terça-feira, julho 30, 2002
Par
Da natureza das coisas sei pouco, quase nada. E cá, na minha antropossófica ignorância, tenho pra mim que a alma de cada um de nós é roliça, sem quinas ou portas de entradas e saídas definidas, assim que nem um grande desvão descerrado que agasalha tudo: as boas coisas e as nem tanto também. E é lá que as conjuminâncias entre as criaturas se processam e se dão, independentemente das resistências das lógicas burocráticas da razão ou dos impulsivos e anárquicos mandos do insensato coração.
Daí penso que, longe e livre dessas naturais e impertinentes interferências, essas da razão e do coração, as almas de uns e outros se buscam e se sincronizam nas afinidades refletidas e quando o resultado dessa confluência gera um par, então não tem nada no mundo que impeça essa junção ou que aparte essa parelha.
segunda-feira, julho 29, 2002
Tango premonitório
Esse Enrique Santos Discépolo foi um argentino dos bons, um desses poetas populares que impregnam seus ditos de sabedoria e premonição. Em 1935 tascou esse Cambalache. Caetano Veloso gravou por cá num andamento espalhafatoso.
Que el mundo fue y será una porquería,
ya lo sé;
en el quinientos seis
y en el dos mil también;
que siempre ha habido chorros,
maquiavelos y estafaos,
contentos y amargaos,
valores y dublés,
pero que el siglo veinte es un despliegue
de maldá insolente
ya no hay quién lo niegue;
vivimos revolcaos en un merengue
y en un mismo lodo todos manoseaos.
(...)
Qué falta de respeto,
qué atropello a la razón;
cualquiera es un señor,
cualquiera es un ladrón.
Mezclaos con Stravisky,
van Don Bosco y la Mignon,
don Chicho y Napoleón,
Carnera y San Martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosa
de los cambalaches
se ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remaches
ves llorar la Biblia contra un calefón.
domingo, julho 28, 2002
quinta-feira, julho 25, 2002
Debilitado
Cansado de ser inanimado parece que este desconsolado blog quer pulsar como pulsa a vida. Alter-ego de mim, ou vice-versa, desconfio que não se conforma em ser apenas veículo de angústias e contentamentos, e queira, ele próprio sentir.
Por uma astúcia qualquer provoca em mim, nessa minha tonta cabeça, uma certa compulsão por mudar-lhe as vestes na vã ilusão de que trocando a pele que lhe cobre, como as cobras fazem, se renova a vida ou uma nova se ganha. O brilho externo das cores com seus matizes dá ânimo e até reluz, mas não revela necessariamente vida.
Creio que este blog, que se confunde comigo, entrou mesmo foi numa confusa fase autofágica e tá quase moribundo, sucumbindo, ali nos estertores finais.
quarta-feira, julho 24, 2002
Lapidado
Esse cara, esse Giuseppe Ungaretti chegou por essas bandas em 1937 pra ensinar literatura italiana na USP e se mandou em 1942 por conta daquela guerra lá. Penso que foi um dos grandes poetas do mundo e aqui contaminou de prosa e poesia um monte de gente boa. Duas dele:
Dias e noites
tangendo
em meus nervos
de harpa
vivo desta jóia
doentia do universo
e sofro
de não sabê-la
acender
na minha
palavra.
Manhã
Ilumino-me
de imenso.
Esta última é de 1915 e causou o maior rebu pela forma e síntese.
terça-feira, julho 23, 2002
Intermitente crença
Eu contrito, confesso que me desfiz da fé. Aliás de todas. Das compulsórias atávicas, aquelas incutidas pelo milenar e exitoso processo do temor, e das outras, daquelas adquiridas nas pelejas ambivalentes do cotidiano: no torpor dos infortúnios, ou no regozijo das indulgências recebidas.
Mas desconfio que essa inquieta confissão não vai prosperar e nem se cristalizar. Provavelmente tudo voltará a ser como dantes diante do primeiro solavanco de uma aflição, ou da celebração incontida de uma alegria. Como das outras vezes.
segunda-feira, julho 22, 2002
Virgem invicta
A fornicação é vital pra tudo quanto é bicho e gente. Parece que pros bichos selvagens é por pura necessidade da manutenção das espécies deles. Pra nós, ditos humanos, é por isso e mais umas prazerosas coisas que as artimanhas da inteligência engendraram e dão um baita suporte às nossas íntimas querenças aliviando o cio que em nós, diferentemente dos outros bichos, é quase constante ou se provoca fácil.
Mas tem quem passe pela vida incólume, e por alguma razão se safou dos naturais apelos da carne. É o caso de Francisca Ribeiro da Silva, do Ceará, conhecida como dona Nenê (ou Neném), 85 anos, atriz, pois participou recentemente de um premiado curta chamado No Passo da Véia, de Jane Malaquias, que embora possa parecer não relata a sua história pessoal.
Conforme depoimento dela numa matéria sobre primeira vez, preliminares, orgasmos, prazer e tal no caderno Almanaque do jornal O Povo, de Fortaleza, só casou aos 73 anos. Ele tinha 76. Deu nisso aí:
Minha cabeça tá assim meio véia, mas acho que foi isso mesmo. Eu só sei que passei dois anos casada com ele. Quando foi na entrada dos três, ele morreu. Ele tinha trombose. Não teve jeito. Aí, fiquei viúva. Viúva e zerada porque não teve lua-de-mel, não. Como eu disse, eu casei de véu e grinalda. Zerada. Eu era moça. Nunca tinha feito nada na minha vida. E fiquei assim porque Maninho nem descobria mais o Brasil. Aliás, naquela idade, descobria mais nada.
Penso que daqui a pouco vão fazer um filme, curta que seja, sobre a heróica e involuntária abstinência de dona Neném.
sábado, julho 20, 2002
Ira santa
Depois da bronca da sensível e doce Rosa Leonor nos comentários do post aí de baixo percebi que a nossa pátria não é a língua, como disse o grande bardo de lá. A nossa pátria é nossa pele, pois tudo que nela arranha, dói.
quinta-feira, julho 18, 2002
Anúncios portugueses
Tentava aqui fazer uma inocente pesquisa sobre os estragos do clima e chuvas através dos tempos e eis que esta inusitada net e seus buscadores malucos me lançam num batráquio servidor, aquele Sapo ali de Portugal, mais precisamente numa seção de classificados de serviços sexuais.
E vi que cá, como lá, o trilenar mercado dos prazeres é um, os costumes iguais e a promiscuidade muita, quase ninguém se preserva. A sacanagem é o mote pra provocar os instintos e tudo o mais é subalterno. O que muda mesmo é só o estilo literário de se fazer as ofertas. Confesso que não conheço certas modalidades oferecidas, e nem entendi certos requisitos tipo tamanho dos pés e tal.
No final de cada anúncio colocam lá a cidade e o número do telemóvel. Olhaí uns:
- Faço tudo. Menina, óptimo visual, corpo soberbo, aparelhos, lingerie, látex, chuva, masoquismo, etc.
- Viúva, trintona, solitária, gostosa, peitos rijos, oral intensivo.
- 2 louraças. Tudo ao natural. Botão de rosa.
- 20 anos, loura, com máxima higiene e educação. Preço mínimo.
- Travesti Joana + Jéssica. Dupla fantástica, completas. Realizamos todas as fantasias em conjunto ou separadas, sem tabus, sem pressas, sem limites. Segunda a sábado.
- Menina só. Sou morena, cabelos compridos, de 1,70m, muito meiguinha. Faço oral até ao fim, adoro 69 e tudo ao natural. Faço chuva dourada e botão de rosas. Faço casais.
- Brasileira, 20 anos. Oral até ao fim. Angolana, 24 anos, com corpo de manequim. Uma trintona sem tabus. Vem, não traga pressa.
- Duas amigas elegantes e bonitas, 25 completa e 33 com peito firme. Oral ao natural. Local discreto.
- Rivaldo, mulato, dominador, superdotado. Realizo suas fantasias. Alta qualificação. Pés 44.
terça-feira, julho 16, 2002
Eternizar
Vez por outra pinta um sábio propalando o fim de algo. Já decretaram o fim da história, da filosofia, do livro em papel, do cinema, do romantismo, do mundo e de mais um montão de outras coisas que permanecem ativas pra desespero e desmoralização de quem propôs.
Pra que ninguém mais pague o mico de se estrepar prevendo a extinção disso ou daquilo, nem sobrecarregue os neurônios com intermináveis e ridículas polêmicas, talvez fosse mais sensato propor uma singela e definitiva coisa: o fim do fim.
Isto posto, no lugar de fim o mais apropriado seria recomeço.
segunda-feira, julho 15, 2002
Às avessas
Não sei exatamente qual a serventia, mas aqui você vê o seu blog invertido, como se fosse num espelho.
domingo, julho 14, 2002
sexta-feira, julho 12, 2002
Equilíbrio
Admiro a denodada e incessante busca da maioria das gentes pelo desejado e difícil equilíbrio, esse imaginário ponto que não se sabe onde fica e que seria, supostamente, uma das fontes da felicidade dessa nossa humana e estranha raça. Mas desconfio que essa seja uma vã procura nem tanto por culpa das céticas ciências que a tudo fragmenta e conceitua, ensinando que o equilíbrio do sólido é diferente do líquido que destoa do gasoso.
Essa tortuosa e científica trilha pode levar a uma pergunta assim: como podem complexos seres compostos de carne, osso, sangue, sal e desejo, com esse monte de elementos distintos convivendo num só corpo, cada qual com suas propriedades diversas, harmonizarem tudo isso numa única e equilibrada coisa?
Tem hora que o corpo quer e a alma deseja, o sangue ferve e a carne arde, mas isso significa só um rumo do conjunto. Tem hora que tudo isso não tem rumo nem direção e quer dizer dispersão.
Pra mim, não vale a pena a procura porque elimina o sentido da vida que é movida por essas contradições, pela permanente luta dos contrários que agita a gente e colore a existência, embora vez por outra também borre. Ainda assim prefiro o fuzuê do desequilíbrio porque equilibrar significa anular.
quinta-feira, julho 11, 2002
quarta-feira, julho 10, 2002
Ira enrustida?
Parece que todo santo delira no fervor da fé e arde com o temor das coisas ditas pecaminosas, e tem uma renitente compulsão de expurgar de si tudo que considere como sendo iniqüidade.
São Pedro Damião (1007 - 1072), aquele atormentado santo italiano que Dante pôs lá no céu de Saturno, cantinho reservado às criaturas dotadas de determinação contemplativa, foi um monge letrado e virtuoso. Aos 25 já era catedrático de universidade. Mas como atestam as ciências, nessa faixa etária os hormônios pipocam pelos poros e o tesão é quem comanda os instintos carnais.
Talvez isso martirizasse o homem e suponho que a autoflagelação a que se submetia colocando cipós de espinhos debaixo da roupa e dando porrada em si mesmo com chicote tinha a serventia de estancar os desejos e evitar imprevisíveis ereções que decerto o afligiam e tal. Como se fosse pouco, o cara sobreviveu por alguns anos com uma mixa dieta de pão e água para se punir. Ficou debilitado e quase pifou.
Daí resolveu dedicar todo o resto da sua vida a combater, com denodo e dedicação, dentro da corporação clerical, o que considerava espúrio: a sacanagem generalizada, a prática da bolinação homossexual que grassava no meio do macharal recluso nos mosteiros e sacristias naquele tempo, além da exagerada simonia praticada pela igreja.
A mando do papa perambulou pelos mosteiros da Europa recolhendo estórias cabeludas que resultou num livro chamado Liber Gomorrhianus (Livro Gomorriano) numa clara alusão a devassidão de Sodoma e Gomorra, onde didaticamente descrevia como a coisa se dava e propunha as penitências. Taí uma pequena parte:
(...)
Do diverso comportamento da sodomia
Quatro tipos deste comportamento vergonhoso podem ser distinguidos no esforço de revelar-vos todo o problema de maneira ordenada. Alguns se tocam a si mesmos, sozinhos, outros se contaminam tocando com as mãos cada um o membro viril do outro, outros fornicam entre as coxas e, finalmente, tem os que fornicam por trás. Entre estes há uma progressão gradual tal que o último é mais sério que os precedentes. Assim se impõe àquele que peca por pegar no membro do outro uma penitencia maior do que para quem se pôs sozinho em contato com seu próprio sêmen ejaculado. Aqueles que são fornicados por trás devem ser punidos mais severamente do que aqueles que fazem apenas entre as coxas.
Conseqüentemente, a hábil maquinação do diabo estabeleceu gradação nesses atos dissolutos de modo que, quanto mais acima nessa escala, mais baixo estará a alma desse infeliz nas fossas profundas do inferno.
(...)
Tenho cá pra mim que do animado povo gay, esse que pulula por aí hoje em dia propalando nas paradas um certo orgulho de ser, esse santo dificilmente terá um devoto, né?
segunda-feira, julho 08, 2002
domingo, julho 07, 2002
sexta-feira, julho 05, 2002
Lancinante
O meu cangote dói. A cervical pediu colo, chiou com o peso das tensões que os dias moedores quase sempre provocam com suas desastrosas combinações de ausência com saudade, abandono com vazio, e dos choques das querenças não correspondidas. E isso junto é tanto quilo não aferido num canto só que o cachaço não suporta e parece que trinca.
Mas presumo que essa dor física seja apenas um disfarce enganoso do corpo, porque a dor que disso resulta e sobra tem roteiro conhecido: resvala de baixo pra cima na direção da cumeeira do quengo, só pra azucrinar, pois ela se instala mesmo é no coração, esse repositório de imensas contradições que propicia tanto a expansão desmedida dos júbilos do amor como dos doloridos dissabores da desilusão.
quinta-feira, julho 04, 2002
Miss Sovaco
Curvilíneo ou angular, rechonchudo ou pouco espesso, grande, reduzido ou seja lá que forma assuma, o corpo feminino com seus mistérios embutidos povoa o imaginário do macharal e provoca todo tipo de fetiche.
Por conta disso tem quem explore esse filão e ganhe uma grana preta vendendo, muitas vezes sem escrúpulos, esse belo conjunto de formas e também as suas partes isoladas. E foi assim que se banalizou bunda e peito numa exposição constante e nem sempre muita artística. Não sei se tem estatística provando que isso pode diminuir o interesse dos homens, mas penso cá comigo que não reduz o desejo, embora se diga por aí que essa mostra exagerada dá um tranco na libido.
Sei não. Percebo é que todo dia se instituem concursos para evidenciar um naco desse corpo de inesgotáveis possibilidades, de suaves contornos e tantas reentrâncias. Foi o que ocorreu ontem em Nova York, um incomum evento para escolher a America's Most Beautiful Underarms, na verdade, a Mais Bonita Axila da América ou Miss Sovaco, né?
Quem ganhou e faturou cinco mil dólares foi Nikki Bohannon, uma bem torneada jovem da Flórida com a sua reluzente, perfumada e perfeita axila depilada.
Costume é mesmo coisa estranha e acompanha os passos da moral que é imposta em cada época e vai detonando lentamente as barreiras dos limites anteriormente interpostos. Pois é. Ali mais pra trás um pouco no tempo, axila era também uma parte pudica que nem bico de peito e virilha.
quarta-feira, julho 03, 2002
Nortes
Num país, como na vida, mais que tudo tem os nortes, e parece que cada norte tem muito mais que uma ponta com a função de guiar, e mesmo que o rumo não seja na direção que se queira ele sempre prevalece. Assim, o norte de cada um pode apontar para o sul ou outro canto cardeal qualquer de si.
Eu confesso que hoje o meu norte tá confuso, zanzando por cada ponta sem saber onde é que tá.
terça-feira, julho 02, 2002
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