quinta-feira, maio 30, 2002



Casulos

Nesse embate das palavras nem todas elas são ditas, falta sempre aquela única que puxa a ponta do laço e desfaz qualquer amarra. Eu cá, desesperado, já disse a minha umas tantas e penso que escapuli dessa minha casamata. Ela dá sinais de impaciência mas não diz aquela uma e fica ali acoitada dentro da própria trincheira.

quarta-feira, maio 29, 2002



Tátil



No ato
toda pele
pede regalo
e ávida
apela




segunda-feira, maio 27, 2002



Nau

Se tá difícil voar, e voar não é preciso (como não disse o luso bardo) então velas ao mar porque ali o vento embala e dá o rumo, e se não naufragar, certamente aportará, pois há sempre muitos portos em cada mar.


sábado, maio 25, 2002



Asas da paixão

Nunca sei se cada espaço que se abre em minha frente é planície ou precipício. Mas o meu falho instinto mesmo assim me impulsiona, empurra e me convence a encarar como se nada nesse mundo fosse movediço. E pra não cair logo de primeira nessa imensidão desconhecida invento vôos, e no meio deles quase sempre minhas asas são tolhidas por outrem ou por mim mesmo, e quando isso ocorre invariavelmente eu caio e me espatifo seja esse espaço uma campina plana ou um abismo.


sexta-feira, maio 24, 2002



Puxa-estica

Se tem pragas que infestam essa net, uma das piores é esse porrilhão de mails que pintam na caixa postal da gente querendo vender de um tudo. E mesmo que você não denuncie que necessita ou quer, os sacanas empurram de qualquer maneira. Imagino que as propagandas de produtos específicos pra cada um dos sexos, como esse que me ofereceram agora, devem emputecer mais pois são encaminhadas indiscriminadamente pra pessoas que têm nome comum a homem e mulher como por exemplo, Juraci, Lindomar ou Francimar

Taí a que me mandaram e devolvi na hora aompanhado de uns impropérios:

( não vou dar essa colher de chá pra eles pondo o nome aqui) ® é um equipamento que promove tração no membro masculino, forçando o aumento do número de células (mitose) em toda a região tracionada, com o conseqüente aumento do tamanho, da espessura, bem como da correção das curvaturas (Doença de Peyronie), curvatura congênita do pênis.

Depois de tascar um blablabá quase sem fim sobre as maravilhas do método e da aprovação por urologistas do mundo inteiro, e de dizer que não vende em sex-shops arremata:

É um aparelho pequeno, que pela sua discrição e comodidade pode ser utilizado caminhando, conduzindo, sentado, ou seja, pode usá-lo e, ao mesmo tempo, levar uma vida normal. (...)/ tem sido utilizado por milhares de homens que avalizam os resultados deste método, com um alongamento médio aproximado a 5 centímetros tanto em estado ereto quanto em flácido e um engrossamento de 1 centímetro. (...)/ pode ser utilizado durante 9 horas ao dia, com pouca tração, ou então durante 3 horas ao dia com maior tração, durante um período de 4 a 12 meses. Não é necessário que as horas de uso sejam contínuas, (...) Os resultados são para toda a vida, e já desde o primeiro mês o crescimento é visível. Este tratamento não é doloroso; não existem efeitos colaterais e não diminui a potência sexual, ao contrário, favorece e melhora a ereção.

Pois sim. E deve ter quem se arrisque. A obsessão de boa parte do macharal por uns milímetros a mais ali, parece ser milenar, e deve ter lá suas recônditas, e quem sabe, infundadas e furadas razões de querer agradar a fêmea somente por aí, na base de centímetro ou polegada. E não difere muito da de considerável parte do mulheril que deseja diminuir um tantico aqui ou dilatar um tantão acolá, na base do bisturi ou silico.

E isso não é de hoje. Há relatos antigos e atuais de coisas absurdas feitas, principalmente pelos homens, pra dar um trato nos possuídos, mesmo que isso dilacere ou mate. Recentemente li num jornal que um jovem de Salvador aplicou silicone industial no seu na ilusória esperança de inflar o bicho. O resultado foi uma necrose generalizada. Vai perder a dita macheza, e talvez até pire. Esconjuro!


quinta-feira, maio 23, 2002



Partituras para um aflito coração

O som dramático de um violino esparramou-se pelo ar. E era Paganini pegando pesado naqueles seus incontidos delírios (ressuscitados por Ruggiero Ricci). Depois uma lastimosa guitarra flamenca num alvoroço de pura paixão. Sofridas e cortantes vibrações sonoras saídas dos dedos nervosos de Paco de Lucia. E pra acabar de fulminar esta minha inquieta alma ouvi esse virtuoso Yo-Yo Ma tocando dolentes notas de Bach, soluçando toda melancolia que um cello é capaz de produzir.

É assim, sempre que o meu trôpego coração acelera numa intermitente disritmia escuto esse povo, e escuto outras gentes de suaves sons como essa Adriana aqui (Mais Feliz), ou essa Marisa e mais uns.

Nem sempre relaxa ou cura. Tem vez que faz é piorar, como fez agora.





quarta-feira, maio 22, 2002



Síndrome da caça

Se o ambiente é repleto de predadores cada um por puro instinto se torna ressabiado, e com receio de ser presa de armadilha ou abatimento, não se atira nem voa e hesitante se recolhe.


segunda-feira, maio 20, 2002



Fado

Tem os que se lascam logo de cara, e os que só se arrebentam na saída. E parece que tem os que, feito eu, se ferram sempre o tempo todo.

domingo, maio 19, 2002



Voar

De que mar sopra essa brisa que agora em mim me bate e me fustiga? Que mítica miragem é essa que me aflige, assim alada e grávida, e teima em me tirar desse limbo que vez por outra a mim mesmo me imponho? Em que orla ela se acoita? Em que franja desse mundo habita ou mora? De onde enigmática me enfeitiça?

Não sei, hoje apenas sei que de rosa ela se veste. Amanhã de que cor se vestirá?


sexta-feira, maio 17, 2002



Solilóquio

Me confrontava cá comigo mesmo, num desses embates corriqueiros entre mim e meu reverso, e hoje quase me convenci que sou parecido pra caramba com o meu combalido avesso.

quinta-feira, maio 16, 2002



Viagem

Se México fosse uma rua do outro lado da minha, e Cuernavaca fosse um bar na esquina dessa rua, eu hoje tomava um porre de tequila e de palavras da boca daquela moça.

quarta-feira, maio 15, 2002



Eróticas mãos

Fumegante café, dedos trêmulos contando botões enfileirados, face quase na face, uma voz que persuade em um francês gutural sem engodo nem ardil e outra que só murmura uma promessa de amor. Um jogo de sombra e luz, um filme em preto e branco e perfeita fotografia. Na seqüência e em close um par de mãos em carícias insinua tudo o que se passa na cama, dos afagos iniciais ao êxtase final, ali crispadas no branco lençol amarfanhado.

Pode ter sido em Hiroshima Meu Amor ou talvez em Ano Passado Em Mariembad, de Alan Resnais. Ou em Os Amantes ou ainda em Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle. Não lembro agora, só sei que essa cena me veio à memória porque vi ontem em um canal de TV a cabo pedaço de um filme pretensamente moderno cheio de sussurros e fodas frenéticas, quase explícitas, em tomadas tão banais que a carga de excitação não chega nem perto daquela cena das mãos, a tal que apenas sugeria com sutileza e arte.


segunda-feira, maio 13, 2002



Da maternal sapiência

Nesse ofício, como de há muito se diz, de desfibrar todo dia fibra por fibra o coração dos filhos toda mãe se torna sábia, e enxerga num relance o que se passa na alma de seus rebentos, e saca por detrás da máscara de cada um se ali há silêncio na balbúrdia ou barulho na ausência total dos ruídos.


domingo, maio 12, 2002



Sem alegoria

Escalafobeticamente (ou nome!) descentrado, assim fora do eixo, que nem uma figura geométrica deslocada no espaço e perdida no tempo.

Cadê o meu ponto de convergência? Cadê?


sexta-feira, maio 10, 2002



Vulnerável

Forte é quem sofre e não chora, quem mesmo não sabendo nadar naufraga e não se afoga, quem se urina de medo e não pede penico, tem taquicardia e o peito não arfa, se treme e as pernas não bambeiam. Nem sei se foram essas as premissas (nem se essas são premissas) que levaram alguns sábios a tentarem reverter isso transformando as frágeis criaturas humanas em robustos animais imunes aos sacolejos dos sentimentos.

Faz tempo que tentam por todos os caminhos e vias das filosofias e ciências (e há quem diga que até das feitiçarias), mas nunca se conseguiu fabricar uma raça assim super-super, simplesmente porque a invulnerabilidade extremada (ou o exercício sistemático dela) seca as gentes.


quinta-feira, maio 09, 2002




Dançar

É certo que o conceito de arte desde antanho pra hoje elasteceu-se que só e dentro dela cabe tudo. Quem manja das estéticas e não é purista legitima esse inchaço. Eu cá, como não sou crítico de arte e nem sei julgar essas nem outras coisas, apenas aprecio, e se agrada a meus desgastados olhos e emociona o meu estropiado coração tá é valendo.

Pois sim, tá rolando pelas bandas de cá um evento dito cultural que agasalha todo tipo de manifestação artística: seja suposta ou verdadeira. Dei um rolê por lá a convite de uma amiga. Tem de tudo. De estranhas expressões físicas até comportados delírios líricos. Vi coisas que me chamaram a atenção e outras nem tanto. Mas me detive mesmo foi na ala das danças. Deve ser por conta dessa minha frustração atávica pela falta de aptidão pra coisa, desse meu desejo de ser um pé-de-valsa e que eu nunca desenvolvi por timidez ou falta de jeito, e que me deixou assim devagar nesse mister.

O povo dançando lá e eu solitário observando como é legal um bate-coxas nas suas diversas modalidades, desde os ritmos frenéticos que exaurem uns aos de plenas calmarias que embalam outros. A destreza dos dançantes me deu a exata noção do quão eu sou limitado nessa arte de saltitar e por isso mesmo só me aventuro no simples dois-pra-lá dois-pra-cá que uma música lenta propicia. Aí eu "alugo" um reduzido espaço de um metro quadrado e faço minha performance ali, coladinho com uma parceira, o que quase sempre resulta no final em mais amasso que dança.

Pensava cá nas minhas inabilidades todas, na minha falta de talento pra música, pra dança e mais um monte de coisas e de como a natureza poderia ter sido mais generosa comigo, me fazendo talvez parecido com Davi, aquela bíblica criatura, aquele da funda e do gigante e que era chegado a uma fuzarca e é citado várias vezes naquele livro sagrado sempre flagrado numa folia tipo essa: dançava e saracoteava com todo o entusiasmo na presença do Senhor, cingido apenas com um éfode de linho.


terça-feira, maio 07, 2002



Adicto

Assim, de corpo presente, meus olhos nunca miraram, meus dedos não apalparam, minha boca não sabe o sabor, a voz se modula na imaginação e o cheiro minha intuição assegura ser bom. Sei poucas coisas, mas sei que o testemunho dos sentidos tem a serventia de dar consistência ao querer, e quase sempre dá. Mesmo com a ausência disso tudo a lembrança dela é uma constante em mim e ocupa todos os espaços do meu corpo franzino: do dedão do pé ao quengo.

Não esquecer tem cura?


segunda-feira, maio 06, 2002



Individualidades

Tem umas gentes que se amarram em sossego e calmaria como se o mundo fosse de feitio sossegado, e nas coisas ditas carnais, essas de fornicação, se regulam comedidas. Tem outras pra quem o mundo é somente um furdunço colossal, como se ele fosse um sacolejo permanente, e nas coisas da trepação, fodelança, vuco-vuco, não se regem pelas regras, não se enquadram em padrões, variam mais que o vento e são exuberantes e dadivosas.

Esses são os extremos, e tem as que permeiam um e outro, e todo mundo, ou quase, se considera normal. A diversidade dessa espécie humana é o tempero que tempera a vida, e as nuances particulares de cada qual, de sereno a agitado, é que determinam a combinação de parelhas, a formação de um par. O bom é isso: cada um é um pra quebrar a monotonia da mesmice e resguardar o sagrado babado das idiossincrasias.


sexta-feira, maio 03, 2002



Metade era da Espanha, a outra de Portugal




“Dom Fernando e d. Isabel, por graça de Deus rei e rainha de Castela, de Leão, de Aragão, da Sicília, de Granada, de Toledo, de Valência, de Galiza, de Maiorca, de Sevilha, da Sardenha, de Córdova, da Córsega, de Múrcia, de Jaém, do Algarve, de Algeciras, de Gibraltar, das ilhas de Canária, conde e condessa de Barcelona, senhores de Biscaia e de Molina, duques de Atenas e de Neopatria, condes de Roussilhão e da Sardenha, marqueses de Oristán e de Gociano, juntamente com o príncipe d. João, nosso mui caro e mui amado filho primogênito, herdeiro dos nossos ditos reinos e senhorios (...)

Assim Começa o Tratado, o de Tordesilhas, aquele que por conveniência política e medo repartiu o mundo ainda desconhecido e que viesse a ser descoberto, o tal novo mundo em dois, de pólo a pólo, do ártico ao antártico, por um meridiano imaginário que passava pelas ilhas de Cabo Verde estabelecendo que de uma banda pra lá era de Portugal e que a de cá era de Espanha. E continua:

(...) /foi tratado, assentado e aceito por nós e em nosso nome e em virtude do nosso poder, com o sereníssimo d. João, pela graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves d’Aquém e d’Além-mar, em África, senhor da Guiné, nosso mui caro e mui amado irmão (...)

(...) /que eles, portanto, para o bem da paz e da concórdia e pela conservação da afinidade e amor que o dito senhor rei de Portugal tem pelos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Aragão etc., praz a suas altezas, e os seus ditos procuradores em seu nome, e em virtude dos ditos seus poderes, outorgaram e consentiram que se trace e assinale pelo dito mar Oceano uma raia ou linha direta de pólo a pólo; convém a saber, do pólo Ártico ao pólo Antártico, que é de norte a sul, /(...) como dito é, a trezentas e setenta léguas das ilhas de Cabo Verde em direção à parte do poente, por graus ou por outra maneira,/(...)que tudo seja, e fique e pertença ao dito senhor rei de Portugal e aos seus sucessores, para sempre

(...) E que todo o mais, assim ilhas como terra firme, conhecidas e por conhecer, descobertas e por descobrir, que estão ou forem encontrados pelos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Aragão etc., / (...) / pela dita parte de poente, depois de passada a dita raia em direção ao poente ou ao norte-sul dela, que tudo seja e fique, e pertença, aos ditos senhores rei e rainha de Castela, de Leão etc. e aos seus sucessores, para sempre.

Em nome de Deus Todo-Poderoso, Padre, Filho e Espírito Santo, três pessoas realmente distintas e separadas, e uma só essência divina. Manifesto e notório seja a todos quantos este público instrumento virem, dado na vila de Tordesillas, (...) /em presença de nós os secretários e escribas e notários públicos dos abaixo assinados, /(...)

(...) /firmamos nesta nossa carta nossos nomes e a mandamos selar com o nosso selo de cunho pendentes em fios de seda em cores. Dada na vila de Arévalo, aos dois dias do mês de julho, ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de mil quatrocentos e noventa e quatro. Eu, el-rei. Eu, a rainha. Eu, o príncipe. E eu, Fernão Dalvares de Toledo, secretário d’el-rei e da rainha, nossos senhores, a fiz escrever por sua ordem.”


As elites de todos os tempos e natureza sempre tiveram e têm a ilusão da perpetuidade, de que tudo que lhe pertence pertencerá pra sempre. Se lascaram e se lascam todo dia por esse mundão por conta dessa visão troncha.

De qualquer forma queria dizer, que por esse tratado, eu deixei de nascer na banda da Espanha por apenas légua e meia. E você?