segunda-feira, abril 29, 2002



De atalaia

Eu cá esperando a defnitiva bandeira dela e ela lá neca de acenar. E por não ser travesso fico travado, só na espreita, na espera que ela me dê um certeiro bote.

sexta-feira, abril 19, 2002



Esquizo

Se quiser se deparar comigo então me procure entre mim e mim. E é nessa vastidão, nesse imenso vão que todo vivente humano tem, que vez por outra me extravio. E é nesse espaço desmedido que me busco toda vez que eu me perco, refazendo as trajetórias. Mas sucede que os percursos de volta são os descaminhos da ida e o retorno, diz o povo, é muito mais dolorido.

No entanto não desisto nem de ir nem de voltar. Tem vez que vou e volto contente, e tem outras que me deixam combalido. Quando essas inquietações me assolam, como agora, me bate um banzo danado, uma vazio no meu quengo, uma dor no coração.

Daí, nesses momentos, tem um post meu que já postei mais de uma vez que traduz essa agonia, esse aí:

À Deriva

Não me tome como bússola
pois é comum me perder
em cada mar que navego.
Não me tome como âncora
pois nem a mim me preservo
e quase sempre naufrago
nas águas de cada porto,
na beira de cada cais.


quinta-feira, abril 11, 2002


Rola-bosta é ouro



Quem nasce nas pequenas cidades do mundo, assim no interior, como eu nasci, fica mais perto das esquisitices da natureza porque a extensão das casas já é a zona rural, a floresta, os descampados. E esses espaços são laboratórios de observação das gentes dali, principalmente das crianças.

Quando eu era menino gostava de espiar pássaro e inseto, particularmente o escaravelho, popular rola-bosta, na sua estafante lida de processar a merda dos bois e outros animais. A destreza dos bichinhos em fabricar pequenas bolotas de esterco e sair rolando por aí era impressionante. Hoje sei que o trabalho deles tem grande serventia pra fertilidade do solo, mas não sabia que tem gente que coleciona os bichos.

Pois sim, li aqui que os mais raros podem chegar até a quinhentos dólares. Se eu não fosse esse babaca com mania de contemplação desde pequeno e tivesse posto a mão naqueles mais reluzentes e estrambóticos que pintavam por lá (eram tantos!) e tivesse guardado cada um, certamente hoje eu seria um homem rico.


terça-feira, abril 09, 2002



Menstruação


Plínio, o Velho era um cara sabido. Manjava das coisas do mundo e sacava como a natureza funcionava. É certo que no tempo em que ele viveu (entre os anos 23 e 79 dessa nossa dita era cristã) a ciência era pouca e os fenômenos físicos, químicos e biológicos além de provocarem um medo danado no povo incendiavam a imaginação e geravam explicações simplórias e delirantes dos mais sapientes.

E Plínio era um e escreveu o que pensava saber na sua famosa Historia Naturalis dando pitaco em quase tudo. Legou ao mundo algumas informações relevantes pra se deslindar a evolução do conhecimento humano, e ajudou também a difundir alguns preconceitos, inclusive contra a mulher, que vigoram até hoje nos grotões atrasados dos continentes do mundo, como esse do efeito devastador da menstruação.

(...) Porém dificilmente não encontraremos nada mais prodigioso que o fluxo menstrual. A proximidade de uma mulher neste estado faz o mosto azedar; os cereais se tornam estéreis, os enxertos morrem, as plantas dos jardins secam, se ela sentar-se sob uma árvore seus frutos cairão, o resplendor dos espelhos ficam turvos e nada mais refletem, o fio de aço se debilita, o brilho do marfim desaparece, os enxames das abelhas morrem; inclusive o bronze e o ferro oxidam imediatamente e o bronze fica com um odor espantoso; enfim os cachorros que provarem de algum resíduo desse líquido serão acometidos de raiva e sua mordedura inocula um veneno sem remédio. Tem mais: o betume, essa substância tenaz e viscosa que, a uma época precisa do ano aflora e sobrenada um lago da Judéia, que se chama Asphaltites, não se deixa dividir por nada, pois adere a tudo que o toca, exceto por um fio infectado por este veneno. Diz-se inclusive que as formigas, esses animaizinhos minúsculos, lhe são seníveis: elas jogam fora os grãos que carregam e não voltam a recolhê-los. Este fluxo tão curioso e tão pernicioso aparece de trinta em trinta dias na mulher, e, com mais intensidade a cada três meses. (..)

E arremata (...) Se as regras coincidem com um eclipse da lua e do sol, os males que causam são irremediáveis. O mesmo ocorre com ausência de lua: então o coito é funesto e mortal para os homens. (...)


quinta-feira, abril 04, 2002

Intolerâncias


Guernica - Picasso, 1937

Lá nos orientes, naquelas partes hoje ensanguentadas como cá nos ocidentes com suas partes também vez em quando conturbadas, as gentes se devoram pelo ódio com bombas, tiros, facas, pontapés e mordidas numa clara manifestação de nosso instinto antropofágico, e no cumprimento do trágico destino dessa nossa temerária e limitada espécie humana. Tudo justificado com um cinismo brucutu.

Tantos mil anos de pseudo civilização ainda não foram suficientes pra domar o DNA dessa nossa selvagem herança macaca. Pelas minhas incertas contas outros tantos mil anos ainda serão necessários pra selvageria nos abandonar de vez. Só aí talvez se entenda e se incorpore o significado definitivo da palavra irmão, e isso se sobreponha aos mesquinhos interesses econômicos e deletérios dessa fuleira geopolítica do poder. Mas aí já teremos todos ido pro beleléu.



quarta-feira, abril 03, 2002



Anti-títere

A vida não me concedeu certas habilidades que pra muitos são banais, feito essas de andar na corda bamba ou engolir fogo e sapo. Mesmo assim de quando em vez eu ando, e quando ando, quase sempre me arrebento. Engulo, e sempre que engulo chamusco o gogó, e todo sapo que desce fica lá entalado e em pouco tempo eu expilo.

Sim, é difícil ser rebelde em demasia e auto-insurgente porque tem momento que a gente se subleva contra a gente mesmo numa brutal batalha cujo resultado quase sempre é a exaustão.