terça-feira, fevereiro 26, 2002
sábado, fevereiro 23, 2002
Travoso
Parece que tem hora que o mundo fica grená, e mais com um pouco tá lilás. Café com leite é a cor que predomina e tá tudo confuso nessas minhas precárias retinas.
Saindo aí do exótico mundo da cor pro saboroso mundo do paladar, ando desconfiado que pra mim ele tá é travoso. Bom mesmo é o mundo do tato pelas infinitas possibilidades de apalpar.
quarta-feira, fevereiro 20, 2002
Gregorianas
Parte do povo, desse que se ocupa de escarafunchar o quengo dos outros no ofício de consertar, diz que só quem tem ou teve a carne ferida, o coração destroçado ou a alma vilipendiada expressa melhor a crueza da dor sentida, o embargo do peito, a mágoa restante. A expiação pelo sofrimento, a perfeição pela vivência. Sei não.
Sei que Gregório de Matos (1623 - 1696) era muito bom, e ressentido o bicho se superava.
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa.
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
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De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.
Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.
sábado, fevereiro 16, 2002
Duas uruguaias
Em comum o país e a língua, o século XIX, tempo em que nasceram (1886 e 1895), a paixão desmesurada, o coração quente. Delmira Augustini tinha uns cachos com o escritor argentino Manuel Ugarte, mas casou com um cara fora do circuito da literatura e teve um trágico fim. O bicho era ciumento e intolerante. Foi assassinada por ele aos 27 anos, e o sacana também se matou na sequência.
Juana de Ibarbourou, a outra, teve uma vida mais tranqüila e morreu velhinha.
Taí elas.
Eros, yo quiero guiarte, Padre ciego...
Pido a tus manos todopoderosas
¡su cuerpo excelso derramado en fuego
sobre mi cuerpo desmayado en rosas!
La eléctrica corola que hoy despliego
brinda el nectario de un jardín de Esposas;
para sus buitres en mi carne entrego
todo un enjambre de palomas rosas.
Da a las dos sierpes de su abrazo, crueles,
mi gran tallo febril... Absintio, mieles,
viérteme de sus venas, de su boca...
¡Así tendida, soy un surco ardiente
donde puede nutrirse la simiente
de otra Estirpe sublimemente loca!
(Delmira Augustini - Otra Estirpe)
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Te doy mi alma desnuda,
como estatua a la cual ningún cendal escuda.
Desnuda con el puro impudor
de un fruto, de una estrella o una flor;
de todas esas cosas que tienen la infinita
serenidad de Eva antes de ser maldita.
De todas esas cosas,
frutos, astros y rosas,
que no sienten vergüenza del sexo sin celajes
y a quienes nadie osara fabricarles ropajes.
Sin velos, como el cuerpo de una diosa serena
¡que tuviera una intensa blancura de azucena!
Desnuda, y toda abierta de par en par
¡por el ansia del amar!
(Juana de Ibarbourou - TE DOY MI ALMA DESNUDA)
sexta-feira, fevereiro 15, 2002
Escrita
Palavras escritas são bólidos que me atingem com força descomunal. Tem vez que elas me matam, e tem vez que me dão vida.
quarta-feira, fevereiro 13, 2002
Sina
O destino tem muitas pontas e cada qual sai de uma vertente em busca do seu caminho, e cada caminho desse quase sempre é sinuoso, mas tem muitos que são retos, e seguem tão paralelos que nunca vão se cruzar. E urde melhor essa trama quem toma, nas suas mãos, o controle dessas pontas.
Deslindar o destino até que é fácil, o duro é cumprir a sinas.
domingo, fevereiro 10, 2002
Um pedaço de mim
Tenso clima, esse que precede um desenlace, seja qual seja, assim que nem de um nascimento, o fim de um amor ou o último suspiro de uma vida. Há uma tristeza me rondando pela perspectiva do mais cruel dos desenlaces: o da definitiva e irremediável perda, o fim absoluto da existência. Embora não haja prazo há um prognóstico escroto, baseado na não menos escrota estatística, que me inquieta e me azucrina o juízo pela inusitada anunciação dessa interrupção antecipada. Quando se concretizar cusará em mim imensa dor.
Essa vida que ameaça se mandar também saiu de mim. E é um anjo calado. Um incondicional amor.
sexta-feira, fevereiro 08, 2002
quarta-feira, fevereiro 06, 2002
Uma crença
" (...) o amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal/ (...) Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Trecho da Carta de Paulo aos Coríntios
Tá.
terça-feira, fevereiro 05, 2002
Nenhuma arte é obscena
Conforme registra o tempo putaria é coisa antiga, e tudo que se faz hoje como se fosse moderno, transgressor ou liberado, há muito que se fazia, aliás bem mais que isso, pois uns mil anos pra trás a libido comandava e não era reprimida.
E foi ali na Mesopotâmia, entre o Eufrates e o Tigre, nas babilônicas alcovas ou nas beiradas dos rios, ou mais ali pro outro lado, onde o Nilo serpenteia pelas egípcias paragens, ou ainda lá mais pra frente onde o Ganges faz a curva e lava o povo hindu que a fodelança nasceu como arte na prática do vuco-vuco, essa que o vulgo chama pimbar. E daí derivou resvalando ora pra cima e pra baixo, a mania de lambuzar que é arte trilenar.
Das artes liberais essa é a mais liberal e boa, a mais prática e sensorial de todas.
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