terça-feira, outubro 29, 2002
segunda-feira, outubro 28, 2002
Ambíguas visões bíblicas da estrela


(Nebulosa de Lagoon e uma estrela lá - Foto Hubble)
Fez Deus dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite. Fez também as estrelas
(Gênesis !:16)
O terceiro anjo tocou sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas
(Apocalipse 8:10)
Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados.
(Mateus 24, versículo 29)
Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que converterem a muitos para a justiça, como as estrelas sempre e eternamente.
(Daniel 12:3)
Uma é a glória do Sol, e outra é a glória da Lua, e outra é a glória das estrelas; uma estrela difere em glória de outra estrela
( Coríntios 15:41)
Emboras subas ao Alto como águia e coloque o Teu ninho entre as estrelas, dali te derrubarei diz o Senhor
(Obadias 1: 4)
Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam e rejubilavam todos os filhos de Deus?
(Jó capítulo 38, versículo 7)
E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas...
(Apocalipse 8. 7-11; 11.15)
sexta-feira, outubro 25, 2002
quinta-feira, outubro 24, 2002
Carbono 14
Mal comparando, o tempo parece um terrível moinho com sua implacável engrenagem: fuso sulcado, fendado em forma de rosca infinita. Uma cruel espiral que tritura devagar a vida de cada um, e vai moendo sem piedade pele, osso e coração, idéias e sentimentos.
Amassa, mistura e compacta. Transforma pedra em pó, vinho em vinagre, vida em nada e nada em qualquer coisa. Assim é o tempo, e pra mim é ele que gera as patologias todas, as físicas, as das cucas e as ditas sociais. É o grande nó que não desata e só aperta.
quarta-feira, outubro 23, 2002
Eu gosto daquelas espevitadas feministas dos anos 70 que, com ira e graça, chamavam a atenção do macharal mandão pra sua insuportável condição de inferioridade por eles imposta em tudo quanto era coisa na vida, queimando nas públicas praças os apetrechos que simbolizavam, segundo elas, essa dominação como as calcinhas e os hoje indispensáveis califons que dão importante sustentação aos peitos e são cientificamente reconhecidos como importantes pra saúde daquelas belas partes.
Conseguiram que o mundo enxergasse essa odienta discriminação que dura desde quando o matriarcado perdeu força, e deram um chega pra lá na consciência de um bocado de gentes. Incorporaram, além de muitos aliados masculinos, algumas conquistas fundamentais nas áreas profissionais e pessoais e demonstraram seu extraordinário valor.
Mas falta muito pra desejada igualdade de oportunidades e condições no mundo e aqui. Taí o Relatório Nacional Brasileiro desenvolvido pelo povo das organizações não governamentais revelando que cá neste nosso imenso Pindorama a coisa avançou quase nada, apontando coisas espantosas assim:
- o emprego doméstico ainda é a principal ocupação da mulher e 76% das domésticas não têm registro em carteira e 88% ganham menos do que dois salários mínimos.
- as mulheres trabalhadoras recebem o equivalente a 60,7% da remuneração dos homens
- a impedernida CLT discrimina as mulheres
- a cada 15 segundos uma mulher é espancada
- de 85 para cá, as mulheres aumentaram a sua taxa de atividade em 47,6% e os homens, 73,6%.
- as mulheres brasileiras representam 40,4% da população economicamente ativa e na administração pública federal, 43,8%
E por aí vai. Será que a luta arrefeceu ou o povo indignado daquele tempo se escafedeu?
quarta-feira, outubro 16, 2002
Voto
O povo mais novo só sabe por leitura ou informação oral que teve um tempo, não muito longe, neste patropi, que o ar era escasso e a luz pouca o que resultava em dias e noites escuros que nem breu.
Gritar nas ruas era risco de vida, liberdade era palavra quase banida. Bota e baioneta eram a lei. Foi nesse tempo que uma catarse pessoal me catapultou ainda verde de vida pro combate e arrisquei minha jugular por mais luz e ar. Sobrevivi sem sequelas e dou graças pela aragem abundante e a luminosidade de sobra que desfrutamos agora. Sei que isso só não basta e o povo precisa de mais umas coisas essenciais à vida.
Por conta de ter vivido isso miro meio zonzo esse embate definidor de agora e torço pra que todo mundo entre nele consciente e saque que, qualquer que seja o resultado, a sinuca de bico permanece e o paraíso prometido tá longe que só. Torço pra que não se entre numa catarse coletiva porque ela pode até lavar a alma mas quase sempre joga o corpo no abismo como a história tem provado. É preciso entender os obstáculos pós-vitória (ou derrota) ou então a frustração pós-catarse pode virar um redemoinho e mandar tudo pro beleléu.
terça-feira, outubro 15, 2002
As vias
A busca do prazer tá imiscuída em nós, e de cedo se procura. Uns, por facilidade de informações nos dias de hoje, já sabem o caminho. Outros se fiam só nos instintos e por pura inocência ou escolha tateiam no sentido literal das coisas e só encontram pelo método da tentativa e erro. Por ambas veredas se chega lá, mas qual dará mais destreza lúdica?

domingo, outubro 13, 2002
Quem? x Quem?
Pelo jeitão dos conchavos nos bastidores, pela qualidade das adesões e aceitação festiva delas por cada um dos lados em disputa já dá pra perceber que a perspectiva de poder além de deletéria é máquina infernal capaz de transforma ética e compromisso em bosta e outros dejetos.
Lampedusa, aquele lá que escreveu Il gattopardo e botou na boca do seu príncipe-personagem que tudo precisava mudar pra continuar igual tinha mesmo uma profética e escrota razão. No final quem se lasca é quem acredita pia e puramente.
sexta-feira, outubro 11, 2002
Eus desvelados
Eu moro em mim, é o que me tentam fazer crer os psicanalíticos compêndios desse povo rompe-cuca. Não sei se de fato moro, mas desconfio que é em mim que enterro meus mortos, minhas lembranças, cultivo meus canteiros e colho, e é de mim que ressuscito sonhos sepultados e me surpreendo. Ali meus nervos rangem, o sangue ferve nas veias que palpitam, a libido explode, e a paixão pulsa avassaladora. É lá, em mim, que brigo comigo em exaustivos embates da banda ousada com a mais contida. Nuns venço, noutros só me desgasto.
Mas de uma coisa já tenho quase certeza: a minha casa-mim deve ser imensa porque faz tempo que vasculho e ainda não dei conta de cada canto nem de cada eu dos eus que lá habitam.
quinta-feira, outubro 10, 2002
segunda-feira, outubro 07, 2002
sábado, outubro 05, 2002
Ciências Hilárias
Todo verso tem o seu reverso, inclusive nas ciências e nos prêmios que elas oferecem. Há sete ou oito anos acompanho a versão reversa do Prêmio Nobel que é o Prêmio Ig Nobel aqui e que se destina a quem faz pesquisas inúteis e ridículas, embora realizadas por cientistas sérios e publicadas em revistas científicas conceituadas.
O criador do prêmio é Marc Abrahams da revista humorística Anais da Pesquisa Improvável ( Annals of Improbable Research) e os de 2002 foram entregues esta semana em Harvard.
Taí os ganhadores:
MEDICINA
Chris McManus, do University College de Londres pelo relatório sobre Assimetria Escrotal no Homem e na Escultura Antiga
BIOLOGIA
Norma E. Bubier, Charles G.M. Paxton, Phil Bowers, and D. Charles Deeming, do Reino Unido por um artigo sobre o comportamento sexual de avestruzes em fazendas de criação e diz lá que elas se apaixonam pelos humanos e fazem seu ritual de acasalamento se oferecendo pra eles.
FÍSICA
Arnd Leike, da Universidade de Munique pela demosntração de como o colarinho da cerveja (ou chopp) arreia obedecendo à lei matemática do decaimento exponencial
PESQUISA INTERDISCIPLINAR
Karl Kruszelnicki, da Universidade de Sydney por pesquisa sobre os fiapos de tecido preso no umbigo
QUÍMICA
Theo Gray, da empresa Wolfram Research, in Champaign, Illinois por bolar uma tabela periódica em forma de mesa
MATEMÁTICA
K.P. Sreekumar e G. Nirmalan da Universidade Agrícola de Kerala Agricultural University, India pelo relatório sobre a estimação da área total da superfície dos elefantes indianos (elephas maximus indicus)
LITERATURA
Vicki L. Silvers da Universidade de Nevada-Reno e David S. Kreiner da Universidade Estadual de Missouri pelo artigo Os efeitos do Sulinhamento Inapropriado e Preexistente na Compreensão da Leitura
PAZ
Keita Sato, Presidente da empresa Takara Co., Dr. Matsumi Suzuki, Presidente do Laboratório Acústico do Japão, e Dr. Norio Kogure, Diretor Executivo do Hospital Veterinário Kogure por promoverem a paz e a harmonia entre as espécies pela invenção do Bow Lingual, um equipamento de tradução automática cachorro-homem
HIGIENE
Eduardo Segura, da Lavakan de Aste, de Tarragona, Espanha pela invenção de uma máquina de lavar cachorro e gatos
ECONOMIA
Executivos, Diretores e Auditores de 28 empresas multinacionais, entre elas Enron, Lernaut & Hausbie, Adelphia, Bank of Commerce and Credit International, Cendant, CMS Energy, Duke Energy, Dynegy, Gazprom, Global Crossing, HIH Insurance, Informix, Kmart, Maxwell Communications, McKessonHBOC, Merrill Lynch, Merck, Peregrine Systems, Qwest Communications, Reliant Resources, Rent-Way, Rite Aid, Sunbeam, Tyco, Waste Management, WorldCom, Xerox, e Arthur Andersen pela adaptação do conceito matemático de números imaginários para uso no mundo dos negócios
Muito justo!
sexta-feira, outubro 04, 2002
Um santo
Esse Gregório de Tours ( 538(?)-594) aí era um cara fervoroso, tanto que virou santo. Misto de bispo e historiador gostava de escrevinhar e escreveu vários livros onde demonstrava sua devoção e fé, comentava Salmos, denunciava a fornicação no meio de parte do clero e até estabeleceu uma interessante cronologia do mundo começando por Adão.
No ano de 591 publicou a História dos Francos. Olha só a preocupação do bicho com os rumos e sobrevivência da tal de literatura há mais de 1400 anos atrás, e a sacação dele pra registrar os fatos pra posteridade, cravadas lá no prefácio:
O culto das belas letras está em decadência e morre nas cidades da Gália. Enquanto as boas e as más ações se realizam, a barbárie dos povos se desencadeia, as violências dos reis redobram, as igrejas são atacadas pelos heréticos e protegidas pelos católicos, a fé do Cristo torna-se mais ardente entre muitos mas indiferente entre outros, as igrejas igualmente estão enriquecendo pelos devotos e despojadas pelos infiéis, não podemos encontrar um único letrado bastante versado na arte da dialética para descrever tudo isso em prosa ou em versos métricos.
Freqüentemente muitos se lamentavam, dizendo: “Maldita a nossa época, pois o estudo das letras está morto entre nós e não encontramos no povo ninguém capaz de relatar por escrito os acontecimentos presentes”. Assim, como eu não cessava de escutar essas reflexões e outras semelhantes, disse a mim mesmo que, para que a lembrança do passado se conservasse, ela devia chegar ao conhecimento dos homens que estão por vir mesmo sob uma forma grosseira. Eu não posso calar os conflitos dos medíocres nem a vida daqueles que vivem honestamente. Eu fui sobretudo estimulado, por que freqüentemente escutei dizer em meu círculo, para minha surpresa, que um retórico que filosofa é apenas compreendido por um pequeno número, mas aquele que fala a língua vulgar se faz entender pela massa.
Pois sim.
quinta-feira, outubro 03, 2002
Carneiro ou boi
O povo daqui, dali e de qualquer canto desse mundo aqui é bobo. E não é de hoje, sempre foi assim conforme revela a nossa cruel história desde o nosso símio inicio. Espremido entre os espertos que comandam e os espertos que não estão nem aí, esse imenso contingente sempre se ferra. Tem a ingênua ilusão que protagoniza a história e por meio das artimanhas de gentes astuciosas se envolve tanto que perde até a alma. No final constata-se que lhe foi reservado apenas o coadjuvante papel de massa de manobra ou bucha de canhão. Na hora do pega pra capar é quem se estrepa primeiro na linha de frente. E tanto nas guerras como noutras coletivas batalhas é a fração mais dizimada.
Pra que não me acusem de presunçoso adianto logo que também sou povo, portanto, como quase todo mundo, bobo.
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