terça-feira, maio 04, 2004


Bicho tropical
(fragmentos de sonhos)

O mar tem muitos caminhos, cada qual com seus mistérios, seus balanços traiçoeiros e um grande horizonte de feitio circular. Dou-me conta, depois de dias iguais, tangenciando a beirada do tal círculo aqui chamado de antártico, que estamos descambando, pra alívio dos meus ossos, prum rumo oposto ao da ida.

E o rumo oposto ao da ida é o caminho de volta. E nessa vereda larga se avista pra além da estreita proa a formação de mormaço condensado em nuvens claras. E o vento que vem de lá é morno e gostoso que nem a quentura uterina. É o primeiro sinal que indica o bendito caminho de casa. Uma brecha nesse mar, uma vereda tropical. As águas quase paradas, a brisa escassa nem balança os rotos panos das velas de muitas formas e cores. E bate uma certa angústia por conta daquela paralisia. Diz o povo navegador, a quem faço companhia, que isso se chama de calmaria.

Primeira parada num cais meio primitivo, prazeroso pelo clima temperado, depois de um longo curso em frio absoluto. E essa aldeia se liga com o resto do mundo pelos sinais dos satélites. E aproveito pra contar sobre a ansiedade de chegar.


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