quinta-feira, julho 31, 2003

Assimetria

Peno entre seguir e não ir, e ainda assim aperto o passo. Percebo seu cheiro no ar feito um farejador de aromas e prossigo mesmo com a ausência de seus acenos. Seus rastros me guiam, mas deslizo em mim mesmo como quem derrapa e constato, desolado, que patino sem sair do lugar enquanto ela, serelepe, ruma na direção de outras plagas.


segunda-feira, julho 28, 2003

Manuela





Mais que “libertadora do libertador” Manuela Sáenz foi libertadora de si mesma e de um monte de mulheres que se espelharam nela. Nascida em 1797, aos 20 casou com um cara cheio das granas, o inglês James Thorne, e o deixou logo depois pra se juntar a Simón Bolívar na cama e no seu delírio panamericano.

Foi um amor impetuoso entre o general e a coronela, cheio de lances audaciosos pra época. Lutaram em batalhas campais, conspiraram na política, gozaram na alcova. Foram oito anos de um amor transgressor, até a morte dele em 1830. Ela morreu 26 anos depois ainda apaixonada e atuando pela causa da libertação da América do sul, dita espanhola.

Olha só a determinação da criatura respondendo, em carta, aos insistentes apelos do marido pra que retornasse pra ele depois que se mandou com Bolívar:

No, no y no; por el amor de Dios, basta. ¿Por qué te
empeñas en que cambie de resolución? !Mil veces no! Señor
mío, eres excelente, inimitable. Pero, mi amigo, no es grano de
anís que te haya dejado por el genral Bolívar; dejar a un marido
sin tus méritos no sería nada. ¿Crees por un momento que
después de haber sido amada por este hombre durante años, de
tener la seguridad de que poseo su corazón, voy a preferir ser la
esposa del Padre, del Hijo o del Espíritu Santo, o de los tres
juntos? Sé muy bien que no puedo unirme a él por las leyes del
honor, como tú las llamas, pero, ¿crees que me siento menos
honrada porque sea mi amante y no mi marido?”


Déjame en paz, mi querido inglés. Amas sin placer. 
Conversas sin gracia, caminas sin prisa, te sientas con cautela y
no te ríes ni de tus propias bromas. Son atributos divinos, pero
yo miserable mortal que puedo reírme de mí misma, me río de ti
también, con toda esa seriedad inglesa. !Cómo padeceré en el
cielo! Tanto como si me fuera a vivir a Inglaterra o a

Constantinopla. Eres más celoso que un portugués. Por eso no
te quiero. ¿Tengo mal gusto?”
Pero, basta de bromas. En serio, sin ligereza, con toda la
escrupulosidad, la verdad y la pureza de una inglesa, nunca más
volveré a tu lado…”

Siempre tuya, Manuela



sábado, julho 26, 2003

Colo

Não há amparo maior que o amparo das fêmeas porque se dá de cima abaixo, e envolve além do desvelo o calor do colo e útero, lambidas pra acalmar, peitos pra consolar e um corpo todo talhado cheio de curvas suaves perfeito pra aninhar.




sexta-feira, julho 25, 2003

Camaleoa

Em cada clique um retrato, em cada retrato uma moça, em cada moça uma mulher diferente é revelada, mesmo sendo a mesma.


quarta-feira, julho 23, 2003

Hipérbole

Suponho cá que só se suporta a vida porque a danada se reparte em bandas, nem sempre iguais, mas certamente opostas. Cada uma parece ter a precípua serventia de área de escape pra monotonia ou sacanagem da outra.

Então presumo que o embate das ditas bandas é assim: de um lado as coisas de araque, que não são vero, as fantasias desvairadas, o alento do sonho esperançoso; do outro a dura lida cotidiana, a rotina massacrante, momentos bons, outros desgastantes. É nessa onde o corpo está presente, age, pulsa, dói e se ressente. Na outra é só a pura e indolor imaginação. Mas é na soma de um naco daqui e outro dacolá desse emaranhado contraditório e belicoso que se vive e que se goza o gozo.

Transitar por uma e outra sem se fixar o tempo todo em uma delas parece ser o segredo pra não pirar.


terça-feira, julho 22, 2003

Absentia

Queria dela a inteira face, a alma toda revelada. Mas tenho só sinais difusos, como se tudo fosse sonegado, e talvez nem imagina como dói a ausência da completa imagem.


quarta-feira, julho 16, 2003

Mulher é troféu, freio ou meizinha?

O povo dito pesquisador, esse que escarafuncha o escambal e tudo mais quanto há no mundo na busca de explicação pras coisas, vez por outra dá uma contribuição interessante pro entendimento de certos fenômenos naturais, sociais e tal. Mas na maioria das vezes o resultado não tem serventia pra nada e a conclusão é esdrúxula que nem nessa aí embaixo:

Gênio e bandido atingem topo da carreira aos 30

Gênios e criminosos podem parecer não ter muito em comum, mas ambos fazem seu melhor trabalho quando estão na faixa dos 30 anos e principalmente para impressionar o sexo oposto.

Ao estudar as biografias de proeminentes cientistas, Satoshi Kanazawa, da Universidade de Canterbury, Nova Zelândia, constatou que eles fizeram sua principal descoberta antes dos 35 anos, aproximadamente a mesma idade em que o comportamento criminoso atinge o pico.

Ele acredita que a competitividade masculina para atrair fêmeas é a força impulsora para os sucessos científicos e criminosos, segundo a revista britânica "New Scientist".

O pesquisador aponta que o impulso competitivo diminui com a idade, conforme a prioridade dos homens passa a ser menos a de competir por mulheres e mais a de cuidar dos filhos. Kanazawa também constatou que o casamento amortece o impulso em criminosos e cientistas. ( REUTERS)



segunda-feira, julho 14, 2003

Açoite

Tem desencontrados momentos na vida de cada dois que certas palavras zunem num diapasão medonho como o chiar de um chicote. E no estrilo falado, gestual ou mesmo escrito, tanto estala como assusta, dilacerando propósitos do mesmo jeito cruel que o chicote corta a carne.


Infame

Decerto que povo deste nosso desigual patropi tem lá uma vocação dionisíaca e fornica como poucos povos deste mundão doido. O diabo é que há um descompasso entre o desejo escancarado do povo traduzido assim nas fodelanças, e as leis caretas produzidas pelas elites, contraditoriamente pervertidas nesse mister, pra refrear uma pretensa e temida comilança carnal generalizada.

Daí resulta que, nos modernos tempos de agora, cornear por esssas bandas, por essas do lado de cá do equador, ainda é crime e dá cadeia, conforme caso acontecido e relatado aqui pelo jornal O Povo, de Fortaleza.


domingo, julho 13, 2003

Adversu

Desde antanho é assim, e assim parece que para sempre será: amor e filosofia nunca imbricaram, e jamais imbricarão. O primeiro porque subverte os arrazoados todos, a outra porque tenta desesperadamente arrazoar o que é subvertido de nascença.


sexta-feira, julho 11, 2003

Arrupios

Carecer assim, de arrepios na alma, todo mundo carece. Então, minha carente e desolada alma, aos arrupios!


quinta-feira, julho 10, 2003


Dance com ele(a)


Quem gosta de gato(a)s pode muito bem bailar com ele(a)s. Aprenda as piruetas, os passos e as manhas aqui neste salão







quarta-feira, julho 09, 2003

Insulado

Deu-se que de olvido em olvido quedei-me banido.


quinta-feira, julho 03, 2003


Mulleres
(Tabla Reivindicativa Galega)

O mundo, esse que a gente habita continua troncho em quase tudo e vai demorar endireitar, talvez nem tenha conserto nunca. É certo que numas coisinhas até melhorou um tico, mas no mais do mais tá ruim e muito. Uma das piores mazelas é a discriminação de todo tipo. Tem gente que se acomoda, mas tem outros que esperneiam, rugem, fazem o maior fuzuê. É o caso de parte do mulherio que no mundo todo, cá e alhures, bota com justeza a boca no trombone por um tratamento igualitário e merecido com o macharal.

As galegas, ali da Galiza, cuja deliciosa língua falada tá na origem da nossa, também se mexem e tascam manifesto. Aí embaixo parte dele, e aqui o resto.


Polos dereitos sexuais , de saúde e reprodutivos
.
-Implantación en todos os centros de saúde de consultas xinecolóxicas. Instauración destas consultas nos centros penitenciários con módulos de mulleres.

-Revisión xinecolóxica anual, completa e adecuada ás distintas idades.

-Cursos de formación específica para todo o persoal sanitário en relación a aquelas doenzas que afectan dun xeito diferenciado ás mulleres.

-Eliminación na sanidade pública da obxección de conciéncia do persoal sanitário en relación aos direitos sexuais e reprodutivos.

-Direito ao aborto, libre e gratuito con cobertura real na sanidade pública.

-Sanidade pública, universal e gratuita. Inclusión dos servizos e intervencións derivadas do cámbio de sexo.

-Ampliación da rede de Centros de Orientación Sexual, actualmente COF, con atención específica ás mulleres mozas. Garantir o aceso gratuito da mocidade aos métodos anticonceptivos.

-Criación da área de educación sexual no currículo educativo con participación de profisionais de Sexoloxia, representantes de organizacións de loita pola liberdade sexual e feministas.

-Aplicación da cobertura da sanidade pública, con todos os seus servizos, ás mulleres en prisióm e ás imigrantes.



quarta-feira, julho 02, 2003


Uma mulher

Não milito em partido político, nem em nada. Sou contra toda forma de dominação, seja intelectual, física ou de outro naipe, e de uns tempos pra cá tenho abominado a manipulação descarada que as ideologias provocam.

E por ser a favor da escancarada liberdade de expressão quero deixar aqui minha solidariedade a essa moça Heloísa Helena que disse lá pros seus algozes, escudada na sua quase ingênua crença utópica e inabalável fé nos princípios da dita utopia: (...) prefiro ter o coração partido do que a alma vendida.