domingo, dezembro 22, 2002
Calafetando
É fato que domingo é dia amorfo, de praia, preguiça, pra alguns pescaria, de parco zoamento e mais umas coisas boas e outras chatas. Mas também é dia de ressurreição conforme informa a bíblica história.
Sim, tô de volta, claudicante, mas tô, e agora com uma singela quase-certeza: pra ressuscitar é preciso primeiro fenecer.
terça-feira, dezembro 17, 2002
Epitáfio
O seu breve tempo de vida foi tal qual uma gangorra e sentiu, que nem um esquizo bipolar, euforia e torpor. Agora sai de cena como quem pratica haraquiri: rasga o ventre e vísceras, mas estóico não berra pra fora, grita pra dentro onde só a alma escuta.
Aqui se acaba, e as derradeiras palavras ficam assim, feito um epitáfio: nasceu cândido, viveu atônito e findou catatônico.
quarta-feira, dezembro 11, 2002
Cintilante
Maneja metáfora como quem maneja um sabre, e a mão certeira nunca erra o alvo. Faz das palavras uma forte liga como a liga que produz o aço, ou faz delas leve pluma que suave acaricia.
Aço que zune e cintila, ou pluma muda e macia, acerta sempre com costumeira precisão os expostos ou dissimulados corações.
quinta-feira, dezembro 05, 2002
Al mare

(foto: Ansel Adams)
Zarpar, fazer-se ao mar como antigamente, sem pensar se é revolto ou manso, singrar, mirar pra além da risca que demarca a água e o céu, ali onde se misturam provocando a ilusão que horizonte é coisa que se alcança ou pega. Rumar na direção oposta à que a bússola aponta, deixar que o destino se consuma e trace a rota, e una enfim o que há de ser unido.Buscar o porto braço-colo-ventre dela que imagina acolhedor e morno. Os vaticínios indicam que é possível mas também alertam que o caminho das águas é traiçoiero; que as miragens do mar são enganosas; que esse porto pode existir ou ser um logro; que o canto das sereias ilude tanto e enlouquece navegantes solitários.
Assim lançado, talvez chegue, talvez sucumba afogado e não retorne mais. Ainda assim convém partir...
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