quinta-feira, fevereiro 12, 2004


Viva Raimunda!

Já disse que fiz umas coisas na vida? Dentre as boas teve uma que foi legal pelo resultado e aventura. Pois sim, dava assessoria a uma agência internacional multilateral (avaliando projetos econômicos pra patuléia de baixa renda), uma dessas que o povo da esquerda escarlate radical adoraria comer com osso e tudo na época, e que hoje pelas circunstâncias estranhas que o poder cria estão assinando acordos, dançando a mesma música, coladinhos, assim num clássico dois-pra-lá dois-pra-cá.

Montamos escritórios em pequenas cidades do interior nordestino, muitos dos quais foram incorporados por uma organização, uma sociedade civil de âmbito nacional que dá suporte aos pequenos negócios não agrícolas, e continuam lá, nessa labuta.

Num desses, na montagem da estrutura local, presenciei as entrevistas de seleção das pessoas. E tava lá Raimunda, uma criatura serelepe, da zona rural, de 40 anos, analfabeta, vários dentes desintegrados pela cárie, 26 eventos uterinos entre abortos naturais e nascimentos, 15 filhos nascidos vivos mas só 9 resistindo. Pleiteava a vaga pra cuidar da limpeza geral da casa.

Apesar das tremendas dificuldades da vida era uma pessoa extremamente comunicativa e conquistou todo mundo com sua ingênua alegria. Então eu disse que ela ia ser contratada, mas tinha uma condição: tratar dos dentes.

Aí seu semblante mudou.

- Doutor faça isso comigo não, eu me tremo de medo desse povo. A dor ali deve ser braba.

E tascou:

- O senhor me acredita que eu prefiro ter um filho que arrancar um dente?

Recentemente, depois de uns quinze anos, dei as caras por lá de novo, dessa vez numa aventura pessoal, turística, e fui dar uma brechada no antigo escritório. Tava lá Raimunda, com a mesma alegria contagiante e um belo sorriso escancarado de dentes artificiais.

Revelou que ainda tava sexualmente nos trinques, mas o tempo tinha capado ela, e a família aumentou, mas agora por conta dos netos. Disse que era uma pessoa feliz. Falei pra ela que ainda procurava a minha.

- Mas o senhor é - ela disse.

Assim seja, Raimunda.


terça-feira, fevereiro 10, 2004


Palustra lambe

Licodemus, papaguases,
fura-bolo, tira-teima e ananás,
pirulito, rala-bucho,
ximbica, umbigo e sovaco,
entre-coxas, pica, amplexo,
vuco-vuco, peito e vácuo.
Palavras soltas ou inventadas
de supetão dão em nada?


sexta-feira, fevereiro 06, 2004


Dúvida

De que serve sentir?