quinta-feira, janeiro 31, 2002



Parir


O Grito - Munch, Edvard

O parimento, esse que resulta na gente e em outros bichos, é prerrogativa das vivíparas ou ovíparas fêmeas e é um ato heróico pra quem expele o rebento. Mas pra quem nasce é só um fato involuntário. E pelo que se espalha por aí, na espécie humana todo mundo já nasce com uma memória genética pra trás e uma zerada pra frente. Nascer é um fato duro que se desdobra em outros mais, e a sucessão deles é a tal da vida, essa que pode ser boa, mais ou menos ou uma merda.

Já parir-se a si mesmo não é ato nem é fato mas uma necessidade da raça humana, requisito pra adaptação e não carece ser fêmea porque qualquer gênero já vem apto, pronto pra elaborar dentro de si o ser que se quer ser. Esse parto é doloroso e não tem prazo e pode se repetir quantas vezes se precise.

Sucede que muitas vezes o ser que daí redunda surge fragmentado em mil nacos ou muito mais e então leva o resto da vida tentando juntar os cacos, renascendo outras vezes. Quando não consegue, pira. Porém tem uns que se parem prontos, inteiros, quase completos, faltando poucos retoques. Mas seja lá que tipo for, nascendo-se inteiriço ou fracionado, essa parição provoca um grande grito porque a dor é na alma.


quarta-feira, janeiro 30, 2002



Cor e engano


Tudo no mundo é ilusório, inclusive o mundo. E cores são impressões retidas, disfarces refletidos de pingos de sol, pura refração. A luz ilude a retina e as cores iludem as gentes.

Tô fazendo um rodízio de ilusão colorida neste blog incolor.


domingo, janeiro 27, 2002



Faltantes geométricos aí dois posts abaixo

Área completa de pétala, aquela que me atrai, o mel que toda flor tem, asas de colibri, espessura de fina escrita e os contornos de uma deusa. E mais eu que sou todo assimétrico, seja no físico ou miolos.

sábado, janeiro 26, 2002


Prolixo

Amo.




Geometria dos sentidos

Das figuras que se medem ou que se podem medir, essas planas, angulosas, as de rasas profunidades, de retas baixuras, curvosas alturas, aquelas helicoidais, as trapezóides também e mais um monte de outras estranhas formas, que se deseje mensurar por dentro e pelo avesso, a limitada geometrtia euclidiana sempre dá conta.

Se se pretende medir com exata precisão imagens rugosas de imprecisos traçados como uma folha de ávore, o espinhaço humano, o mediastino, o piloro ou ou duodeno, o nariz, o útero ou o cacete, um ovo, um par de orelhas, duas parelhas de dentes ou um fio de fino cabelo, a foz de um rio, a maré e sua espuma, o ante-braço, a pleura, os bagos dependurados, os pequenos e grandes lábios, a embocadura de uma buçanha, o cangote, a depressão de uma nuca ou a ponta da língua nela, umbigo raso ou profundo, o vinho que cabe nele, o vão das costas e da frente, o tamanho de um mamilo, ou a extensão da alma de cada ser, a euclidiana não serve.

Se acuda então de outra geometria mais propícia, apropriada, como essa tal da fractal, ou então invente outra com base nos seus sentidos que são sempre mais precisos.


quinta-feira, janeiro 24, 2002



Pênsil

Balança entre abismos ligando beiradas e vidas, e embora pareça frágil resiste a todo repuxo e a qualquer ventania, feito eu e mais alguns.


terça-feira, janeiro 22, 2002



Impertinências

Herético por herança, vez por outra trombo com o povo que cultua a natureza, esse que fala da sua perfeição. Pra mim, ela ainda falha na combinação dos cromossomos, na sincronia dos neurônios e na sintonia corpo-mente e também num porrilhão de outros trecos complicados que nos compõem e tudo isso termina mesmo é por provocar muita trepidação no dia-a-dia das gentes.

Falhou na tentativa de nos fazer eternos e, zonza, só conseguiu produzir seres mutantes que nem nós e o resto, simples espécies cuja perfeição de funcionamento tá é longe de chegar

E o resultado dessa cruel doideira é sofrimento de todo naipe que as ciências (também subprodutos da natureza) tentam amenizar. Aí na busca das curas a medicina tateia e a química devasta. A medicina patina entre o avanço e o atraso e corre atrás de consertar os lapsos da natureza, e perplexa, nomeia mal as enfermidades com nomes tão terríveis que nos deixam mais doentes ainda. E a química é que nem um franco atirador que ora acerta, ora resvala.

Pra não dizerem que sou pessimista confesso que tenho uma certa esperança que tudo isso aí em cima se acerte pra melhorar a nossa escassa felicidade humana. Pois sim.


sábado, janeiro 19, 2002



Teorema

Eu e ela, um par de postulado ambulante buscando ser axioma.


quarta-feira, janeiro 16, 2002



Escombros

Exercitando a minha banda espreitadora dei um rolê pelos arredores daqui e dali, e li sobre amores que rapidamente se desvaneceram como bolhas de espuma. E aí pensei cá que o óbvio é tão evidente que ninguém vê, como disse ou diria aquele Nelson lá, aquele das rodriguianas sacadas. E a obviedade mais monumental é essa uma, essa que nada perdura eternamente, seja pedra ou casa, gente, paixão ou amor.

E o amor a gente sabe, não se contém nas limitadas fronteiras de cada um e extrapola pra além de cada qual, se esbalda na zona do delírio e vai pro público conhecimento na forma de ideal idílico. E enquanto tudo permanece aceso é uma boniteza só. Daí que certos públicos amores, ou amores publicados nos íntimos detalhes, da fúria à ternura, dos fatos às fodas pintam como maciços mas são, como tudo, sólidos como gás.

Penso que é preciso ficar atento pro desencanto não descambar pro desalento, e o antídoto mais eficaz pra não cair na esparrela da depressão e de outras armadilhas do quengo é ter sempre em mente as obviedades todas, como essa: em cima de escombros também se constrói.


segunda-feira, janeiro 14, 2002



Predicados

Impaciente, hiperbólica e braba. Serena, elíptica e terna. Dentre outras coisas, essas também me fazem gostar dela.

domingo, janeiro 13, 2002



Tique

Cada surpresa que tenho é um pinote que dou. Tô gostando nada dessa neura canguru.

sexta-feira, janeiro 11, 2002



Besta-fera

Aprecio o povo acadêmico e seu lero sério, e acho bonita aquela tara deles pelo rigor científico e a mania de aferir tudo que há no mundo. Geralmente eles produzem coisas interessantes, embora de vez em quando constatem também apenas obviedades. E todo mundo sabe que uma obviedade constatada vale mais que uma só intuída. Pois sim, o povo das antropologias mais os das sociologias e outros afins, ancorados em organização mundial, estão concluindo um estudo sobre a desumanização do dito vivente humano nesse conturbado planeta.

O resultado preliminar é desalentador e aponta que a nossa espécie tá cada vez mais se brutalizando, perdendo a ternura, rumando lentamente pra animalização total. Certos agrupamentos sociais já banalizaram o crime e práticas cruéis são parte do cotidiano deles. Tá é ficando ruço.

Até me lembrei que talvez fosse bom viver ali pela idade média, quando a luz era pouca, a claridade escassa, e o bestiário vasto. Mesmo com tanto bicho medonho pra assombrar o imaginário do povo e azucrinar as gentes que viviam sobressaltadas e tinham um medo danado da noite, e qualquer urro ou berro era prenúncio de fera monstruosa rondando.

Pro povo dos tempos de agora as feras são outras, e parece que a que mais apavora tem a conformação física semelhante a sua. E bichos assustadores com a leocrota, assim do tamanho de um jumento e veloz, com a parte dianteira, peito e patas de leão, traseira de um veado, cabeça de cavalo e a boca de orelha a orelha, fendida, que em vez de dentes tinha um osso maxilar, parecem inofensivos diante do pavor que um bandido causa.


quinta-feira, janeiro 10, 2002



Dor

Tem dor branda, dor feroz e também tem a mais ou menos. Tem a que se sente nos músculos e aquela que crava na alma. Mas isso não importa porque tudo é dor, e qualquer que seja o tanto, maltrata. E como diz o povo, toda dor é uma, o que muda mesmo é somente o gemido.

Tô voltando pra civilização e penso que já driblei umas dores, mas parece que outras me acompanham.


segunda-feira, janeiro 07, 2002



Exílio temporário

Auto-seqüestrado bestamente, pra descanso quase forçado, tô eu aqui, numa lonjura dessa, nesse buraco aqüífero-medicinal, rodeado de montanhas frias e muito mato dessa sofisticada família aqüifoliácea. Mas tem também uns arbustos chinfrins, fuleiros, rasteiros, cheios de espinhos e daninhos, como aliás tem em tudo que é canto no mundo. Aqui o horizonte é uma sucessão de picos por detrás dos outros, esbarrando nas montanhas. Pela primeira vez vejo esse tal de meu horizonte assim circular e limitado. Minha sensação é que tô dentro de um cone, ali na parte fina e afunilada da espiral, meio sem fôlego, doido pra resfolegar. E tô eu cá, nesse exílio voluntário mandando esses sinais de fumaça-vida de um cybermato que opera por ondas de rádio. É, parece que o futuro já invadiu a baixa-da-égua, os arredores, o fim do mundo e um pouco mais.

Se eu sair dessa folia invertida vivo e inteiro vou mergulhar em águas mais revoltas, num lugar que o horizonte se espalha, é móvel e tá além, ali onde a vista alcança, e se funde com o céu. O ar tem cheiro de maresia e é lá que eu habito e é pra lá que eu vou.


sexta-feira, janeiro 04, 2002



Destino e ferraria

Um antigo ferreiro me disse que destino é como metal, ferro doce, mineral, cuja forma se transforma com fogo, com vento e água, como se faz numa forja, com seus foles, carvão, martelo e bigorna. Mas carece também de mais um tanto de muque e outro mais de vontade e daí a feição que vai ter é a feição que se der com a têmpera que se quiser.

Pois já providenciei uma forja e o feitio do meu já tá até finalizado. Falta só o polimento.


quarta-feira, janeiro 02, 2002



Pulsão

Tem uma inquietação me afligindo e é voraz como a saudade.