terça-feira, setembro 10, 2002



Uma mulher das minhas




Nasceu e viveu entre 1520/24-1566, ali na França e botou pra fora, nas palavras escritas seus litígios interiores, angústias, desejos, amores e fantasias. Naqueles tempos precisava ser muito mulher pra propagar o que lhe ia na alma, no coração, e o que ardia nos apelos do corpo, e ela, provavelmente aos 31, num livro, propagou como poucas.

Louise Labé, uma mulher pra lá do seu tempo, olhaí:

Beijai-me agora, e muito, e outra vez mais,
Dai-me um de vossos beijos saborosos
E depois, dai-me um desses amorosos
E eu pagarei com brasa os que me dais.
Virei vos socorrer, se vos cansais,
Com mais dez beijos longos, langorosos,
E assim, trocando afagos tão gostosos,
Gozemos um do outro, em calma e paz.
Vida em dobro teremos, sendo assim;
Eu viva em vós e vós vivendo em mim.
Deixai que vague, pois, meu pensamento:
Não dá prazer viver bem-comportada;
Bem mais feliz me sinto, e contentada,
Quando cometo algum atrevimento.

Quando, à noite, ao repouso me disponho
No meu macio leito recostada,
Minh'alma triste corre, libertada,
Incontinenti ao teu encontro em sonho.
E dentro em mim tanta alegria ponho
Por finalmente ver-me contentada
Nessa ventura tanto desejada
Que dos soluços já não me envergonho.
Oh noite, cheia de felicidade!
Fazei, do doce sono no aconchego,
Que se renove o sonho a cada dia;
E se minh'alma, por fatalidade,
Nunca puder de fato ter sossego,
Que possa ao menos tê-lo em fantasia.





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