quinta-feira, janeiro 22, 2004


Amargor

A raiva que gera rancor é assim que nem essas torrentes instantâneas de tromba d'água que de tão bravias não reconhecem ou respeitam o leito e margens por onde costumeiramente correm.



segunda-feira, janeiro 12, 2004


Okavango




Comparo a vida das gentes com os caminhos dos rios e observo que tem deles que são tranquilos, tem outros mais tortuosos, tem uns que são caudalosos e tem os secos com os seus solos rachados, onde vez por outra pinta água e quando isso ocorre quase sempre eles transbordam. Mas têm um traço comum esses rios do mundo todo: correm sempre numa única direção (buscando o rumo do mar).

Há poucos rios no mundo que contrariam a lógica desse rumo, e invetem o seu percurso dando as costas pro mar-comum onde todos terminam por acabar. Um deles é o Okavango, na África, que com muita teimosia escolheu fazer o seu delta no meio de um imenso deserto, longe da monotonia do mar-fim-de-todos, onde desenboca e solitário sucumbe, criando diversificadas formas de vida onde ela parece impossível.

Rios assim subvertem a paisagem, pessoas assim mudam o mundo.


segunda-feira, janeiro 05, 2004


Memento mori



Enterrar seus mortos, cultuar a memória dos entes queridos, manter viva a lembrança nas lápides dos cemitérios com nomes gravados, estátuas esculpidas, fotos eternizadas. Isso é próprio das criaturas humanas que com seus profundos laços familiares e de amizade produzem essa coisa meio mórbida, essa ligação paradoxal com os defuntos amados.

Curtir, vez por outra, uma saudade de quem já se foi parece perfeitamente aceitável. A coisa se complica quando vira culto obsessivo, aí se transforma em doença da braba.

Aqui há uma coletânea de fotos antigas, registros de pessoas mortas, revelando esse estranho costume muito difundido no século XIX, principalmente nos países ditos cristãos. São fotos anônimas. Algumas de extraordinária plasticidade, e todas têm em comum uma profunda tristeza.