I

Cada passo que dou abro espaço pra mais dois
e esses dois nunca dou porque ficam pra depois.

II

Mas como acertar o passo
se cada passo que tento
vem alguém e dá um calço?


quinta-feira, agosto 30, 2001



Rege

Se o coração me manda
escrevo dato e assino
seja bobagem ou um desatino.


Seduz

Presumo que aquela moça tem um ímã dentro dela, ou talvez em seu entorno, que me atrai e me puxa, e me incita e excita, parece até que é mandinga.

terça-feira, agosto 28, 2001



Nó no tempo

Nada no mundo é perene e parece que tudo aqui é mutante. A ciência engole a ciência e revisiona os conceitos dessa natureza tonta, e as leis que vigiam ontem hoje já não vigem tanto e vão se reconfigurando conforme a dança do tempo. Quem tá propalando isso é o povo das ciências. As observações mais recentes indicam que o mundo tá é ficando gagá e certos enunciados tidos quase como eternos foram todos pras cucuias e mais além.

Daí é preciso tá atento pra não fundir os miolos porque nem tudo que você vê, é na verdade o que é, e nem tudo que brilha reluz, nem todo sonho é sonho, nem tudo que é surreal inexiste, nem toda fome é fome e pode ser até fastio. Nem tudo que se come é comida ou pasto como pensava o outro lá, nem tudo que se engole desce, porque tem o regurgito que fica no vai-e-vem ali da boca para o gogó. Nem tudo que se nega é verdade, e tudo que é verdade pode não ser verdadeiro. O absoluto não há, nem o relativo convence. O sólido pode ser só fumaça e pode ser que nem a fumaça exista. E isso não tem fim, é como aquela do avesso do avesso e que sempre tem mais um.

E como o tempo aqui é curto, melhor faz quem o gasta amando, porque assim ele não passa, e se passar, a gente faz de conta que nem viu.


segunda-feira, agosto 27, 2001



Sabor

Se é assim, que assim seja.
Então me morda e me sorva
como quem sorve ou morde
morango, amora ou cereja



quinta-feira, agosto 23, 2001



Corações perversos

Toda paixão me ferra a alma num alvoroço fodido. E segue seu curso e se instala nos amplos limites do amor, e vai me acalmando um pouco. Mas quando a dúvida chega e pinta, seja na banda de cá ou na outra que tá lá, e tudo ameaça se dissipar que nem nuvens no verão, começa tudo de novo e o coração se sobressalta e resfolega e se agita provocando sofrimento.

E cada momento desse é um tranco, e cada tranco desse encaliça mais um pouco os sentimentos da gente como se fosse um escudo. E os desencontros acabam por engendrar uma estranha serventia, essa armadura potente de autopreservação pra resguardar a gente dos perversos corações que pululam por aí, em tudo que é lugar.


quarta-feira, agosto 22, 2001



Valentin, o desossado flatulento do Moulin Rouge


Moulin Rouge já foi tema de bons filmes porque era um ambiente rico de personagens interessantes. Agora tem esse aí de um australiano, o Baz Luhrmann com a Nicole Kidman. Não sei se é bom, mas sei que as criaturas que circulavam por aquele cabaré no final do século 19 e início do 20 eram realmente marcantes, com vidas atribuladas. Desde os artistas como Toulouse Lautrec até as dançarinas La Goulue, Jane Avril e outras, mais o resto do povo todo.

Mas pra mim, o personagem mais estranho e misterioso dali era Jacques Renaudin, o Valentin le Desossé, essse que aparece com sua silhueta neste pôster do Toulouse junto com La goulue. Ninguém sabia onde ele morava exatamente, nem o que fazia. Mas de noite se esbaldava no Moulin, dava o show dançando e fazendo acrobacias. Uma grande atração lá. O bicho tinha o nariz aquilino, meio quebrado, um queixo saliente de queixada, dançava pra caramba e tinha os quadris soltos, que nem Ney Matogrosso.

E quando terminava o show, as pessoas iam embora e ficavam só os boêmios inveterados, os mais íntimos da casa como Toulouse, bebendo absinto e se divertindo com com o mulherio. Ai Valentin dava mais um show, e fazia do seu bucho um fole, enchia de ventosidade flatulenta e tocava, pelo furico, com peidos afinadíssimos e cadenciados toda a marselhesa. Era um sucesso. Grande Valentin.



terça-feira, agosto 21, 2001



O povo underground tem história



Pra mim, é na fricção do confronto da transgressão com o conformismo que a história avança. E assim nos costumes é mais evidente, e cada época sempre teve lá seu povo underground. Esse que faz o contraponto da norma, se rebelando pra quebrar as arestas dela.

No século XIII, em em mil duzentos e cacetadas, os goliardos eram esses tais ali pela Europa. E essa raça aí era composta por religiosos ou estudantes universitários que cheios do tédio se mandavam das escolas, abadias ou conventos, e iam pra gandaia se empanturrar de sexo, vinho e música (não muito diferente de hoje com essa de sexo, drogas e rock, né?) pelas tabernas de então, vivendo às custas das putas, dos freqüentadores embriagados e dos admiradores da sacanagem em geral. Era uma raça errante.

Pois foi esse povo aí que escreveu os poemas (em latim e alemão) que foram encontrados na abadia de Benediktbeuern, na Bavária, em 1803, e que Carl Orff musicou, e virou a ópera Carmina Burana (Poemas de Beuern). Tava ouvindo um trechinho aqui e parecem inocentes hoje. Mas naquele tempo em que a igreja tentava travar a libido ( que mesmo assim explodia), era um chute no saco dos conservadores.

Tem versos louvando a bebida, a natureza e o sexo, como esses:

Amor volat undique,
captus est libidine.
Iuvenes, iuvencule
coniunguntur merito.

Siqua sine socio,
caret omni gaudio;
tenet noctis infima
sub intimo
cordis in custodia:
fit res amarissima.

O Amor voa por toda parte,
capturado pela libido.
Rapazes e moças
se juntam corretamente.

A garota sem um parceiro
perde toda a alegria;
tem a noite escura
presa no íntimo
de seu coração:
quanta amargura!



domingo, agosto 19, 2001



Exilado

Todo exílio, seja voluntário ou imposto, é um desterro que marca. Mas o degredo de si mesmo é o mais cruel que há porque as marcas ficam estampadas em várias partes do corpo e nas profundezas da alma.

Pois é, tem dia que eu também me sinto assim, como se tivesse me banido de mim.


quarta-feira, agosto 15, 2001



Singrando

Este é o meu país, e cá o mar não se acalma, e ainda tem excesso de azul no seu céu.




Invertebradas criaturas

Mesmo sendo meio despirocada a natureza tenta equipar os homens e os outros bichos com os mesmos ou parecidos apetrechos. Assim, se as gentes são dotadas dos sentidos, aqueles cinco que as ciências atestam (penso eu que são mais), e desfrutam se lambuzando com o gosto gostoso das coisas, se arrepiam nos mais suaves e leves toques táteis, se alertam com as fragrâncias dos cheiros cheirosos, se extasiam espiando as belezas espalhadas por aí e se deleitam com a harmonia dos sons, os bichos pequenos, os ditos inferiores, aqueles que tão ali no começo da escala da vida, também são contemplados com isso. E nos invertebrados insetos parece que a coisa é mais ou menos assim:

Paladar

Nas lagartas, borboletas e outras iguais, mais que prazer gastronômico, o paladar pra elas funciona é como sobrevivência. Elas são é o paladar dos outros, dos predadores, geralmente aves, e pra ficarem intragáveis se alimentam com substâncias tóxicas que só elas conseguem comer, e ficam com um gosto desgraçado de ruim que ninguém se atreve a bicar. E assim vão preservando a espécie. Tem delas que ficam tão amargosas que afastam até semelhantes da mesma espécie.

Tato

Nos invertebrados em geral, os receptores táteis são assim que nem filamentos, pêlos ou saliências sensíveis ao atrito, contato ou à pressão. O contato tem que ser suave e não resistem muito à pressão, se apertar um pouco mais, eles ploft...

Olfato

Tem função fundamental no acasalamento, e o feromônio é o tal e é quem manda e estimula as trepadas. Pode ser sentido a quilômetros de distância. E nos insetos os receptáculos olfativos ficam ali pelas antenas, que têm lá uns poros minúsculos e é através deles que as ramificações das células sensoriais entram em contato com o ar. Quando o ar fica impregnado de outros cheiros estranhos ao meio, os bichos costumam perder o rumo. Fora do cheiro dos grupos deles se desnorteiam

Visão

Os insetos têm olhos variados, desde o ocelo até olhos compostos, um monte deles. Mas creio que isso não é muito bom porque cada olho capta só uma fração da coisa e quando junta tudo dá uma noção fragmentada, não muito precisa, assim como quem sofre de astigmatismo. Nunca vê o semelhante como ele é, se assusta com o igual e perde umas oportunidades. Buscam formosura e não conseguem enxergar. Agora pra ver predador é dez, por isso que eles se picam rápido quando pinta um.

Audição

Aqui a natureza não conseguiu fazer muita coisa, parece. Poucos invertebrados têm sistemas auditivos, e os que têm é uma lástima, são precários. Servem mesmo, segundo quem se dedica a estudar isso, é pro equilíbrio, pra evitar aí uma labirintite e tal. De qualquer forma essa quase ausência tem uma serventia: evita que os coitados sejam bombardeados por certos sons musicais que azucrinam muitos ouvidos por aí.

Pensando bem, e mal comparando, têm lá umas similitudes com as gentes supostamente superiores, né não?


terça-feira, agosto 14, 2001



Reverso

Por tudo e nada o que me falta agora é um desvelo, e o som da voz também ainda guardo aqui neste meu degredo, e um olhar me mira perdido e fixo de dentro desse retrato quase roto e diminuto, e provoca em mim uma desolação forte e passageira, e aí eu já não sei e nem tampouco distingo o que de fato acontece, e me pergunto se entre mim e ela é só a distância que separa ou é o tempo, com suas dobras, que desnivela.




     Ave vulva e tudo

Venus 4 from Roc-aux-Sociers, Upper Paleolithic ca 14 000 BP

É na vulva, ali nas delícias dos tais lábios
que o macho viril se queda e é dominado
seja ele um mortal comum ou seja sábio.
É onde começa  esse fosso bocetal
e o homem diante desse morno e úmido orifício,
desse canal misterioso, se rende fascinado,
porque além de provocar prazer e muito gozo
é também caminho natural para o ovário
que é onde a mulher fecunda e elabora
outros seres com iguais propriedades.
É porta de entrada pra germinação da vida
e é por lá que toda nova vida também sai.


segunda-feira, agosto 13, 2001



"Eppur, si muove!"


É, sucede que o mundo gira, e em cada giro que dá um monte de coisa muda, e é por isso que é bom, pois se tudo fosse parado e as coisas sempre iguais seria uma merda este mundo.

Daí se ontem uma coisa assim era, hoje já não é igual ao que foi, e amanhã do mesmo jeito segue nessa mutação. Vale pra tudo, e até pros sentimentos, e o amor que tenho agora, se bobear, daqui a pouco já era, e logo depois pode ser outro. E isso não tem nada de volúvel, é só a dinâmica das necessidades das humanas e mutáveis criaturas. E viva a vida, porque ela se acaba é ligeiro e logo.


domingo, agosto 12, 2001



Emasculando ninguéns

Na mídia, toda notícia, seja ela boa ou ruim, traz sempre um malícia embutida. E a tétrica notícia do jornal informava que ali morreu mais um, e o corpo que jazia estendido naquele chão devia ser de um jovem de não mais de 20 anos, que além das várias escoriações também havia sido castrado. E perguntava o porquê.

E essa pergunta me remeteu a um castrado famoso que viveu lá pela França há 800 anos passados, o Pierre Abélard, aquele Abelardo, o grande amor de Heloísa. O da história real de amor de Abelardo e Heloísa. Teria sido o motivo parecido? Uma intolerância igual aquela?

Abelardo era um moço brilhante, que transitava garboso pela elite intelectual da Europa, e aos 22 anos já era guru de muita gente daqueles países lá, tinha uma escola de filosofia e refundou os conceitos da dialética. Heloísa tinha só 17, se interessava pelas coisas do saber, e era atraente demais. Foi estudar com ele por ordem do tio dela, cônego Fulbert, e não deu outra: paixão doida e muito amasso e sacanagem. Se lambuzavam de amor, numa trepação que resultou em gravidez. E por causa disso esse Fulbert aí mandou cortar a cru os possuídos de Abelardo, que assim mutilado e desapetrechado de suas bolas viris virou abade. Heloísa foi ser freira e trocaram cartas de amor até ele morrer ao 63 anos. Bela, verídica e trágica história de amor que inspirou tantas outras famosas de amores impossíveis.

O moço que morreu anônimo e capado talvez não se interessasse pelas coisas do espírito como Abelardo, mas será que houve uma história de amor por trás dessa castração? Como ele era pobre, desprovido da grana e da fama, não circulava nos circuito culturais, provavelmente nunca se saberá se foi vingança passional, queima de arquivo, ou só a desova corriqueira de um "presunto". E dessa vez com mais requinte.



sábado, agosto 11, 2001



Xô, anjo chocho

Tenho muito receio de anjos. Não desses celestiais, de cabelos sempre iguais e asas de muitas plumas, porque esses, modelo barroco ou gótico, me parece nem existem. Meu temor é dos pretensos, é do tal do anjo torto, do fajuto, da criatura humana que incorpora essa vontade e pensa logo que é um. Essa é perigosa, e como assim se considera, inventa seu próprio código, como se dos anjos fosse, e se dana a fazer estragos, dizendo que é o contrário. Em vez de código, isso é arma defensiva e morna que ela sempre dispara por frustração ou vingança, e nesse ofício fictício só destrói

Meu sentimento é quer tem um anjo fuleiragem desses aí dando uns calços em mim, solapando, pelo lado de lá, emprenhando pelos olhos ou pelos poros, tentando dar cabo de uma sólida querença que nascia e que eu queria que fosse muito mais que isso só. Queria e quero.



quinta-feira, agosto 09, 2001



Pulsão de tudo

É ali, no âmago de cada um, onde a pulsão da vida irrompe, o lugar em que as coisas do amor e das demais se encontram e se resolvem, por via das harmonias da gente com a gente mesmo, ou então se dissolvem pelo viés dos conflitos que azucrinam o juízo de todo mundo que o tem. E nessa altercação os sentimentos balançam, e se o que tá em jogo é o amor, enquanto ele, o amor, não se manda, nada apazigua e tudo se exaspera.

É bem capaz de ser por isso que em mim agora se constata uma exacerbação desse sentimento, na forma de desejo e sem pudor, que me deixa mais sensível do que antes.


quarta-feira, agosto 08, 2001



O fuzuê da clonagem

A cambada da clonagem botou o berro no mundo, dizendo que vai clonar gentes recrutando quem quiser se habilitar, e iniciou mais uma pendenga cheia de lero e lenga, uma dessas já manjadas entre a ciência e a ética e também religião, e que sempre resultou no triunfo da primeira. Não tem barreira que barre, nem nunca vai ter fronteira pra limitar essa sede das criaturas humanas de ir além, de entender, de inventar e criar, produzindo quase sempre um avanço conseqüente pra essa estupefata humanidade. Quase sempre, porque sendo que nem faca de dois gumes, cada qual mais afiado, o conhecimento gerado tanto salva como mata.

Mas começou a gincana, daqui pra frente vai ser uma correria pra ver quem chega primeiro com um clonado na mão pra mostrar o seu troféu. Pode dar certo ou não. Se der certo vai mudar tantos conceitos e costumes que a maioria do povo que vive agora decerto vai é pirar. E eu cá só quero ver é o fuzuê que isso vai detonar.



terça-feira, agosto 07, 2001



Reciclando o juízo

Tô querendo dar um trato nos meus confusos miolos, pra ver se eles cobertos com capas de indiferenças não deixem que eu me ligue, nem tampouco me apegue, assim de primeira e tão rápido, a outras desatentas criaturas, e me preservem também das previsíveis angústias que a frieza provoca.

E assim com esse escudo, pode ser que eu me proteja, e não mais use com afinco essa desusada arte de cultivar um querer.

segunda-feira, agosto 06, 2001



Fêmeas

Admiro esse paciente povo que se dedica a xeretar a vida e o comportamento do chamados animais sociais, esses que estão uma escala abaixo de nós, os ditos selvagens, pelo o saco que tem de observar, dia após dia, a rotina dos inquietos e imprevisíveis bichos e pelas curiosas descobertas que faz. Como se sabe, eles praticam a sociobiologia que é um sub-ramo da própria. Não sei muito bem qual a utilidade disso, mas considero interessantes os resultados dessas observações.

Descobriram ali, naquelas intermináveis horas de acompanhamento que as mamíferas fêmeas desse mundo irracional, em geral são assim: agressivas e belicosas nas atividades cotidianas e corriqueiras como caçar e proteger o bando. Mas são dóceis e receptivas a um parceiro específico no momento da reprodução, e aos filhotes durante a amamentação. Também quase sempre cabe a elas a escolha do companheiro, e buscam sempre que possível um único, que precisa reunir algumas qualidades para gerar e manter suas crias, além de provar que dá no couro e que é digno de sua atenção e confiança.(Minha dúvida é se pinta amor nesse chamego, e se elas acertam mesmo nessas escolhas).

E tem mais. Por terem certeza da origem de sua prole, o que não ocorre como os atormentados machos, são um recurso de altíssimo valor, a ser conquistado e preservado.

Nesses aspectos, e tirante umas exceções, parece que aquele mundo das espécies selvagens de lá não tá muito distante desse mundo da nossa espécie domesticada de cá.


sábado, agosto 04, 2001



Centrípeta e centrífuga

No mundo só há duas forças, e mais que essas não tem. E são elas que regulam as coisas da vida e tudo. Se uma segura e puxa, a outra empurra e expulsa, e na refrega das duas quem não agüenta se lasca, sai moído e se arrebenta.



Suplícios

O desejo não se doma, pensamento também não. A história do homem tá repleta de tentativas frustradas de subjugar as vontades, seja pelo método suave da doutrinação, ou pela via infame da truculência pauleira. Parece que foi mesmo na idade média onde o desejo humano foi mais reprimido, pois foi naquele tempo lá que os odiosos instrumentos de tortura física foram mais utilizados pra penalizar com terríveis mutilações quem ousasse contrariar, publicamente, as regras dos desejos bitolados pelos costumes.

E o desejo dito lascivo foi um dos mais perseguidos. Os homens viviam se engalfinhando em guerras idiotas, em busca de mais poder, deixavam as mulheres sozinhas, mas tinham um medo danado de se tornarem cornos, porque a rapaziada imberbe e vigorosa não ia pra guerra e ficava ali rondando o mulherio que por sua vez tava naquela abstinência forçada. Aí surgiu a infeliz idéia do cinto de castidade ( devia ser desconfortável pra caramba), que se por um lado diminuiu a relação sexual com penetração, por outro desenvolveu no povo as artes das bolinações.

Lembrei dessas coisas aí por conta das notícias do Afeganistão, daquele povo Taliban, mulçumano radical, que com idéias obscuras tenta reviver a face mais cruel da idade média, e eliminar o desejo das pessoas, principalmente das mulheres, impondo costumes medievais, e proibições absurdas como essa de impedir que as meninas continuem a estudar depois dos oito anos de idade, com a intenção deliberada de deixá-las na mais completa ignorância.

Os suplícios da idade média já passaram, esses também certamente passarão, porque não se encurrala a liberdade pra sempre, e nem se consegue segurar o desejo das gentes por tempo indeterminado.


quarta-feira, agosto 01, 2001



Movediços corações

Tô duvidoso das coisas. Das que parecem perenes e também das outras todas.Tudo parece boiar entre a firmeza e a inconstância, e ora é sólido, não balança, logo depois já não é, desanda e desapruma e desaparece no ar.


terça-feira, julho 31, 2001



O povo quer saber

Todo tempo é tempo de aprender. E nas coisas da fornicação são tantas as nuanças, e tantos os mistérios do corpo que o povo novo, esse recém chegado a tal da puberdade, funde os miolos querendo entender umas coisas, dissipar umas dúvidas cruéis, e se sentir seguro assim pra se esbaldar prazerosamente na lambança carnal. E nessa avidez tascam perguntas pra todo lado.

E de todo lado pipocam respostas, generalizadas ou não, baseadas em experiências pessoais ou dos outros, e invariavelmente com um toque de sapiência, que só os mestres nas coisas imaginam que têm. E assim, meio tonta, cheia das teorias e zerada na prática, a meninada se lança nas artes da sacanagem do vuco-vuco.

Parece que é assim aqui, ali e também em Portugal, onde tem esse canto aqui (indicado por um jornal de lá), que pretende tirar as angustiantes incertezas da brava e voraz gente juvenil. Tái quatro copiadas de lá: a do pau torto, cabaço e tampão, gozo feminino e a da língua buliçosa:

Pergunta: Curvatura do Pénis

É normal existir uma certa curvatura no pénis, certo? Mas até que ponto essa curvatura é normal?

Resposta

Considera-se anormal se prejudicar as relações sexuais (no próprio ou na parceira). Normalmente isso acontece se essa curvatura for maior de 45 graus ou se acontecer "repentinamente" como se o pénis estivesse partido num local preciso. Se isso acontecer, deve ser consultado um urologista

Pergunta: Virgindade

O uso de tampão por uma rapariga virgem provoca a perda da virgindade?

Resposta:

Normalmente o hímen tem espaço mais do que suficiente para deixar ser introduzido o tampão, que é bastante fino. Só em situações muito pouco frequentes é que o hímen é muito oclusivo e poderá ser parcialmente rasgado ao ser colocado o tampão.

De qualquer modo, embora o conceito de integridade do hímen seja importante para muitas pessoas, a perda de virgindade só existe quando se dá a penetração vaginal pelo pénis. Pode haver muitas situações em que se rompa o hímen sem que tenha havido qualquer penetração, sendo portanto essa rapariga virgem.

Pergunta: O que é orgasmo feminino?

Resposta:

É o momento de maior prazer atingido devido ao estímulo sexual. Pode ser provocado por cópula normal, sexo oral, masturbação, etc.

No homem coincide com a ejaculação, embora raramente possam haver homens em que essa ejaculação se dê para dentro da bexiga e não para fora (ejaculação retrógrada).

Na mulher, é mais difícil de objectivar uma vez que não ejaculam. Por vezes pode dar-se a saída de algum líquido mas não se trata de ejaculação. É normalmente líquido lubrificante que se vai acumulando na vagina e que sai com as contracções ou ao mudar de posição. Existem mulheres que ficam extremamente agitadas e descontroladas quando atingem essa fase, mas isso não é obrigatório.

Muita gente pensa que só existe orgasmo feminino se houver os espasmos e gritos mais ou menos aparatosos que vemos nos filmes e novelas. Mas lembre-se que essas imagens são só para o espectador perceber o que está a acontecer... Na vida real acontecem muitos orgasmos femininos intensos e discretos bem como muitos falsos e espectaculares

Pergunta: Sexo oral

Eu queria saber se quando se faz sexo oral a um rapaz é suposto fazê-lo até ele atingir o orgasmo ou se se pode parar e continuar com o sexo normal.

Resposta

Não há regras para essas coisas. Ambas as situações são usadas, tudo dependendo do prazer que AMBOS tirarem do acto. Se isso lhe causar problemas ou repugnância, não deve forçar, e fale abertamente com o seu namorado.


Pois é, pelas perguntas dá pra perceber que a inocência ainda campeia pelo mundo. E com as respostas, aprendeu?


domingo, julho 29, 2001



Audaz assim

E se não for assim de toda audaz
(como nos épicos tempos se diria)
que busque ao menos em sua cara
a sua própria e indivisível cara
e a partir disso assim seja capaz
de encarar torpor, dor ou mazela
e também o contrário desses danos
como coisas que a vida inventa ou gera
e aprenda a digerir sem gula ou pressa
em goles, em lambidas ou dentadas
pedaço por pedaço desses paradoxos
sejam eles crus, cozidos ou requentados.



sexta-feira, julho 27, 2001



Fastio dos gênios

Tava vendo cá um documentário sobre as vidas de uns ditos gênios do pensamento dessa nossa estropiada humanidade. Os bichos, via de regra, eram agoniados e angustiados. Mas uma coisa me chamou a atenção, por ser um traço comum em quase todos eles: uma certa falta de apetite pelo sexo. Fastio esquisito. Um esculhambava as mulheres, outro transava mal pra caramba, e embora jovem dava umas broxadas e só pensava numa mulher por quem era apaixonado e que não lhe dava bola, e um lá que se manteve casto e morreu virgem, e mais outros com dilemas parecidos e aversão ao chamado intercurso carnal.

É, parece que quando os neurônios passam da conta e transbordam ali em cima, inibem os coitados dos hormônios quebrando o necessário equilíbrio, anulando o tesão lá embaixo. Se esse é o preço, queria ser gênio não.