sexta-feira, janeiro 31, 2003




Corolário





Decerto que homens amam. Mas mulheres amam amorosamente com palavras, atitudes e atos.


quarta-feira, janeiro 29, 2003



Fomes

Esse povo que pretende zerar a fome dos famintos do oco do mundo e das cercanias de nós, se empanturra de croquetes, chucrutes, outras iguarias e vinhos bacanas nas sua fartas mesas, dá suas baforadas em legítimos cubanos ou aromáticos fumos finos mas quer proibir as famélicas criaturas de encherem o bucho com o que quiserem lá com os minguados 50 mangos previstos.

Diz-se que vão impor restrições a alguns produtos como certos laticínios, e se não vão permitir que o contingente de miseráveis coma sequer um prosaico iogurte, que dirá melar o bico com um vinho de jurubeba zinabrado ou dar um pitada num fumo brabo de rolo.

E ainda querem que o povo dos cafundós dos cafundós apresente nota fiscal ou recibo da buchada de bode, do sarapatel, da meizinha pra dor de barriga e de outras coisas do gosto e da dieta do povão perdido no meio do mundo.

Essa tutela é descabida, uma tolice que encarece e burocratiza tudo. Melhor deixar o povo escolher livremente o que comer ou beber do mesmo jeito que escolheu os que foram eleitos.



Acerbo

Tem hora que sou lírico, tem outras que sou ácido. Deve ser por isso que vez por outra me sinto cítrico.


terça-feira, janeiro 28, 2003



Gilgamesh


(...) Não existe permanência
 Por acaso construímos nossas casas para sempre?
Para sempre selamos um contrato?
Irmãos mantêm unida uma herança para sempre
Ou o período de cheia de um rio dura para todo o sempre?
A crisálida da libélula solta sua larva
E vê o sol em toda sua glória somente por um dia
Tudo passa, nada permanece
As feições de um homem adormecido são diferentes
das de um homem morto?
Ou existe alguma diferença entre o servidor e seu amo
Depois que ambos não vivem mais? (...)


De Épico de Gilgamesh, um texto sumério, ali das velhas Babilônias, antigo que só (cerca de 4.700 anos) e provavelmente o mais antigo que se conhece, mas com verdades crueis que o tempo não desmentiu.



Pífias trombetas  
(Fórum Econômico Mundial  x Fórum Social)

O frenesi dos fóruns enfim findou como deveria findar. O de lá com ossos quebrados, o de cá à moda pastelão com torta na cara. No próximo ano tem mais, a lengalenga vai ser igual e tudo contiuará na mesma ou pior pras gentes lascadas que ficarão cada vez mais lisas e ferradas.

quinta-feira, janeiro 23, 2003



Forumbático outra vez

Nem Davos nem Porto Alegre. O melhor foro continua ainda sendo o íntimo.

sábado, janeiro 18, 2003



Audaz assim

E se não for assim de toda audaz
(como nos épicos tempos se diria)
que busque ao menos em sua cara
a sua própria e indivisível cara
e a partir disso assim seja capaz
de encarar torpor dor ou mazela
e também o contrário desses danos
como coisas que a vida inventa ou gera
e aprenda a digerir sem gula ou pressa
em goles em lambidas ou dentadas
pedaço por pedaço desses paradoxos
sejam eles crus cozidos ou requentados.

(Este post é de 29/07/2001, e por uma razão qualquer
acordei lembrando dele, e até agora tava martelando aqui
no meu quengo. Pra aliviar essa recorrência tô republicando o bicho)


quinta-feira, janeiro 16, 2003



Químicas

Presumo que sendo resultado de uma imprecisa mistura química, legada por uma tonta natureza, somos quimicamente inviáveis e por conta disso a gente um dia pifa. Mas é no dia-a-dia de cada um que essa tal química interfere na pele, no osso, no sangue, tripas, nervos, coração e cuca provocando alegados desequilíbrios que geram sofrimento, ou tênues equilíbrios responsáveis por efêmeros êxtases.

Ou será o contrário?

terça-feira, janeiro 14, 2003



Conchichina

Seja lá onde fique, não vale o sacrifício.


segunda-feira, janeiro 13, 2003



Há que ser ímpar

Tilintar por tilintar qualquer metal fuleiro tilinta, tenha badalo ou não. Mas pra agradar ao tímpano precisa combinação, seja metal, seja voz, assobio de passarinho, e conforme confirma a física o som pra ser melodia tem sempre que resultar em soma que seja ímpar.


quinta-feira, janeiro 09, 2003



Memória

Era como nós, em tudo semelhante, mas tinha um diferencial que incendiava a imaginação daquele bando de menino peralta, eu incluso, que jogava bola na frente da casa dele: uma imensa tatuagem no peito e outras menores nos braços.

Charles, nem sei se esse era o seu nome verdadeiro, mas o povo que morava nas redondezas se referia a ele assim. Um marinheiro dessa marinha mercante, estrangeiro, meio ruivo e forte, que se apaixonou por uma linda negra brasileira, arriou âncora lá e morava ali, perto de casa. A gente brincava nas cercanias, mas não tinha intimidade com eles, espiava de longe aquele idílio e trocava idéia sobre possíveis aventuras nos mares do mundo e cobiçava ardente e carnalmente aquela calipígia companheira dele que usava roupas provocantes, e vez por outra não usava nada tomando sol no quintal. A gente brechava e ficava doidão. Todos nós fomos penalizados várias vezes com pesadas penitências por confessar ao padre nossos pecaminosos atos carnais na intenção da moça e também pelo pecado da inveja por querer ser Charles.

Faz tempo isso, é provável que eles já nem existam mais. Eu me mandei dali ainda pequeno, dei uns rolês por aí e fui, de certa forma, um marinheiro errante, deparei com muitos aventureiros tatuados e não e com muitas mulheres negras fascinantes, mas nada que se compare com aquele casal. Pois eles foram responsáveis, indiretamente, pelo início da perda de inocência de uma cambada feliz de curumins.

segunda-feira, janeiro 06, 2003



Foco

Será harmonia a integração sensata dos sentidos?


quinta-feira, janeiro 02, 2003



2002


2002 foi um ano esquisito aqui e alhures. De formato simétrico, parece um penico chinês com suas asas iguais. Não manjo nada de numerologia, e nem sei se isso tem algum significado, mas não aprecio a perfeição numérica, essa coisa certa e par, porque penso que é na assimetria que as coisas se encaixam.

As bombásticas, quase surreais notícias fizeram daquele um esdrúxulo e doido ano.

Teve pretenso profeta nominado Rael que mandou trombetear pelos cantos todos do mundo, por uma anja ruiva, que um novo ser nasceu por obra e graça de si mesmo, gerado, não se sabe se por uma virgem, mas à semelhança da mãe, sem a participação prazerosa de um macho. Um clone. Se não for fraude pode significar o ressurgimento do glorioso matriarcado, a decadência do homem-reprodutor clássico, o nascimento do homem-eunuco. Lembra também o epsódio bíblico do nascimento daquele outro, o Cristo, que prescindiu da inseminação natural e e foi feito à semelhança do pai. Traz embutidas outras preocupações como o resgate da odiosa idéia do eugenismo, ou a manipulação geral da vida por esse povo cientista. O futuro pode ser uma bosta.

A conclusão do mapeamento genômico humano confirmou, quase no fim do ano, que além da origem macaca da tonta espécie humana somos também iguais aos ratos, e a única diferença é a ausência de rabo longo.

Pras bandas de cá houve uma eleição presidencial onde todos os concorrentes defendiam a mesma coisa, e o que ganhou convidou os outros para serem ministros e tal. A escarlate bandeira da esquerda desbotou, os discursos viraram um, a crônica fome de 500 anos do raquítico povo deste patropi virou manchete como se fosse coisa recente.

Mulheres condenadas à morte por adultério na África mulçumana, homens recebendo sentença idêntica por criticarem o excesso das leis divinas nas coisas terrenas. A invenção pelo Bush sanguinário e a Condoleeza vampira de um eixo do mal que precisa ser dizimado. E por aí vai

2003 parece que promete! O consolo é que é um ano ímpar. Isso quer dizer alguma coisa?