terça-feira, julho 31, 2001



O povo quer saber

Todo tempo é tempo de aprender. E nas coisas da fornicação são tantas as nuanças, e tantos os mistérios do corpo que o povo novo, esse recém chegado a tal da puberdade, funde os miolos querendo entender umas coisas, dissipar umas dúvidas cruéis, e se sentir seguro assim pra se esbaldar prazerosamente na lambança carnal. E nessa avidez tascam perguntas pra todo lado.

E de todo lado pipocam respostas, generalizadas ou não, baseadas em experiências pessoais ou dos outros, e invariavelmente com um toque de sapiência, que só os mestres nas coisas imaginam que têm. E assim, meio tonta, cheia das teorias e zerada na prática, a meninada se lança nas artes da sacanagem do vuco-vuco.

Parece que é assim aqui, ali e também em Portugal, onde tem esse canto aqui (indicado por um jornal de lá), que pretende tirar as angustiantes incertezas da brava e voraz gente juvenil. Tái quatro copiadas de lá: a do pau torto, cabaço e tampão, gozo feminino e a da língua buliçosa:

Pergunta: Curvatura do Pénis

É normal existir uma certa curvatura no pénis, certo? Mas até que ponto essa curvatura é normal?

Resposta

Considera-se anormal se prejudicar as relações sexuais (no próprio ou na parceira). Normalmente isso acontece se essa curvatura for maior de 45 graus ou se acontecer "repentinamente" como se o pénis estivesse partido num local preciso. Se isso acontecer, deve ser consultado um urologista

Pergunta: Virgindade

O uso de tampão por uma rapariga virgem provoca a perda da virgindade?

Resposta:

Normalmente o hímen tem espaço mais do que suficiente para deixar ser introduzido o tampão, que é bastante fino. Só em situações muito pouco frequentes é que o hímen é muito oclusivo e poderá ser parcialmente rasgado ao ser colocado o tampão.

De qualquer modo, embora o conceito de integridade do hímen seja importante para muitas pessoas, a perda de virgindade só existe quando se dá a penetração vaginal pelo pénis. Pode haver muitas situações em que se rompa o hímen sem que tenha havido qualquer penetração, sendo portanto essa rapariga virgem.

Pergunta: O que é orgasmo feminino?

Resposta:

É o momento de maior prazer atingido devido ao estímulo sexual. Pode ser provocado por cópula normal, sexo oral, masturbação, etc.

No homem coincide com a ejaculação, embora raramente possam haver homens em que essa ejaculação se dê para dentro da bexiga e não para fora (ejaculação retrógrada).

Na mulher, é mais difícil de objectivar uma vez que não ejaculam. Por vezes pode dar-se a saída de algum líquido mas não se trata de ejaculação. É normalmente líquido lubrificante que se vai acumulando na vagina e que sai com as contracções ou ao mudar de posição. Existem mulheres que ficam extremamente agitadas e descontroladas quando atingem essa fase, mas isso não é obrigatório.

Muita gente pensa que só existe orgasmo feminino se houver os espasmos e gritos mais ou menos aparatosos que vemos nos filmes e novelas. Mas lembre-se que essas imagens são só para o espectador perceber o que está a acontecer... Na vida real acontecem muitos orgasmos femininos intensos e discretos bem como muitos falsos e espectaculares

Pergunta: Sexo oral

Eu queria saber se quando se faz sexo oral a um rapaz é suposto fazê-lo até ele atingir o orgasmo ou se se pode parar e continuar com o sexo normal.

Resposta

Não há regras para essas coisas. Ambas as situações são usadas, tudo dependendo do prazer que AMBOS tirarem do acto. Se isso lhe causar problemas ou repugnância, não deve forçar, e fale abertamente com o seu namorado.


Pois é, pelas perguntas dá pra perceber que a inocência ainda campeia pelo mundo. E com as respostas, aprendeu?


domingo, julho 29, 2001



Audaz assim

E se não for assim de toda audaz
(como nos épicos tempos se diria)
que busque ao menos em sua cara
a sua própria e indivisível cara
e a partir disso assim seja capaz
de encarar torpor, dor ou mazela
e também o contrário desses danos
como coisas que a vida inventa ou gera
e aprenda a digerir sem gula ou pressa
em goles, em lambidas ou dentadas
pedaço por pedaço desses paradoxos
sejam eles crus, cozidos ou requentados.



sexta-feira, julho 27, 2001



Fastio dos gênios

Tava vendo cá um documentário sobre as vidas de uns ditos gênios do pensamento dessa nossa estropiada humanidade. Os bichos, via de regra, eram agoniados e angustiados. Mas uma coisa me chamou a atenção, por ser um traço comum em quase todos eles: uma certa falta de apetite pelo sexo. Fastio esquisito. Um esculhambava as mulheres, outro transava mal pra caramba, e embora jovem dava umas broxadas e só pensava numa mulher por quem era apaixonado e que não lhe dava bola, e um lá que se manteve casto e morreu virgem, e mais outros com dilemas parecidos e aversão ao chamado intercurso carnal.

É, parece que quando os neurônios passam da conta e transbordam ali em cima, inibem os coitados dos hormônios quebrando o necessário equilíbrio, anulando o tesão lá embaixo. Se esse é o preço, queria ser gênio não.



No afeto

Aprendi, nas voltas que o tempo dá, que nem toda cuca suporta ou enfrenta, com determinação e destreza, o cotidiano embate entre e a vontade e o desânimo. Aí o desalento que tá sempre rondando na espreita, chega de uma vez e se instala entupindo de incertezas o juízo de cada um desse povo, desse lá que não suporta, triturando bem ligeiro qualquer que seja o desejo. E a pessoa se sente como se fosse somente uma metade de si, e fica ali, torta e tonta, meio forte meio frágil, quase perdida e girando em torno do próprio umbigo, e se entrega truncada, travada no que queria.

Mas, pra mim, ninguém tá livre de cair nessa esparrela, porque além de um nó, isso também é um laço, e pra escapar desse rolo, das armadilhas armadas pelos miolos da gente, eu busco alento é no afeto, pois se a vida já é árida, sem amor ela estorrica.



Fastio dos gênios

Tava vendo cá um documentário sobre as vidas de uns ditos gênios do pensamento dessa nossa estropiada humanidade. Os bichos, via de regra, eram agoniados e angustiados. Mas uma coisa me chamou a atenção, por ser um traço comum em quase todos eles: uma certa falta de apetite pelo sexo. Fastio esquisito. Um esculhambava as mulheres, outro transava mal pra caramba, e embora jovem dava umas broxadas e só pensava numa mulher por quem era apaixonado e que não dava lhe dava bola, e um lá que se manteve casto e morreu virgem, e mais outros com dilemas parecidos e aversão ao chamado intercurso carnal.

É, parece que quando os neurônios passam da conta e transbordam ali em cima, inibem os coitados dos hormônios quebrando o necessário equilíbrio, anulando o tesão lá embaixo. Se esse é o preço, queria ser gênio não.

terça-feira, julho 24, 2001



Delírio

Gostar é bom e boa é embriaguez que disso resulta. Esse desejo que da gente não se aparta, a volúpia descompassada no pensamento e na prática, intumescência espontânea nas ditas pudentas partes. Um pé no chão, outro vagueia no espaço. Mão boba, boca que ri com imaginárias coisas. Olhos que cintilam mesmo com a ausência da imagem de quem se quer ou pretende. Narinas sensíveis a todo cheiro no ar. Ouvidos atentos e quase tudo é musical ou é música. E a pele se arrepia mesmo assim sem se apalpar. Coisas de amor e amar.


domingo, julho 22, 2001


Berro Primal

Nesse mundo aí, esse das das psicoterapias, vez em quando pinta uma novidade que vira moda. Esses novos sistemas de tratamento pra arrumar o juízo do povo ganham logo adeptos. Um que causou certo rebuliço foi aquela teoria do Dr. Arthur Janov, aquela do Grito Primal no início dos anos 70. Tinha uma lógica linear que dizia que os traumas se originavam na frustração das necessidades básicas ali na infância. Fez sucesso. E John Lennon que já era uma celebridade aderiu a ela junto com Yoko e faziam a maior propaganda dela.

O povo gozador dizia que o tratamento era na base do berro. O paciente dava uns gritos tipo aquele que se dá na hora que se sai do útero da mãe, pra ver se assim espantava o medo de enfrentar o mundo, já que o choro inicial não era suficiente. Pura gozação. Essa terapia ainda tem uns seguidores.

Mas me lembrei disso porque tava ouvindo aqui aquela música Mother, do Lennon, aquela que ele termina com uns gritos assim:

Mama Don't Go Whoaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh
Daddy Come Home
Mama Don't Go Whoaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh
Daddy Come Home

Mama Don't Go Whhhhhhooaaaaaaaaaaaaahooooaaaaaahhh
Daddy Come Home


Até eu tive vontade de dar uns berros desses pra ver se enxotava uns pensamentos tolos que me rondaram hoje pela manhã.


quinta-feira, julho 19, 2001



Tranco nos miolos

Gosto dos pomposos nomes que as ciências utilizam pra batizarem as coisas. E córtex órbito-frontal é o belo e composto nome de uma pequena área do nosso miolo responsável pelas tomadas de decisões. É ali, segundo os estudiosos do cérebro humano, onde se processa a interessante batalha entre os impulsos e as hesitações, que antecede a escolha final por qualquer coisa.

Se o vivente tem essa área aprumada, a tendência é tomar decisões que obedecem sempre uma lógica que leva em conta as prioridades eleitas. Mas se essa parte vem avariada de nascença ou se avaria depois, a pessoa vai ter a maior dificuldade de decidir e fica remoendo tudo numa agonia indecisa.

Tem uns dias que penso que nasci desprovido dessa tal área. Pois sim.


quarta-feira, julho 18, 2001


Retrato

Pra todo lado que olho, e por mais que mexa as retinas, não consigo deslocar a imagem retida nelas, refletida pelos traços bem compostos da moça que vi agora e que há muito se escondia por trás de suas palavras.



Mulher não era nada




Esse cara, esse Ramon Llull era maiorquino, viveu ali entre 1232 e 1316, e escreveu mais de duzentas e cinquenta obras em árabe, catalão e latim. Filosofou sobre quase tudo no mundo e criou um sistema unificador de todos os conhecimentos chamado “Arte”. Muito filósofo bambambã mais conhecido hoje em dia que ele se inspirou nele.

O Livro dos Mil Provérbios foi escrito em 1302. É uma salada moralista cujos resquícios ainda se propagam hoje. Na parte dedicada a mulher ele recomendava isso daí embaixo:

1. Ama mais em tua mulher a finalidade do matrimônio que o prazer.
2. Ama mais em tua mulher a bondade que a beleza.
3. Se tomas mulher para ser honrado, com tua mulher não sejas muito íntimo.
4. Não confies em mulher mentirosa.
5. Com a tua fornicação alimentas a fornicação na vontade de tua mulher.
6. Na fornicação está a maior contrariedade que pode existir entre marido e mulher.
7. Sejas casto para que tua mulher seja casta.
8. Com amor sejas íntimo da boa mulher, e com temor da má.
9. Antes alimentes tua mulher com amor que com pavor.
10. Não sejas avaro com tua mulher.
11. Faz com que tua mulher não conheça teus vícios.
12. Não existe tão grande trabalho e vergonha como o da mulher má.
13. Ames mais tua bela mulher em casa que na praça.
14. Ames mais a bondade de tua mulher que a de teu filho.
15. Teus parentes tenham mais poder em tua casa que os de tua mulher.
16. Que os teus costumes sejam mais senhores em tua casa que os costumes de tua mulher.
17. Quem foge do ciúme foge de grande trabalho.
18. Quem freqüentemente tenta sua mulher freqüentemente se arrepende.
19. Diante de tua mulher não fales das circunstâncias da amante.


Esse povo masculino antigo tinha um medo danado das mulheres. Parece até que era um receio premonitório, um temor de que se as mulheres fossem liberadas em seu potencial, seriam capazes de ocupar competentemente, como é fato agora, os espaços destinados somente a eles. Daí espalhavam essas asneiras que ainda em algumas partes vigoram.


terça-feira, julho 17, 2001


As delícias do sopro

Vi ontem na televisão um comercial de uma marca de moto (ou é de carro?) que fala da ligação da gente com o vento, e associa isso com o prazer do sopro feminino assim num ferimento do joelho de um menino pra aliviar a dor do remédio, outra pra tirar um cisco do olho de um cara e por ai vai. Aí me lembrei de uma massagem de sopro, altamente relaxante lá nas bandas do oriente. Mulheres treinadas massageiam certos pontos ao longo do corpo das gentes com sopros quase constantes a uma distância mínima da pele. Elas garantem que não tem finalidade erótica e segue lá os princípios da acupuntura. Mas arrepia e é bastante excitante.

A coisa também já incorpora umas modernidades pra atender aos mais tímidos. Como as salas são coletivas, eles podem se submeter às delícias dessa massagem dispensando o sopro das mulheres, optando por sopros mecânicos gerados em compressores, um suave ar-comprimido controlado. Há quem diga que o efeito é o mesmo. Eu digo que não.

segunda-feira, julho 16, 2001


Ali, no infinito

O infinito de cada humana pessoa, tal qual os outros infinitos, é um lugar onde ninguém nunca chega e nem vai poder chegar, porque ele sempre se expande, por necessidade ou defesa, toda vez que se tá próximo. E o que motiva essa tal dilatação é o receio de que o fim realmente seja o fim. E quem desloca esse ponto, cada vez que nele se periga chegar, é a racionalização danada que pra salvar cada um tá sempre ali, astuciosamente presente.

E talvez seja por causa dessa ação maliciosa e autônoma dos miolos de nós todos que as relações entre pares mais naufragam que navegam.


sexta-feira, julho 13, 2001


O horror

No Quênia a aids já virou calamidade pública. O país tem 30 milhões de almas vivas, e 2,2 milhões estão contaminados pelo vírus exterminador que mata cruelmente 700 pessoas por dia, numa agonia lenta. Com alto índice de analfabetos esse povo tá condenado à morte pela ignorância. Desesperado o presidente de lá Daniel Arap Moi fez um apelo patético à população para que se prive de sexo “pelo menos por dois anos”.

Creio que é um apelo de difícil adesão por várias razões, mas a principal é o instinto carnal da raça humana que é capaz de levar as pessoas, em certas circunstâncias, a arriscarem a vida em troca de uma lambança sexual insegura. Antes se dizia que o povo morria pela boca. Agora também já morre pelo baixo-ventre.



Labareda

A querença é um fogo devastador e que jamais se apaga porque, enquanto se vive, o querer como vontade se perpetua e persiste, muda de alvo, mas nunca tem fim. E quem sacou isso foi Schopenhauer (1788-1860), um filósofo tão pessimista que era azedo, pensava bem, implicava com as mulheres, era agoniado que só e influenciou um monte de outros filósofos pessimistas. Acredito que o bicho queria dizer era mais ou menos isso aí em cima quando afirmou que “querer é sofrer”.

Penso cá que na querença amorosa o paradoxo é maior, a combustão arde mais e parece que não pára, pois se quando se quer ela incendeia, também ela queima do mesmo jeito na hora que não se quer mais. Daí que sou mesmo é uma labareda humana e tô é na fase do querer.


quinta-feira, julho 12, 2001


Dor

Por ser a expressão do epílogo todo desenlace é triste.


quarta-feira, julho 11, 2001


Querem acabar com a trepada?

Lá vem o povo das ciências com suas novidades. A mais recente é a dessa dona australiana, a cientista Orly Lacham-Kaplan, do Instituro de Reprodução e Desenvolvimento da Universidade Monash. A tal inventou aí um método de reprodução que dispensa o espermatozóide. A coisa consiste em fertilizar um óvulo com células somáticas (não-reprodutivas) de outras partes do corpo. Segundo ela isso atenderia as necessidades de homens inférteis, mas abre também perspectivas pra que casais de lésbicas possam ter filhos com características biológicas das duas já que dispensa a doação masculina.

Os procedimentos iniciais já deram certo em camundongos e vai levar um tempo ainda pra ser testado em humanas criaturas, e porque fascina e assusta, já tem gente contra e a favor. Cá pra mim, essa coisa é complicada e penso que óvulo e espermatozóide nasceram um pro outro, e fora disso o ser resultante dessa mistura pode nascer faltando uns detalhes, né não? Além do mais, se isso der certo, pode muito bem tirar das próximas gerações uma das coisas mais gostosas da vida que é o prazer de uma boa trepada.



Sinuoso

Tô desconfiado que a vida é a grande metáfora do desencontro. E é nele, no desencontro, que todo mundo empaca, se engasgando com as certezas que são poucas, e se diluindo nas dúvidas que são tantas. E esse caldo borbulhoso quase sempre fragiliza, e quando isso acontece, tem gente que nem segue mais o rumo novo que aspirava rumar.


terça-feira, julho 10, 2001


Ditames

O amor não considera as diferenças no tempo, e nivela cada par é pelo afeto que cada par manifesta. E aí não há trilhas opostas, nem descompasso de idades e tudo se cinge ao presente porque é nele que todo amor se deleita.

Como dantes

A insensatez humana é terrível e já produziu umas tantas barbaridades conforme a história revela. E o racismo foi o motor de muitas delas. E nem adianta dizer que neste patropi das raças misturadas não há preconceito de raça e cor. E o negro é o mais discriminado e a prova provada é a situação econômica deles muito inferior a dos ditos chamados brancos.

A coisa vem de longe, e de fora, e influenciou os menos mestiços daqui. No tempo de Pedro 2°, um tal Gobineau, ministro da França no Brasil, escreveu isso aí (resgatado não sei de onde por Rubens Ricupero) sobre nós: ..."uma população toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo... As melhores famílias têm cruzamentos com negros e índios... A imperatriz tem três damas de honra: uma marrom, outra chocolate claro e a terceira violeta". E ainda tascou: ...”Salvo o imperador, não há ninguém neste deserto povoado de malandros". É mole?


segunda-feira, julho 09, 2001


Irresoluta

Se me ama não diz
se ama outro se cala
e não fecha a cicatriz

sábado, julho 07, 2001


Alucinado mundo

Hoje passei uma parte do dia junto com publicitários, numa reunião pra definir as diretrizes de uma campanha. Todos eram muitos criativos e agradáveis. Minha conclusão é que se o mundo fosse povoado só por esse povo ia ser bom, porque esse mundão ia se tranformar num delírio só.

sexta-feira, julho 06, 2001


Pra segurar a libido

Filosofia é uma coisa que tem lá umas serventias assim pra deslindar os enroscos da existência da gente. As regras básicas que regulam a convivência humana nasceram dos miolos desse povo que se ocupava de filosofar. E tem pra tudo quanto é gosto. Tem as que ninguém entende, e tem delas até divertidas.

Uma das mais esquisitas e que influenciou profundamente o pensamento cristão foi a tal da escola estóica, que determinou o comportamento das criaturas que viveram entre 300 anos antes de Cristo e 250 depois. Esse povo defendia a pureza ética, a castidade e o vuco-vuco sexual apenas dentro do casamento. Condenava a luxúria e exagerava na rejeição do prazer físico, o que deve ter reduzido bastante a fodelança naquele tempo, e ainda considerava uma virtude saber suportar o infortúnio assim sem reclamar da dor. Difícil agüentar isso. Vai ver que até influenciou os masoquistas muito tempo depois.

Não foi o sábio Sêneca, que morreu no ano 65 da nossa era, quem fundou essa escola de pensamento, mas ele foi seu principal teórico. Olha só parte das idéias do bicho expostas num ensaio chamado Sobre o Casamento:

“Todo o amor pela esposa de alguma outra pessoa é vergonhoso. Mas também é vergonhoso amar a própria esposa desmesuradamente. Ao amar a esposa, o homem sábio toma a razão como guia, não a emoção. Resiste ao assalto das paixões e não permite ser levado impetuosamente ao ato conjugal. Não há gesto mais depravado do que o de amar a própria esposa como se ela fosse uma adúltera. Aqueles homens, entretanto, que dizem copular com a mulher só para gerarem filhos, em prol do Estado ou da raça humana, devem pelo menos tomar como exemplo os animais, e quando o ventre da esposa inchar, não devem se mostrar como meros pretendentes mas como maridos."

É isso. Depois de mais de dois mil anos alguns conceitos concebidos ali ainda norteiam hoje os procedimentos de muita gente no mundo.



Medida

Nas coisas do sentimento nunca procure saber se é pouco, se é muito, ou se é suficiente, porque não tem medida que meça e nem precisa medir as coisas que a gente sente.

quinta-feira, julho 05, 2001


Garimpagem

Pode ser até asneira, mas penso cá que todo mundo se divide em pedaços e cada pedaço é uma fração desse um. E a tarefa mais árdua de cada qual nesse mundo é saber juntar esses cacos pra ir urdindo legal a trama intrincada da vida, que carece de direção e sentido. Uns conseguem manter os cacos mais ou menos arrumados, outros tentam, mas os fragmentos já são tantos que suas porções se dispersaram e não retornam jamais. E aí é a pura piração.

Mas creio que ninguém, depois de se dividir, volte a ser inteiro de novo porque tem uns nacos da gente que ficam colados pra sempre nos pedaços de outras gentes.

terça-feira, julho 03, 2001


Engano

Se é falso não prospera
e se acaba, e não dura,
e morre logo é de véspera


Manifestos pessoais de amor

Esse povo historiador costuma dividir a história universal em eras, grandes feitos e guerras. A mim me apetece mais saber como se desenvolviam as ralações humanas, o dia-a-dia das pessoas, e como o povo através do tempo, pensava e amava. Daí que os registros escritos de poemas, cantigas e cartas me fascinam, porque são a expressão dos verdadeiros sentimentos humanos.

Essas Lettres portuggaises, conhecidas como Cartas de Amor foram escritas em 1669, e atribuídas durante muito tempo a uma religiosa chamada Mariana Alcoforado. Depois descobriu-se que o secretário Guilleragues, do Gabinete de Luís XIV, e amigo do poeta Racine, teria sido o autor. Persiste a controvérsia, já que a freira existiu e o destinatário marquês de Chamilly também. O que importa é que revela verdades da paixão que só o amor é capaz de expor.

Traduzidas assim para o galaico ( língua irmã siamesa do português, que nossos ancestrais falavam lá pela tal idade média, naquele emaranhado de palavras chamado galaico-português), ficam mais evidentes as dramáticas manifestações de afeto. Taí uns trechos de uma.

“Considera, meu amor, ata que punto fuches confiado. ¡Ah! infeliz, fuches enganado e enganáchesme con falsas esperanzas. Unha paixón sobre a que fixeras tantos proxectos de praceres, non che causa agora senón unha mortal desesperación, que só pode ser comparada coa crueldade da ausencia que a provoca. ¡Como! ¿Esta ausencia para a que, a miña dor, por máis que se esforce, non pode atopar un nome abondo funesto, privarame, entón, para sempre de fitar eses ollos nos que eu vía tanto amor e que me facían coñecer impulsos que me enchían de gozo, que o eran todo para min ata o punto de só precisar deles para vivir?

¡Ai! os meus están privados da única luz que os animaba, tan só lles quedan as bágoas; non os usei senón para chorar sen descanso, dende que souben que estabades decidido a un afastamento que me é insoportable e polo que morrerei en pouco tempo.”...



segunda-feira, julho 02, 2001



Conjetura

As nuanças que moram ali escondidas entre o não-dito e o dito são dúvidas que me assolam, e me deixam sem saber se me quer ou se me quis, se me deseja e me ama, ou se é verdade ou inventa. Será que as nuanças são trapaças das palavras pra trapacear o que se chama destino?