segunda-feira, setembro 30, 2002



Os presságios

Cadê os búzios, o tarot, as linhas das mãos, a cigana, cadê o tambor? Onde a leitura dos astros, aquela que me dizem, mostra os rastros? Que rumo o fogo aponta na simpatia das águas? Não há respostas. Tudo turvo, nada dito, vagas promessas perdidas em forma de soltas palavras.

Nenhum mísero sinal, nenhum. Nem sequer de primitiva fumaça. Nada. Só falta agora acionar o infalível oráculo, mas temo que também falhe, como sempre tem falhado.



sábado, setembro 28, 2002



Tudo travado

Acometido de um maldito comedimento tô aqui quase desesperado, só na espreita. Vai ver que é por isso: como também não extrapolo, nada rola.



quinta-feira, setembro 26, 2002



Aqui ou acolá?

Diz o povo das matemáticas que toda teoria só se confirma quando pode ser provada pelo tira-teima dos números. Eu cá penso que certas teorias de tão justas e belas já nascem provadas e não carecem da prova dos noves, e seria até muito triste se se provasse o contrário. Então deixa lá, sem mexer pra não quebrar o encanto.

Pois sim, li agora uma apaixonada defesa da teoria do Universo Paralelo, esse que tá logo ali, embaixo, em cima ou derredor, não se sabe, mas tá, diz a criatura com absoluta convicção. Certo é que por não saber quase nada duvido de tudo, e por isso quase sempre sou atropelado pelas certezas embutidas em cada dúvida.

Embora se diga que aquele Universo Paralelo seja capaz de fazer coisas medonhas como sugar, sem deixar vestígios, pessoas e coisas pro lado de lá, continuo pensando que se ele existe é inofensivo. Meu receio é que um dia se comprove a sua existência, e através disso se descubram as passagens secretas e todo mundo migre pra lá em busca do seu outro um que habita ali, e esse mundo de cá fique deserto e se acabe, e sobrando só um mundo morre a estimulante esperança de ter outro melhor. Então deixa estar.

Minha única grande dúvida é se eu tô no paralelo de lá querendo me mandar pro de cá, ou se tô no daqui querendo tá algures no outro lado.


quarta-feira, setembro 25, 2002



Bologna

Desde ontem que eu perambulo procurando por mim. Fui dormir me lembrando de Bolonha e acordei certo que aqui era lá. Sim, aquela ali na Emilia Romagna cuja universidade é a mais antiga do mundo e segundo se afirma por lá começou com seus cursos em 1088. Pois sim, aquela das três portas de entradas em ruínas, cidade onde o pasto é honesto do primo ao último prato, o gosto do vinho bom, o povo legal e os monumentos são deslumbrantes e se harmonizam com a arquitetura cheia de arcos.

E pra continuar perdido abri agora uma garrafa de vinho de lá.


terça-feira, setembro 24, 2002



Fragor

Será que silêncio é grito abafado?

segunda-feira, setembro 23, 2002


Cansando das trilhas e da falta delas
         (fragmentos de sonhos)

Terra bravia essa, virgem de arado, pneu e gentes. Só produz dificuldade pra viventes bestas assim que nem eu que vez por outra se aventura fora das estradas pra dar uns sacolejos nos ossos testando os limites do cansaço como fiz sábado e domingo. O corpo sempre reclama dessas bordoadas desnecessárias, dessas lamas e pedregulhos, desses buracos, abismos.

Mas parece que a alma gosta. Se não fosse assim não me azucrinava o juízo toda vez que se aproxima um fim de semana pra dar esses rolês malucos que sempre me deixam moído.

Desconfio que enquanto não der cabo desse off-road que me espia desafiante naquele canto da casa vai ser assim, ou vai ser pior e um dia me arrebento sem conserto.


quinta-feira, setembro 19, 2002



Colo

Qualquer afago, um afeto.


quarta-feira, setembro 18, 2002



Uma abala, a outra corta a carne

Ela é moça de pele apreciada pelas marcas caprichadas de corantes que lhe decoram o corpo, e de quando em vez acrescenta mais um, como o último, segundo me disse, um baudelaire no braço esquerdo tirado do mon coeur mis à nu "sois toujours poëte même en prose"

Tem alma livre que circula pelas tormentas das almas ora serena, ora aflita. Mexer com as palavras é seu ofício, mas pensa em restringir o que precisa dizer porque considera que tudo cabe em exatas 17 sílabas.

Mandou dizer que numa fúria pueril desbastou a vasta cabeleira e deixou lá um moicano feito uma taturana gigante desafiando olhares. Já traduziu umas obras por aí, e ali no seu até parece decifrou Anne Sexton em dois poemas, esculpindo palavras como quem talha a canivete sangrando os sulcos porque com Sexton tem que ser assim, e pra entender precisa ter o coração meio underground e a cuca em transe. Nunca vi Lavínia mas aprecio o imenso brilho que sua cabeça (agora) pelada tem e tenho por ela muito apreço.

Vamos nessa:

A viciada

Patroa da morte,
patroa do sono,
com cápsulas na mão toda noite.
Oito por vez, de doces vidros farmacêuticos.
Faço os preparativos para uma jornada de miligramas.
Sou a rainha dessa condição.
Sou uma mulher viajada.
E agora me chamam de viciada.
Agora me perguntam por quê.
Quê?

Não sabem
que eu prometi morrer!
Estou praticando.
Só mantendo a forma.
As pílulas são uma mãe, melhorada,
de todas as cores e bom como bala azedinha.
Estou fazendo a dieta da morte.

Sim, admito.
Tornou-se um certo hábito.
Oito por vez, no olho,
enlevada pelo rosa, o laranja,
o verde e o boa-noite branco.
Estou virando meio combinação
química.
É isso!

Meu estoque
de comprimidos
tem que durar anos e anos.
Gosto mais deles que de mim.
Teimosos do inferno, não me deixam.
É tipo um casamento.
Tipo uma guerra
e eu jogo bombas pra dentro
de mim.

Sim
eu tento
me matar em pequenas porções,
ocupação inócua.
Na verdade, estou amarrada nela.
Mas lembre que eu não faço barulho demais.
E, francamente, ninguém precisa me arrastar,
não fico por aí enrolada nos lençóis.
Sou um docinho na minha camisolinha amarela.
Engolindo minhas oito porções de uma vez,
e na ordem como
se postasse as mãos
ou no sacramento negro.

É uma cerimônia
mas, como em qualquer esporte,
cheia de regras.
É como um jogo de tênis com música
e a minha boca sempre pega a bola.
Depois eu jazo no meu altar
elevada pelos oito beijos químicos.

E que alívio é isso:
dois rosa, dois laranja,
dois verdes e dois boa-noites brancos.
Fuein-fuein-fuein-fuein-fuein.
Agora bateu.
Agora eu senti.

Tipo essa

Saí, bruxa possuída,
assombrando o ar, corajosa na noite preta,
me achando má, lição aprendida,
de janela acesa em janela acesa.
Coisa só, dos doze dedos, avessa.
Mulher assim não é mulher, não que se preza.
Eu fui tipo essa.

Descobri as cavernas quentes da floresta,
enchi de prateleiras, desenhos, relevos,
armários, sedas, inumeráveis coisas;
fiz a janta pros vermes e pros elfos:
arranjando o desarrumado, chorosa.
Mulher assim é incompreendida.
Eu fui tipo essa.

Andei no seu carro, moço,
Passei pelas cidades com os braços de fora, abanando pra elas.
Aprendendo os caminhos menos espertos, colosso,
as chamas ainda me mordendo as coxas,
as costelas partindo quando giram a manivela.
Mulher assim não tem vergonha de finar-se.
Eu fui tipo essa.


terça-feira, setembro 17, 2002



Absinto

Se eu fosse de beber em demasia e tomasse o último gole como quem toma o primeiro e bebesse todas como quem não bebe nada. Se fumasse, tragasse tudo, e a fumaça sempre me desse a ilusão de bruma pra que meus pulmões agüentassem as refregas dessas noites fumadas, e se a folia fosse o meu único consolo tomaria emprestado de Bandeira, aquele Manuel, que mesmo tísico gozou a vida e morreu de velho, esses versos de Bacanal e cantaria com muita força toda vez que caísse na gandaia.

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
(...)

sábado, setembro 14, 2002



Tola alma

Passional alma, essa minha, que não suporta ver por outra alma apetecida uma que a ela lhe apetece.

quinta-feira, setembro 12, 2002



O gosto da vida

Tenho cá pra mim que grande parte do povo traz e tem uma escala de intensidades embutida dentro de si, imposta e esculpida pela anímica razão, burilada pelo tempo e que regula o exato tanto que se deve ter das coisas que alma reclama. E como tudo que regula tolhe, dosa o choro e o riso, a paixão e o desgosto, reduz espaços, controla os passos. Aí retém os sentimentos nos limites dessa tal auto-regulação, reprimindo em cada um o que cada deles estabeleceu ou pensa ser excesso. Assim, pesado e medido, esse povo é meio insosso.

Já o povo visceral, assim que nem eu, parece desprovido desses apetrechos regulatórios e daí, sem noção de escala, vive intenso tudo, do bagaço ao contentatamento. Pode até ser mais sofrido num momento aqui ou noutro acolá, mas a vida assim, desse jeito, quase nunca fica deserta e tem mais gosto pra saborear.


Urgência

Tudo urge,
pois o tempo
voraz ruge.


terça-feira, setembro 10, 2002



Uma mulher das minhas




Nasceu e viveu entre 1520/24-1566, ali na França e botou pra fora, nas palavras escritas seus litígios interiores, angústias, desejos, amores e fantasias. Naqueles tempos precisava ser muito mulher pra propagar o que lhe ia na alma, no coração, e o que ardia nos apelos do corpo, e ela, provavelmente aos 31, num livro, propagou como poucas.

Louise Labé, uma mulher pra lá do seu tempo, olhaí:

Beijai-me agora, e muito, e outra vez mais,
Dai-me um de vossos beijos saborosos
E depois, dai-me um desses amorosos
E eu pagarei com brasa os que me dais.
Virei vos socorrer, se vos cansais,
Com mais dez beijos longos, langorosos,
E assim, trocando afagos tão gostosos,
Gozemos um do outro, em calma e paz.
Vida em dobro teremos, sendo assim;
Eu viva em vós e vós vivendo em mim.
Deixai que vague, pois, meu pensamento:
Não dá prazer viver bem-comportada;
Bem mais feliz me sinto, e contentada,
Quando cometo algum atrevimento.

Quando, à noite, ao repouso me disponho
No meu macio leito recostada,
Minh'alma triste corre, libertada,
Incontinenti ao teu encontro em sonho.
E dentro em mim tanta alegria ponho
Por finalmente ver-me contentada
Nessa ventura tanto desejada
Que dos soluços já não me envergonho.
Oh noite, cheia de felicidade!
Fazei, do doce sono no aconchego,
Que se renove o sonho a cada dia;
E se minh'alma, por fatalidade,
Nunca puder de fato ter sossego,
Que possa ao menos tê-lo em fantasia.





domingo, setembro 08, 2002



Na raiz

Parece que nas coisas ditas do coração, e noutras tantas mais, toda solidez é efêmera e só dura o exato tempo que dura a circunstância que a faz sólida.


sexta-feira, setembro 06, 2002



Jaguatirica, felina maracajá




Elegante no andar e linda, de perfeita arquitetura e adequada compleição. Suave nos gestos, salta como quem voa e inventa ângulos no ar. Astuciosa, primeiro rasteja lento e depois dispara rápido, sempre certeira no bote, nunca erra porque desconcerta a presa pelo ato de observar.

Habita em quase todo canto e passeia com igual desenvoltura no chão da densa floresta, por entre escassos arbustos das intrincadas caatingas, na vastidão dos cerrados, nas sinuosas montanhas, e aí o clima ameno lhe deixa mais branda e lânguida. Tem destreza nas escaladas das árvores, nas águas dos córregos onde nada, bebe e se banha. O faro é apurado, o olho não falha, as garras são firmes e marcam fundo, a língua lambe antes de mordiscar pra melhor degustar o sabor da presa conquistada. Tem hábitos noturnos mas de dia também caça. É predadora e só tem um predador que lhe espreita.

Seduz o macho que quer, acasala no outono mas tem natureza solitária e busca em cada outono um novo par. Reage de forma semelhante em momentos desiguais: na ameaça do perigo e no desejo do cio com uma latente e controlada agressividade que transforma em luta ou gozo, feito as fêmeas das demais espécies.



Passa e fica





É na palavra escrita
que tudo se perpetua
e se grava e se registra
a minha paixão e a tua.


quarta-feira, setembro 04, 2002



Compulsória reclusão




Tem profissão que é assim, esquisita que nem essa que se abraçou comigo, e obriga, vez em quando, a gente se recluir junto com um monte de outras pra tentar ajudar resolver pepinos de organizações, as ditas empresariais e mais umas à beira da agonia.

E como quem produz problemas são as gentes que batalham nessas tais, há que se buscar saídas é nesse próprio povo. Aí pinta um inevitável desfile das nuances da natureza humana: da hipocrisia à sacanagem, da dissimulação ao oportunismo, de acusações e isenções de culpas e mais um monte de armadilhas que a inteligência humana é capaz de engendrar pra se safar ou lascar o outro.

Pois é, após três dias dentro dessa ventania, tentando dar um rumo pros vendavais, eis me aqui cansado pra caramba. Quase sempre tudo termina bem, e o tufão se transforma em leve brisa. Mas tô ficando enfastiado desse metiê. Qualquer dia deponho as armas, proclamo um definitivo armistício e ponho um boné, penduro os chinelos e vou zanzar descalço por essas orlas do mundo, por essas bordas e curvas, por esses ares colibri.