Pintura
Tirava tinta do fígado
e pintava o mundo de roxo
e as telas resultantes
reluziam violáceas
como as mortalhas dos mortos
segunda-feira, outubro 18, 2004
quarta-feira, julho 14, 2004
Buena?
Nessas andanças mundo afora dei de cara com um espaço musical cujo nome era Cabaré Cubano. Muita salsa, merengue e o escambal no ritmo da ilha. Aquilo lá é um barulho só, capaz de azucrinar até ouvido de roqueiro pauleira. Fui dar uma brechada, e embora a banda de plantão fosse competente, serviu pra constatar o que eu já pensava: o povo cubano tem molejo, muita alegria, mas a música, na sua estrutura melódica é pobre que dá dó.
terça-feira, julho 06, 2004
Paris pirocadora
Tava eu cá nesse far-niente, nesse ócio pós tormenta dos muitos mares navegados vendo o David, aquele Letterman do Late Show, modelo imitado pelo Jô, o nosso gordo. O cara é bom nessa coisa de espremer os entrevistados e tirar deles a coisa inusitada, escondida, e quase sempre dá certo, fazendo com que pessoa se exponha, se abra e tasque pra fora aquilo que normalmente fica trancado no absconso de cada um.
Pois sim, o bicho entrevistava uma galeguinha esbelta e bonita, que eu, um mané periférico dessas coisas fashions e de muitas outras, desconhecia. Tratava-se de uma tal Paris Hilton, que fiquei sabendo, descende de uma família abastada, dona dos hotéis Hilton e outros empreendimentos no mundo. Novinha, a criatura parece que tem 21 anos, mas já com muita rodagem no extra-mundo da moda, da pirocagem, e da química das drogas ditas lícitas e não.
A moça, ao que parece, independentemente dos seus atributos físicos que são muitos, ficou famosa mesmo foi por conta de um namorado sacana, que numa atitude de pura cafajestice filmou, sem seu conhecimento, e à média luz, uma desinibida sessão de sexo animal entre os dois, pra faturar em cima do evento, vendendo a fita.
Curioso que só, e despertado pelas pimentas da entrevista, escarafunchei a Internet procurando o danado do vídeo, e verifiquei que há uma avalanche de fitas falsas todas com o mesmo nome, denotando aí o oportunismo deslavado da pornoputaria. Achar o verdadeiro foi um garimpo duro, suado. Mas encontrei. É um videozinho mixuruca em termo de qualidade técnica. Filmado na penumbra, a imagem é que nem aquelas dos tiroteios do Iraque, cinza-brilhante. Em termos artísticos a moça se sai bem, o cara é um canastrão. Do ponto de vista das performances e embates carnais, nada que o kama-sutra não ensine.
Ela, sob efeito etílico, de fumaça, pó ou seja lá o que for, se solta. Lambe a fruta com gosto e zelo, faz malabarismo, se senta, fica de quatro, se esbalda em qualquer posição, e busca sempre aquela de mais profunda penetração, como de resto qualquer uma buscaria. O canastrão se esforça pra manter-se teso. Enfim, nada escandaloso ou revolucionário nas artes do vuco-vuco. Nada que não se soubesse ou se fizesse desde o início dos tempos. De interessante só o fato de ser uma coisa real, e não uma representação fuleira pornô, uma intimidade escancarada de dois jovens, e um deles bela, rica e meio-famosa.
Mas o que chamou mais atenção não foi a fodelança. Foi o fato de que já não se fazem famílias ricas como nos tempos de antanho. Ali o povo rico se esmerava na refinada educação dos filhos, consumia artes em todas as sua formas e havia uma preocupação na formação cultural e intelectual dos rebentos. No que era imitada pelas classes médias. Havia gosto pela leitura e tal. Durante a entrevista a moça revelou-se fútil, limitada, com parcos conhecimentos. Escrachava sempre que podia o ex-namorado, chamando-o de otário. Quase uma lástima.
Está fazendo um reality show numa tv de lá com uma amiga, tipo essa é a nossa vida. Parece que faz algum sucesso na esteira do escândalo. Revelou que não tem nada de real e é tudo premeditado, uma enganação.
Sinceramente, pelos predicados físicos, e pelas habilidades orais, manuais e vaginais, creio que a moça faria uma bela carreira como pornoatriz.
Pois sim, o bicho entrevistava uma galeguinha esbelta e bonita, que eu, um mané periférico dessas coisas fashions e de muitas outras, desconhecia. Tratava-se de uma tal Paris Hilton, que fiquei sabendo, descende de uma família abastada, dona dos hotéis Hilton e outros empreendimentos no mundo. Novinha, a criatura parece que tem 21 anos, mas já com muita rodagem no extra-mundo da moda, da pirocagem, e da química das drogas ditas lícitas e não.
A moça, ao que parece, independentemente dos seus atributos físicos que são muitos, ficou famosa mesmo foi por conta de um namorado sacana, que numa atitude de pura cafajestice filmou, sem seu conhecimento, e à média luz, uma desinibida sessão de sexo animal entre os dois, pra faturar em cima do evento, vendendo a fita.
Curioso que só, e despertado pelas pimentas da entrevista, escarafunchei a Internet procurando o danado do vídeo, e verifiquei que há uma avalanche de fitas falsas todas com o mesmo nome, denotando aí o oportunismo deslavado da pornoputaria. Achar o verdadeiro foi um garimpo duro, suado. Mas encontrei. É um videozinho mixuruca em termo de qualidade técnica. Filmado na penumbra, a imagem é que nem aquelas dos tiroteios do Iraque, cinza-brilhante. Em termos artísticos a moça se sai bem, o cara é um canastrão. Do ponto de vista das performances e embates carnais, nada que o kama-sutra não ensine.
Ela, sob efeito etílico, de fumaça, pó ou seja lá o que for, se solta. Lambe a fruta com gosto e zelo, faz malabarismo, se senta, fica de quatro, se esbalda em qualquer posição, e busca sempre aquela de mais profunda penetração, como de resto qualquer uma buscaria. O canastrão se esforça pra manter-se teso. Enfim, nada escandaloso ou revolucionário nas artes do vuco-vuco. Nada que não se soubesse ou se fizesse desde o início dos tempos. De interessante só o fato de ser uma coisa real, e não uma representação fuleira pornô, uma intimidade escancarada de dois jovens, e um deles bela, rica e meio-famosa.
Mas o que chamou mais atenção não foi a fodelança. Foi o fato de que já não se fazem famílias ricas como nos tempos de antanho. Ali o povo rico se esmerava na refinada educação dos filhos, consumia artes em todas as sua formas e havia uma preocupação na formação cultural e intelectual dos rebentos. No que era imitada pelas classes médias. Havia gosto pela leitura e tal. Durante a entrevista a moça revelou-se fútil, limitada, com parcos conhecimentos. Escrachava sempre que podia o ex-namorado, chamando-o de otário. Quase uma lástima.
Está fazendo um reality show numa tv de lá com uma amiga, tipo essa é a nossa vida. Parece que faz algum sucesso na esteira do escândalo. Revelou que não tem nada de real e é tudo premeditado, uma enganação.
Sinceramente, pelos predicados físicos, e pelas habilidades orais, manuais e vaginais, creio que a moça faria uma bela carreira como pornoatriz.
quinta-feira, junho 03, 2004
E o mar já não era
(fragmentos de sonhos)
(fragmentos de sonhos)
Agora, pés já postos neste cais nativo, piso na terra da minha terra e miro o mar de águas verdes que balança calmo. A pele ainda puída pelo sol e o sal, o corpo moído pelo frio e pelo balanço inconstante das ondas pede repouso, e mal chegado nas plagas de cá, meu coração odisseu já bate inquieto atiçando minha caseira alma.
Posso até ir, mas pelo mar, decerto não vou
.
Posso até ir, mas pelo mar, decerto não vou
terça-feira, maio 04, 2004
Bicho tropical
(fragmentos de sonhos)
(fragmentos de sonhos)
O mar tem muitos caminhos, cada qual com seus mistérios, seus balanços traiçoeiros e um grande horizonte de feitio circular. Dou-me conta, depois de dias iguais, tangenciando a beirada do tal círculo aqui chamado de antártico, que estamos descambando, pra alívio dos meus ossos, prum rumo oposto ao da ida.
E o rumo oposto ao da ida é o caminho de volta. E nessa vereda larga se avista pra além da estreita proa a formação de mormaço condensado em nuvens claras. E o vento que vem de lá é morno e gostoso que nem a quentura uterina. É o primeiro sinal que indica o bendito caminho de casa. Uma brecha nesse mar, uma vereda tropical. As águas quase paradas, a brisa escassa nem balança os rotos panos das velas de muitas formas e cores. E bate uma certa angústia por conta daquela paralisia. Diz o povo navegador, a quem faço companhia, que isso se chama de calmaria.
Primeira parada num cais meio primitivo, prazeroso pelo clima temperado, depois de um longo curso em frio absoluto. E essa aldeia se liga com o resto do mundo pelos sinais dos satélites. E aproveito pra contar sobre a ansiedade de chegar.
E o rumo oposto ao da ida é o caminho de volta. E nessa vereda larga se avista pra além da estreita proa a formação de mormaço condensado em nuvens claras. E o vento que vem de lá é morno e gostoso que nem a quentura uterina. É o primeiro sinal que indica o bendito caminho de casa. Uma brecha nesse mar, uma vereda tropical. As águas quase paradas, a brisa escassa nem balança os rotos panos das velas de muitas formas e cores. E bate uma certa angústia por conta daquela paralisia. Diz o povo navegador, a quem faço companhia, que isso se chama de calmaria.
Primeira parada num cais meio primitivo, prazeroso pelo clima temperado, depois de um longo curso em frio absoluto. E essa aldeia se liga com o resto do mundo pelos sinais dos satélites. E aproveito pra contar sobre a ansiedade de chegar.
segunda-feira, abril 12, 2004
Fahrenheit 32
Aqui, longe do meu morno habitat, onde o frio feroz maltrata a pele e os ossos e congela a alma, o desejo dominante, principalmente pro povo das zonas quentes do mundo, que nem eu, é por calor.
Aí, com a cachola embotada e o pensamento quase paralisado pela brisa glacial, constato que os sonhos, ao contrário do que se espalha por aí, mesmo petrificados, também envelhecem.
segunda-feira, março 15, 2004
Bocas
Afora os predicados naturais de inteligência sempre presentes na mulher, aprecio também os dotes físicos, esses curvilíneos que delineiam a silhueta delas. Formas roliças ou angulosas, todas me atraem. Gosto ainda das bocas e me amarro nos formatos delas, e há as que sugerem recato, comedimento, e parecem pudicas. Tem outras que evidenciam uma despudorada forma obscena. Essas são, pra mim, absolutamente avassaladoras.
terça-feira, março 09, 2004
Tiro
Mulher é mais carinhosa com os animais, por isso eles ficam mansos. Só não conseguiu ainda domar o homem, infelizmente.
De uma carroceira, mulher simples ali da tal base da pirâmide social explicando seu metiê a um repórter de televisão num noticário, em rede nacional, no dia 08, o dito internacional da mulher, naquelas surradas e repetitivas reportagens de todos os anos.
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
Viva Raimunda!
Já disse que fiz umas coisas na vida? Dentre as boas teve uma que foi legal pelo resultado e aventura. Pois sim, dava assessoria a uma agência internacional multilateral (avaliando projetos econômicos pra patuléia de baixa renda), uma dessas que o povo da esquerda escarlate radical adoraria comer com osso e tudo na época, e que hoje pelas circunstâncias estranhas que o poder cria estão assinando acordos, dançando a mesma música, coladinhos, assim num clássico dois-pra-lá dois-pra-cá.
Montamos escritórios em pequenas cidades do interior nordestino, muitos dos quais foram incorporados por uma organização, uma sociedade civil de âmbito nacional que dá suporte aos pequenos negócios não agrícolas, e continuam lá, nessa labuta.
Num desses, na montagem da estrutura local, presenciei as entrevistas de seleção das pessoas. E tava lá Raimunda, uma criatura serelepe, da zona rural, de 40 anos, analfabeta, vários dentes desintegrados pela cárie, 26 eventos uterinos entre abortos naturais e nascimentos, 15 filhos nascidos vivos mas só 9 resistindo. Pleiteava a vaga pra cuidar da limpeza geral da casa.
Apesar das tremendas dificuldades da vida era uma pessoa extremamente comunicativa e conquistou todo mundo com sua ingênua alegria. Então eu disse que ela ia ser contratada, mas tinha uma condição: tratar dos dentes.
Aí seu semblante mudou.
- Doutor faça isso comigo não, eu me tremo de medo desse povo. A dor ali deve ser braba.
E tascou:
- O senhor me acredita que eu prefiro ter um filho que arrancar um dente?
Recentemente, depois de uns quinze anos, dei as caras por lá de novo, dessa vez numa aventura pessoal, turística, e fui dar uma brechada no antigo escritório. Tava lá Raimunda, com a mesma alegria contagiante e um belo sorriso escancarado de dentes artificiais.
Revelou que ainda tava sexualmente nos trinques, mas o tempo tinha capado ela, e a família aumentou, mas agora por conta dos netos. Disse que era uma pessoa feliz. Falei pra ela que ainda procurava a minha.
- Mas o senhor é - ela disse.
Assim seja, Raimunda.
terça-feira, fevereiro 10, 2004
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
quinta-feira, janeiro 22, 2004
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Okavango
Comparo a vida das gentes com os caminhos dos rios e observo que tem deles que são tranquilos, tem outros mais tortuosos, tem uns que são caudalosos e tem os secos com os seus solos rachados, onde vez por outra pinta água e quando isso ocorre quase sempre eles transbordam. Mas têm um traço comum esses rios do mundo todo: correm sempre numa única direção (buscando o rumo do mar).
Há poucos rios no mundo que contrariam a lógica desse rumo, e invetem o seu percurso dando as costas pro mar-comum onde todos terminam por acabar. Um deles é o Okavango, na África, que com muita teimosia escolheu fazer o seu delta no meio de um imenso deserto, longe da monotonia do mar-fim-de-todos, onde desenboca e solitário sucumbe, criando diversificadas formas de vida onde ela parece impossível.
Rios assim subvertem a paisagem, pessoas assim mudam o mundo.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Memento mori
Enterrar seus mortos, cultuar a memória dos entes queridos, manter viva a lembrança nas lápides dos cemitérios com nomes gravados, estátuas esculpidas, fotos eternizadas. Isso é próprio das criaturas humanas que com seus profundos laços familiares e de amizade produzem essa coisa meio mórbida, essa ligação paradoxal com os defuntos amados.
Curtir, vez por outra, uma saudade de quem já se foi parece perfeitamente aceitável. A coisa se complica quando vira culto obsessivo, aí se transforma em doença da braba.
Aqui há uma coletânea de fotos antigas, registros de pessoas mortas, revelando esse estranho costume muito difundido no século XIX, principalmente nos países ditos cristãos. São fotos anônimas. Algumas de extraordinária plasticidade, e todas têm em comum uma profunda tristeza.
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