sábado, junho 30, 2001


Rara

A atenta moça, essa que escreve o ViOlinha é deveras instigante. Tem uma aguçada consciência cidadã e social e faz precisas e originais observações sobre as coisas do cotidiano que nos afetam. Daí que além de registrar aqui minha admiração, queria agradecer os generosos comentários dela sobre este meu incongruente blog

Outras palavras

A essa inquieta luna rossa também agradeço as referências lisonjeiras a este blog cá, no blog dela lá.

sexta-feira, junho 29, 2001


Permeando o tempo

Desde antanho, de muito atrás no tempo, que o sentimento do amor se incorporou aos viventes humanos como um diferencial dos outros animais viventes. E aí tanto traz alegria quando chega, quanto dissabor quando se esvai. E mesmo assim, provocando tais e previsíveis reações é tão bom que todo mundo quer ter e não vive bem sem um.

E por causa desses momentos tem hora que é exaltado e tem outras que nem tanto. Ainda assim, depois de uma desilusão quase ninguém desiste de continuar buscando outro de novo.

Foi sempre assim e vai continuar sendo. Taí Camões num dia qualquer, entre 1524 e 1580, remoendo suas aflições de amor, sua dor de cotovelo em dois sonetos.



Amor é Fogo

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,
é solitário andar por entre a gente,
é um não contentar-se de contente,
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é um ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

Busque Amor

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para manter-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai que de esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.



quinta-feira, junho 28, 2001


Vértice

Parece que alguém já disse que nos mistérios do amor, quando o encanto é maior que o desejo, a coisa logo pifa.

Pois digo que, se por outro lado, o desejo é maior que o encanto, também ligeiro degringola. Donde se conclui que o buraco é mais em cima, e quem tiver o domínio da arte de calibrar com precisão, na medida certa essas coisas, pode prolongar o deleite que todo amor no começo propicia. O diabo é que quase ninguém (nem eu), dispõe desse tal calibrador.


terça-feira, junho 26, 2001


Amo

O nó górdio da paixão não se desata com engodo, porque ninguém se engabela a si mesmo.

A consciência da puta

Tá o maior quiproquó na França. Pois sim, e é tudo por causa da velha e sempre onipresente corrupção que grassa cá e no resto do mundo. A que tá na boca do povo francês agora é a descoberta do esquema de propina que a estatal de petróleo Elf, a Petrobras deles, mantinha pra subornar autoridades de lá e de outros países pra facilitarem os interesses da tal. A merda respingou na Alemanha, na Espanha e em Taiwan, onde autoridades desses países também tão sendo investigadas.

Isso nem é novidade, assim pelo mundo. Mas o que me chamou a atenção foi o pagamento de 11 milhões de dólares que a Elf fez a Christine Deviers-Joncour para que se tornasse amante de Roland Dumas, uma referência do socialismo francês, que foi duas vezes ministro do exterior e chegou a presidência da Suprema Corte da França. Tudo pra que ela convencesse o homem a dá pareceres favoráveis aos negócios da estatal.

Pois é. Foi tudo descoberto. Tem uns sendo presos e outros se tremendo. A bela Cristine já pegou um ano e meio de cadeia. Aproveitou a tranqüilidade da cela e escreveu uma autobiografia com o interessante nome de La Putain de la République (A Puta da República). Consciência é isso aí.


segunda-feira, junho 25, 2001


Grite

Se ama diga, não negue nem fuja, e não deixe que isso se amofine por omissão ou fadiga.

Disparando disparates em cima do tédio

Sei que a depressão é uma doença escrota que se abate sobre muita gente boa. Sei de umas que padecem desse cíclico mal e quase se zeram de tanta inércia quando ela pinta. Diz lá a medicina que a origem é variada, até genética. Mas pra mim, que não entendo muito bem dos caprichos dos nerônios e seus efeitos no juízo da gente, penso que a principal causa desse avassalador abatimento nas pessoas é o tal do tédio absoluto.

 Na fornicação o povo prefere assim

Nas artes e artimanhas do chamego sexual, o que o povo deste nosso Pindorama mais gosta é da penetração vaginal mesmo. Depois, nas práticas da lambança a dois vem o beijo como preferência destacada lá nas cabeças. Abraço, sexo oral, masturbação a dois e sexo anal vêm em seguida.

Isso daí é parte da conclusão de um estudo, que tá resumido na Folha de ontem, coordenado por Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, que ouviu 2.835 gentes, em seis capitais e outras cidades, e tem o apoio do laboratório Pfizer. Vai ser apresentado agora no dia 27 em Paris, no XV Congresso Mundial de Sexologia.

Tá. Creio que é por aí mesmo. Nâo entendi muito bem por que o abraço foi citado como um item isolado. Pra mim o abraço é parte fundamental na prática das coisas todas.

sábado, junho 23, 2001



Tangentes

Tem hora que com afã ela se agita, noutra serena sossega, e vai digerindo devagar os paradoxos da vida.

sexta-feira, junho 22, 2001



Clandestino

Tô aqui e sei. Mas é lá onde ela tá que me encontro, porque aqui, toda vez que me procuro, dificilmente me acho.

Tempestuosa raça

A amargura é um mar que a raça humana inventou pra ter sempre um mar revolto, só seu e particular, onde pudesse a qualquer dia e a toda hora nele navegar.

quinta-feira, junho 21, 2001


Pranto

Dia a dia me convenço
que pra lágrimas de amor
é inútil ter lenço

quarta-feira, junho 20, 2001


Fatal

Ninguém vive no futuro. Todo mundo vive é hoje. Aliás, o futuro é o fim, pois é lá que tudo que hoje é vivo se acaba.

terça-feira, junho 19, 2001


Sortilégio

Tem uma coisa nela que me encanta. Essa é uma. Mas tem outras, e são tantas que nem sei quantas.

A natureza é cruel

Nesse final de semana prolongado vi um documentário sobre marsupiais, especificamente sobre cangurus. Me chamou a atenção a forma como eles nascem, e que me levou a deduzir ser completamente indolor. O bichinho nasce lá com pouquíssimos centímetros, parece até uma larva. Pelo tamanho reduzido o máximo que deve causar é cócegas na hora que tá saindo. A vulva nem se abre, ele desliza por ali, e faz uma longa (pra ele) "caminhada" indo se alojar naquela bolsa da mãe.

Na hora que tava vendo me lembrei de várias outras espécies de fêmeas que já vi parindo, e a impressão que me deixaram foi sempre de sofrimento, agonia e dor. Então por que as mães cangurus têm esse privilégio? Estão livres desse padecimento?

Só pode ser uma tremenda falha da natureza. Sim, porque se as fêmeas têm a anatomia talhada pra conceber e parir, qual a razão da dor na hora de expelir a cria, se na hora do vuco-vuco quase sempre é prazeroso? Será que nas cangurus, pra ficar tudo empatado, o doloroso é conceber? Sei lá eu. Só sei que é uma grande injustiça com as fêmeas essas coisas que são consideradas naturais pra elas, como menstruar e parir, terminarem por ser penosas pra maioria delas.

Daí que talvez eu não seja o único, mas certamente sou um dos poucos sujeitos no mundo a implicar com a natureza, a considerá-la imperfeita. Ou isso, ou então ainda estamos num processo de mutação, onde ela ainda não atingiu a perfeição alardeada. Se for isso, até atenua um pouco.

Então fica aqui o meu protesto contra a natureza, a dor física (as que vêm de dentro e as impostas), e as outras, aquelas da alma que igualmente doem. Que diabo de valia tem esse protesto, hein? Nenhum, mas não o retiro.


segunda-feira, junho 18, 2001


Isso

Simples e claro como beijo e água.

Detonando

Uma sucessão de percalços, percursos e deslocamentos. É isso a vida. Por vezes o que predomina mesmo é a imobilidade, e por razões que só cada um que se imobiliza sabe.

Mas são tantas trilhas, caminhos, estradas, veredas, uns retos, outros tortos, sinuosos, que só quem sabe deles é cada qual. Sabemos de onde saem, mas nunca sabemos onde vão passar, porque deles cuida o indefectível destino. E esse, por mais que a gente tente mudar seu curso, e decerto muda, teima em seguir seu próprio roteiro.

Astúcia é necessária pra redesenhar o suposto intinerário colado em cada um. Há que se negar o destino, os roteiros, o determinismo e mandar tudo isso pros quintos.



Lá, cá e alhures a malandragem é uma

O regime democrático com sistema representativo é, sem dúvida, o melhor. Mas é preciso tá atento porque produz umas coisas esquisitas. O Congresso americano, aquele lá de Washington, é composto por 535 parlamentares. Pois sim, os bichos não diferem muito de outros parlamentares do resto do mundo. Olhaí: 29 foram acusados de estupros ou violência no casamento, 19 estão sendo processados por passarem cheques sem fundo, 71 não podem mais ter cartão de crédito por conta de dívidas e 117 foram responsáveis pela falência de duas ou mais empresas. Malandragem não é exclusividade de país tropicano e cucaracho.

Mas tem uma diferença fundamental: lá não tem a tal da imunidade parlamentar, que aqui significa impunidade.


sábado, junho 16, 2001


Ovo goro

O desejo humano quando se instala não tem quem ponha freio. A prova disso é que tem um cara americano aí querendo vender os testículos pra financiar uma cirurgia de mudança de sexo. Diz ele que por dentro é mulher e por fora é masculino, e isso o incomoda pra caramba. Em vez dos penduricalhos ele quer ver ali no entre-pernas é uma vistosa vulva.

Não sou contra o sonho de cada um ou uma, e sou a favor do livre arbítrio de cada pessoa sobre seu corpo, mas me pergunto pra que diabo serve um par de ovos fora dali, do seu canto e de suas funções originais? Parece que as ciências ainda não se interessaram por esse tipo de transplante, e não sei se há alguma experiência dessas assim, de transformar mulher em homem com a genitália completa e tal.

Daí que o sucesso dessa empreitada pelo lado científico fica prejudicado, mas tem sempre a mídia sensacionalista que é capaz de comprar os possuídos do cara só pra ter exclusividade na divulgação e faturar em cima. Ô mundão danado.



Ela

Quando sinaliza sincera
me abala o juízo e o resto
e até penso que é paquera.

Taí, o povo das ciências pede perdão

Todo mundo sabe das terríveis experiências científicas com seres humanos realizadas por alguns cientistas alemães durante a segunda guerra. Os judeus foram as maiores vítimas, outros grupos étnicos também sofreram.

Os nazistas utilizaram crianças, mulheres e homens como cobaias humanas e involuntárias, como se fossem ratos de laboratório, nos campos de concentração em experimentos macabros, alguns tão sádicos que parecem desprovidos de qualquer interesse científico.

No dia 7 deste mês, conforme a revista Science Now, a Sociedade Max Planck, a principal entidade científica da Alemanha e sucessora da Sociedade Kaiser Wilhelm, a tal que perpetrou os mais abomináveis estudos na época, iniciou um processo formal de pedido de desculpas aos sobreviventes que não são muitos. Pra se ter uma idéia da dimensão do estrago, só as experiências de Joseph Mengele com gêmeos em Auschwitz, envolveram 1500 crianças, das quais somente 200 sobreviveram à guerra e apenas 80 estão vivas.

Falta ainda a divulgação dos detalhes cruéis dessas pesquisas. O pedido de perdão não extingue a culpa, mas o reconhecimento dela, da culpa, já é um avanço nessa luta pela humanização dessa nossa raça animal.


sexta-feira, junho 15, 2001


Dúvida

Nas coisas assim, do amor, do querer bem, tem uns momentos que percebo que me movo mesmo é por premissas apenas premonitórias. Umas tolas, outras quase. Aí me pergunto se isso é um defeito congênito só meu, ou desse gênero com essa natureza masculina, ou se é mesmo uma monumental característica dessa combalida espécie humana.

Certeza (?)

Quem reluta não quer, posto que quem quer não vacila.

quinta-feira, junho 14, 2001


Lancinante

Singelo palpite:
se a dor não passa
abra a boca e grite.

De olho nos grilos

Na época em que De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, foi exibido nos cinemas não fui ver. Somente ontem vi em vídeo. Kubrick é um dos pouco diretores americanos que eu gosto e de quem pode se dizer que deixou obras e não produtos, como é comum na tal indústria cinematográfica de Hollyood.

Esse filme tá longe de obras como 2001- Uma Odisséia No Espaço, Doutor Fantástico ou Laranja Mecânica, mas ainda assim tem a marca dele, embora ele tenha morrido sem conclui-lo. Aborda a onipresente encucacão dos viventes humanos. É um filme repleto de fantasmas e grilos atormentando um casal. Ela grilada por uma transa não transada com um estranho que viu uma única vez. Ele cheio de fantasmas dessa transa imaginada tenta dar o troco imaginando que numas aventuras se quitavam. Bom filme. A conclusão deles, no final, sugerida por ela ( pra espantar grilos e fantasmas), é que o pra sempre não existe, e que eles precisavam mesmo era do que estava faltando entre os dois: trepar. Nada mais Kubrick e terapêutico pra casos assim.


quarta-feira, junho 13, 2001


Estrela

Periférica e fera
alçada ao centro
hoje é histérica.

Ser feliz, ou sucinto e confuso guia da felicidade

Cada vez que me meto a querer deslindar os mistérios dos miolos dos outros termino é entortando os meus. E sempre que me atrevo a invadir esse espaço da natureza humana digo bobagens ou me ferro. Mesmo assim, lá vai. Sei, só de observar, que a natureza de cada um é única, daí a dificuldade de generalizar. Com o perdão dos rompe-cucas, os tais psicanalistas, aqueles que têm lá suas técnicas pra tentar consertar as almas dos outros (e se não consertam, pelo menos ficam conhecendo mais uma natureza), e também de outros bambambãs que tais, vou botar duas pitadas de heresia aqui no barato da felicidade.

Pois sim, tem umas gentes que recusam a tal da felicidade fugaz, a dos "momentos felizes", por transitória, e buscam o ideal da felicidade permanente, e como parece que essa só existe no âmbito dos desejos, isso pode ser uma escolha deliberada, ou não, pela infelicidade, pelo sofrimento trepidante. Mas enfim é uma escolha. E escolha, às vezes, é uma coisa tão incongruente, que nem mesmo quem escolhe sabe a razão, o porquê.

Minha singela conclusão é que sofre mais quem busca ser feliz em tempo integral, e procura apenas dentro de si mesmo os ingredientes que possibilitam isso. Tirante aí as contradições que todo mundo remói, e triturando sem pena nem dó os conflitos que cada um tem, sobra um pequeno espaço pra felicidade. Como esse espaço resultante é pequeno carece saber aproveitar bem. Assim é importante entender que os momentos de felicidade que cada qual pretende tá também em cada outro. Complicado? Nada, é só tentar juntar porque a cura desse mal pode ser o outro.


terça-feira, junho 12, 2001


Tosco

Todo truque
se revela pífio
como um traque


Neura

A raça humana
cada vez mais se confina
em si, nessa aflição urbana

segunda-feira, junho 11, 2001


Piração recorrente

Todo dia eu piro um pouco. Tem dia que piro mais. Hoje parece que pirei total. Os miolos se rebelaram e não atendem aos apelos da dita razão. E fico cá só espreitando, esperando o resultado do conflito dessas minhas duas incompatíveis bandas: a contida que reclama e a maluca que inflama. Pois sim, já devia até ter me acostumado com essas contendas internas e cotidianas, que não são de hoje. A de hoje é sobre as delicadas coisas das querenças.

A banda que se diz boa sugere que eu me resguarde, que me segure pra não cair depois numa boca quente, dessas que deixam a gente remoendo sozinho as dores que quase sempre isso pode provocar, principalmente se o querer não tiver correspondência no lado de lá e tal e blá... A doidonda rebate e insinua que o querer é cego e qualquer norte que não seja ditado pelos instintos não vale a pena seguir, e se acovarda quem não corre atrás e foge do risco de se apaixonar e tereré e tarará...

Tá. Quando essa peleja terminar decido que rumo tomar. Isso se essas piradas bandas deixarem.



Tempo

Lá, quando ela
ainda nem viera,
a vida comigo
já era severa.

sábado, junho 09, 2001


Nostalgia

Há pouco tava ouvindo a trilha sonora de Blade Runner. As duas músicas dessa trilha que eu mais gosto são Love Theme e One More kiss, Dear. Elas me pegam de proa. Aliás esse filme é um marco nessa guinada hollyoodiana pras bandas da metafísica. Foi feito em 1982. Virou cult. A partir dele fizeram uma porção, inclusive esse badalado Matrix, que não chega nem perto.

O diferencial é Ridley Scott e sua estética caótica, que nos sugere um futuro desordenado e sombrio, onde as cidades mais parecem as atuais asiáticas, cheias de gente e comida nas ruas. Portanto mais condizente com a realidade que vem por aí, do que as cidades limpas e organizadas que alguns imaginam. E ainda tem a sensível abordagem da relação humano/não humano e as previsíveis dificuldades desse relacionamento. (Essas dificuldades e impossibilidades também ocorrem no relacionamento humano/humano, né?). Sem dúvidas, um filme competente, um excelente filme.


quinta-feira, junho 07, 2001


Pelo equilíbrio

Tava lendo por aí que vai se realizar um congresso mundial desse povo das antropologias, e o tema principal vai ser a evolução da mulher na sociedade através dos tempos.

O tema é bom, mas tem aí umas controvérsias que começam logo ali no início, no reinado das fêmeas humanas sobre o macharal. Aquela utópica experiência matriarcal, onde no topo da organização social e política a mulher preponderava. Há uns e umas que descartam essa experiência como verdadeira.

Pois eu cá penso creio que já foi assim um dia, naquele tranqüilo e gostoso período neolítico, aquele onde ainda se polia pedra. Acredito que foi uma época boa e amorosa, porque as mulheres amam amorosamente. As pesquisas arqueológicas revelam a inexistência de armas defensivas naquele tempo, o que sugere harmonia.

Talvez a força masculina tenha sufocado, ao longo do tempo, a suavidade e o equilíbrio dessa harmonia, substituindo-a pela força bruta. Acredito que o fim do matriarcado se deu quando o homem descobriu que era ele quem fecundava, e aliou isso a idéia de poder (essa coisa sempre deletéria). E talvez a mulher não tenha conseguido demonstrar que gerar (gestar) tinha (tem) a mesma importância. O resultado disso tudo é que mundo não ficou melhor com o patriarcado guerreiro. Só piorou de lá pra cá. Mas creio que o melhor mesmo seria uma organização social onde mulher e homem tivessem o mesmo status, de verdade.



Banal

Trepar por trepar
sei que já faz parte.
Mas tá se perdendo
o que tinha de arte

terça-feira, junho 05, 2001


Tu

Toda vez que ela acena
com sinuosa metáfora
penso que é jogo de cena
e que em vez de dentro, tô é fora

segunda-feira, junho 04, 2001


Na zona do delírio

Tem vez assim que um desencontro, um desentendido no amor, uma pretensão descartada, essas coisas me deixam borocoxô, que até penso em me mudar pro tal do dito mundo metafísico, aquele onde os semideuses comandam, e tudo se resolve com indolor precisão. Ali, o humano é quase nada, e se pode tudo, e tudo se subverte, principalmente na física, e as paralelas se encontram desde o início do traço. Nesse mundo não há distinção entre o novo e o mais antigo, e os dois se conjuminam numa perfeita harmonia.

Mas o diabo desse mundo, desse nosso natural, onde tudo se reduz ao que à natureza convém, dá uma rasteira na gente e acaba com o delírio, pois tudo aqui é contado e é medido e nem as pedras se encontram com muita facilidade, embora se diga o contrário.

A diferença fundamental entre este daqui e o de lá é a forma de se relacionar. Naquelas imaginárias bandas toda relação é fria, igual e racional. Nas bandas de cá, quase sempre é quente, emocional e intensa, muito embora não se saiba com exatidão se vai pra frente ou se acaba.

A mim me apetece a relação que incendeia. Daí que mesmo com toda instabilidade da humana coisa, das surpresas e sobressaltos, e até das eventuais impossibilidades, é nesse mundo de cruel realidade que eu prefiro viver. Pra mim, é melhor o inusitado que provoca rebuliço, que a certeza cheia de monotonia.



Uma premissa

Quase tudo na vida de qualquer dois, parelha ou par (ou não), que dependa do outro, só tem sentido e é bom se cada outro tiver a fim e quiser.

sexta-feira, junho 01, 2001


Faxine-se


Gosto desse povo das ciências. Gosto das ciências também, emboras elas sejam que nem facas de dois gumes, cortando pro bem e pro mal. Mas essa é outra estória.

Pois esse povo, vez em quando expõe nossas mazelas, e prega uns sustos nessa nossa espécie já tão sobressaltada. Recentemente, com o mapeamento do genoma humano eles descobriram que pra gente ser rato faltou pouco. Agora li naquela revista Equilíbrio, da Folha, um cientista revelando que o homem “ (...) hospeda mais de 500 bilhões de espécies de microorganismos vivos no corpo, entre bactérias, protozoários e fungos”. Quer dizer, nós não somos muito diferentes de um saco de lixo ambulante. Mas o infectologista Esper Kallas, da Unifesp, ameniza, dizendo que em geral, a convivência costuma ser boa. Olhaí: "A situação só se complica quando eles começam a se multiplicar de forma exagerada, provocando desequilíbrio interno e fazendo o homem adoecer".

Sei não. Penso que faltou ele dizer que precisa mesmo é muita água, sabão e purgante pra gente se manter limpinho por fora e pelo avesso.