sábado, setembro 29, 2001



Femina

Uiva, grita e range os dentes
numa imitação febril de fera,
e como vampiro de si mesma
se fere dentro como se fosse fora,
e se suga, mortifica se consome
num feroz embate entre ela e ela,
e sobra é a dor que ela demonstra
por não ser a fera que se mostra
sempre que alguém lhe pisa ou fere
num ataque ou numa circunstância
que ofenda a condição de ser mulher.
E no fim de tudo o que aflora mesmo
é uma alma sensível, meiga e calma
que discerne bem e é determinada.
Tudo isso esse admirável gênero herda
e não tem culpa nem pode ser culpado
desse mundo transformar-se numa merda

quinta-feira, setembro 27, 2001



Gostosa, balsâmica e necessária

Parida naquelas bandas da Grécia pela mitologia de lá, e espalhada pelo mundo pela compulsão fantasiosa e sincrética de navegadores e pescadores, a sereia incendiou a imaginação do povão masculino, virou uma quase-verdade e assumiu formas variadas, mas sempre derivadas da mulher. Num tratado de Histoire Naturelle publicado na França, no século 17, era descrita assim:

(...) Entre os moluscos há um peixe com rosto e seios de mulher, do tamanho de um novilho, cuja carne tem gosto de vaca. Dizem que seus dentes são um bom remédio para disenteria.(...)

Como se sabe, naqueles tempos a mulher tinha uma condição precária e passiva diante do macharal, que pra mim, de forma consciente ou subliminarmente, queria mesmo era dizer que a mulher além de ter sabor faz um bem danado ( pro corpo e pra alma também).


quarta-feira, setembro 26, 2001



Na dança

Pode ser mais uma asneira, mas não se consegue, é o que penso, disfarçar uma esquivança, nem remorso nem rancor ou qualquer outro tormento, inclusive seus reversos, porque sentimento é coisa difícil de controlar e tudo isso ta é solto e liberto no absconso do quengo que é lugar que ninguém pisa.

Daí que já desisti faz é tempo de segurar meus desejos, encurralar as paixões pra limitar o amor, pois toda vez que tentei me dei mal e me lasquei e por pouco o coitado do tal do ego não resultou avariado de tanto levar traulitada. E pra preservar quase intacta a dita sanidade mental desconsidero os controles do botão da regulagem pros sentimentos fluírem.

Pensando bem, de um jeito ou de outro a gente termina mesmo é implodindo pela ação que vem de dentro. Pois é.


sexta-feira, setembro 21, 2001



Cura

Vira e mexe me pergunto, mas nunca sei responder, se pessoas escaldadas por desenganos sofridos ou outros padecimentos no amor e cercanias são capazes de zerar e sempre recomeçar baixando a guarda e as defesas, encarando novo par sem essa de um pé na frente e outro ali mais atrás.

Tô propenso a acreditar, embora não convencido, que corações magoados tendem mais pra retração e preferem navegar num grande mar de amargura, e não sei porque diabos não deixam de navegar, e isso vale pro meu que vez por outra embarca nessa também. Aí as criaturas por via das desventuras seguem lambendo o amargo que destrói o paladar em parte ou por inteiro pelo uso demorado, e ainda contamina o restante dos sentidos. Embota a vista, retesa a carne e amolece os ossos num insalubre processo que transforma lentamente gente em invertebrado.

No meu caso já tô dando uns piparotes no meu juízo pra ver se ele toma jeito e me apruma os rumos e me põe na rota dela, sem escudos ou seqüelas.


quinta-feira, setembro 20, 2001



Estratégia fuleira

Certos dias são tão densos, tão cheios de revertérios que até o tempo se engasga, parece que não avança, e qualquer nada extrapola assim como se fosse tudo, e tudo que se tenta agoniza e degringola como se fosse um nada.

De quando em quando um desses aí me pinta atravessado. E quando o danado termina é como se findasse uma batalha, um combate que me deixa além de combalido, meio amuado e sem saco. Meu sentimento é que pra enfrentar esses tais é preciso mais que destreza mental. A gente carece além de preparo físico ter outras habilidades. Daí que tô pensando em me tornar saltimbanco, desses que engolem giletes junto com cacos de vidro, se deitam em camas de prego, se contorcem e cospem fogo.

O resultado final pode até ser pífio, e certamente será, mas em contrapartida a gente entorta a rotina desses tais dias sacais.


quarta-feira, setembro 19, 2001



Sanguessugas na parada

Parece que tudo no mundo funciona que nem gangorra, ora sobe depois volta e retrocede de novo num vai-e-vem sem compasso. Isso na vida, nas ciências e em tudo mais. Pois tava lendo que ali pelo mundo dito mais civilizado e cheio das tecnologias, ali na Alemanha, o povo das medicinas tá fazendo uma experiência inusitada: usando a velha e escrota sanguessuga, aquela que nossos bisavós já usavam pra sangrar os infermos e afinar o sangue. Pois sim, essas. As bichas tão sendo utilizadas lá pra ajudar a tratar as dores crônicas causadas pela tal da osteoartrite, é. E tá dando legal. É o que diz essse trabalho: Effect of leeches therapy (Hirudo medicinalis) in painful osteoarthritis of the knee: a pilot study, publicado nessa revista aí: Annals of Rheumatic Diseases.

Agora é preciso ficar atento porque tem sanguessuga de todo tipo e qualidade, e tem umas que além de sugarem o sangue também sugam a vida do povo.


terça-feira, setembro 18, 2001



Da origem das coisas

Nesse embate constante entre o determinismo e o destino, esse que mói e tritura todo dia as poucas certezas da gente, só escapa com um pouco de sanidade quem se manda e escapole pelas brechas traiçoeiras dessas duas engrenagens que vivem se atritando, onde uma afirma e diz que tudo já tá escrito e a outra logo responde que a escrita depende mesmo é do punho de quem escreve.

Minhas dúvidas se ampliam cada vez que penso nelas, pois se uma doutrina é pauleira a outra é puro pau, e cada fato concreto acrescenta nesse fato duas pitadas de cada complicando mais ainda esse babado todo e deixando todas duas como se fossem uma só. Parece até simbiose, mas na verdade não é, e quem se atreve a destrinchar os caminhos sinuosos do que determina ou destina termina é ficando lelé.

Daí qualquer coisa que na minha vida pinte, seja um desencontro ou amor ou outro evento qualquer apenas curto ou não, se for boa agradeço ao destino e ao determinismo também, e se for ruim eu esculhambo com os dois. Convicção é isso!


sábado, setembro 15, 2001



Mais que um laço

Não tem data
pra se desatar
o nó que nos ata

quinta-feira, setembro 13, 2001



Dilemas

Todo dilema azucrina pela pressão da escolha. Parece até que a sina de cada vivente humano é digerir todo dia uma porção de dilemas. Tem os grandes e os menores, os que parecem e não são, tem os simples e os enredados que mais parecem novelos de fios finos intricados. Mas todos carecem de ser desfiados ou então a vida empaca por falta de decisão.

Os mais cruéis sempre pintam é na zona ali das querenças, essa da paixão ou do amor, porque é sempre um e mais outra criatura, coisa de par ou parelha, e a escolha pode magoar ou ferir. E aí tem gente que deglute e não consegue digerir, e o bicho então fermenta e incha, fica maior do que era e deixa de ser dilema para virar paranóia ou então assombração, duas primas bem próximas daquela tal da doidice.

Tento papar os meus sempre que me aparecem, mas vez em quando um me engasga e fica parado no meio numa hesitação danada e só se resolve (tem uns que nem se resolvem) aos trancos, meio torto, de trivela, como acontece com quase todas as gentes desse nosso doido mundo. Dilema é um nó danado, e por isso me pergunto: será que sou um dilema no quengo daquela moça?



quarta-feira, setembro 12, 2001



Zás!

Tudo zune, tudo chispa, tudo trava.
O mar se queima e o ar se molha,
a terra ruge e depois ronca e rosna
e provoca maremoto susto e agonia.
A carne treme, a cama some, o sono zarpa,
o corpo bóia, o sonho finda, a vida pifa.


terça-feira, setembro 11, 2001



Fúria desumana

Bateu, tiniu, pipocou... O ódio é o bicho e só a raça humana tem. Trágica raça.

domingo, setembro 09, 2001



Alfa

Nunca acreditei muito nessas propostas mirabolantes do autocontrole absoluto e tal. Essas de hibernar dentro de si mesmo, de submeter a mente ao controle dela mesma e domar o pensamento como se doma um cavalo. Esses controles alfas e outros que tais. Mas meu propósito nesse feriado comprido era dar uma desligada do mundo e de mim, alfar em beta ou betar em alfa, sei lá. Queria descansar, pra desanuviar umas idéias e regular as obsessões. Me mandei sozinho prum hotel fazenda pra buscar tranqüilidade na paz dos matos e relaxar desligado desse mundão doido.

O resultado foi duplamente desastroso: cientificamente mixo e cansativo na prática. E constato como um mané que sou, o que se sabe há trilênios: corpo e mente são um bloco só. Ou descansam os dois ao mesmo tempo ou vão ambos pro beleléu.

O povo que vai se hospedar nesses cantos pretensamente calmos não consegue se acalmar. As pessoas acordam antes dos bichos, ficam excitadas com a paisagem, parece, e não conseguem dormir cedo. Um pandemônio. Pra agravar mais ainda o fuzuê eu não conseguia segurar meus pensamentos que ficavam girando pelos pontos cardeais todos, mas nunca ficava ali junto de mim, só apontava pra longe, porque é longe que ela tá. Voltei um dia antes do combinado. Ontem de noite. Agora tô cá nesse meu ambiente barulhento, cheio das tecnologias e dos ruídos esquisitos conseqüentes. Relaxei um pouco. Tô quase em alfa, mas os miolos continuam fervendo.Tem jeito não.


quinta-feira, setembro 06, 2001



Aflição

Me atiça e some
tripudia e cala
e me deixa com fome.


Tísicos

Aprecio esse povo que faz poesia, mas nunca quis ser um. E se fosse, seria provavelmente um romântico comedido, já que os estabanados morrem antes. Ou morriam. (Isso no século 19 e início do 20, segundo minha estatística pessoal).

Nas minhas ânsias juvenis lia sobre as vidas atormentadas de uns e as fragilidades de outros. E talvez resida aí o meu receio em poetar desde cedo, pois os bichos, esses desconsolados pelos desdéns das musas perdiam a noção do que era demasia e viviam como se fossem poemas ambulantes, tristes pelos cantos e embriagados nas madrugadas sucumbiam desvairados, quase todos tísicos, golfando sangue nas hemoptises.

Quem tinha grana e sentia paura da morte na hora do pega-pra-capar se mandava pra Suíça pra escapulir do fim melancólico, pois o remédio indicado pra essa enfermidade naqueles tempos era a mudança de ares e clima. É o que fizeram aqueles dois tísicos que eu gosto: Manuel Bandeira e Paul Eluard. Se conheceram num sanatório naquelas bandas de lá e se influenciaram mutuamente. O primeiro viveu foi muito, o outro que foi casado com aquela Gala que depois se casou com Dalí, aquele do bigode teso e impostor talentoso, manteve o triângulo amoroso e pifou mais cedo. Grandes poetas. Taí um e outro:

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação


Nous Deux

Nous deux nous tenant par la main
Nous nous croyons partout chez nous
Sous l'arbre doux sous le ciel noir
Sous tous les toits au coin du feu
Dan la rue vide en plein soleil
Auprès des sages et des fous
Parmi les enfants et les grands
L'amour n'a rien de mystérieux
Nous sommes l'évidence même
Les amoureux se croient chez nous.



quarta-feira, setembro 05, 2001



Além da demarcação

Nenhuma barreira, limite ou linha
de qualquer cor ou mesmo incolor,
inexistente ou real ou seja o que for
será capaz de barrar ou conter
os impulsos incontidos do amor.

terça-feira, setembro 04, 2001



Ela amava


Aquela Violeta, do Chile, a Parra, era uma mulher daquelas. Dessas que amam, proclamam e cantam. E pintava e bordava e compunha e cantava, e deixou sua marca nas telas, nas cerâmicas de barro queimado, nos tapetes que urdia e nos corações latinos onde gravava suas poesias musicadas pra sempre.

E amava tanto, e sublimou tantas paixões que explodiram em melancolia pura. E isso perturbou o curso da sua vida. E ela deu cabo dela em 1967, num suicídio ainda hoje misterioso, porque paradoxalmente ela cantava a vida. Hoje ouvi, taí uma:

Gracias a la vida

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes, al hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado el cielo, que en todo su ancho
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado el sonido y el abecedario,
con él las palabras que pienso y declaro,
madre, amigo, hermano, y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado la marcha de mis pies cansados,
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desertos, montañas y llanos,
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me dio el corazón que agita su mano,
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto,
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto,
y el canto de todos que es mi propio canto.



segunda-feira, setembro 03, 2001




Dragões



Tinhoso e medonho, esse bicho era o bicho. Difícil de domar por falta de domadores, poucos deles foram domesticados. Há quem diga que nunca existiram, mas há registros orais que insinuam que os tais atanazaram umas quantas regiões do mundo e pessoas.

Nas bandas do oriente tem um monte de povo antigo, e ouvi lá da boca de um descendente direto de um domador dessas serpentes, que elas não eram diferentes das gentes, assim nas artimanhas e malícias, nas artes de enganar. Expeliam fogo pelas narinas e boca, mas o perigo tava mesmo era nas garras ( pois o fogo a água cura e as garras são mortais).

Consta que todo dragão era múltiplo, era mais que apenas um, e pra reverter ferocidade em amor, por via da confiança, era preciso destreza pra identificar num relance, qual era o um de verdade, pois somente o verdadeiro não se ocupava da tarefa de engodar. Daí pra frente a convivência seguia sem dissimulação da parte de cada qual, pois é ela que destrói qualquer barato nesse trem da amizade. Pelo o ouvido, o mundo ainda tá cheio de dragões.


domingo, setembro 02, 2001



Peitos e Bundas

Tava aí nas madrugadas vendo numa estação de tv tupiniquim um programa sobre sexo e tal. E parece que o tema recorrente nesses programas, seja aqui ou em qualquer parte, é sempre sobre as tais preferências de uns e de outras. Pras outras perguntam sobre tamanho, pros demais sobre peito e sobre bunda.

Se as perguntas são rasas, as respostas vêm rentes. Uma tédio só. Mas nas estatísticas da noite pintou uma novidade no meio do macharal: peito empatou com bunda, contrariando a tese que aqui neste patropi bunda ganha disparado. Quer dizer, ser calipígia ou peituda nas variadas formas e volumes, inclusive silicônicos, agora tanto faz. Eu cá aprecio as formas naturais e mais suaves, seja pra frente ou pra trás.

A histórias das preferências é antiga. Até o Agostinho, aquele argelino esperto que nasceu ali no ano 354, e que aos 17 vivia na maior concupiscência e já era amancebado, mas depois se tornou santo e doutor da igreja católica, e talvez o mais sábios deles, também entrou nessa milenar pendenga, e se amarrava era nuns peitos e morreu atormentado porque não conseguia esquecer os da mãe e pensava que essa fixação era pecado. Só muito tempo depois o dr. Freud ( que também padecia da mesma atração) deslindou o mistério. Mas a história continua...


sábado, setembro 01, 2001



Tropeços

I

Cada passo que dou abro espaço pra mais dois
e esses dois nunca dou porque ficam pra depois.

II

Mas como acertar o passo
se cada passo que tento
vem alguém e dá um calço?