Imaginário
O imaginário popular é que nem uma química doida que pode transformar vilão em herói, pecador em santo, salafrário em gente fina e vice-versa. Tudo que cai nas graças do povaréu tem chance de virar mito ou lenda, e o que cai em desgraça dificilmente se recupera.
Lampião, o dito rei do cangaço, ainda é pra parte do povo mais idoso do interior brabo do sertão nordestino, o chamado grotão, ou politicamente incorreto cu do mundo, um justiceiro venerado capaz de armar o maior fuzuê até no inferno, vencer tudo quanto é diabo fazendo uma espécie de justiça divina.
José Pacheco, um antigo cordelista pernambucano, tal qual um Dante às avessas, imaginou Lampião no miolo do inferno, só que no maior quebra pau com a diabarada no cordel de sua autoria A Chegada de Lampião no Inferno. Taí uns trechos:
Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado
Que morreu numa trincheira
Um certo tempo passado
Agora pelo sertão
Anda correndo visão
Fazendo mal assombrado.
E foi quem trouxe a notícia
Que viu Lampião chegar
O inferno nesse dia
Faltou pouco p’ra virar
Incendiou-se o mercado
Morreu tanto cão queimado
Que faz pena até contar.
Morreu a mãe de Canguinha
O pai de Forrobodó
Cem netos de Parafuso
Um cão chamado Cotó
Escapuliu Boca lnsossa
E uma moleca moça
Quase queimava o totó
Morreram cem negros veIhos
Que não trabalhavam mais
Um cão chamado Traz-çá
Vira-volta e Capataz
Tromba-suja e Bigodeira
Um cão chamado Goteira
Cunhado de Satanás.
(...)
Houve grande prejuízo
No inferno nesse dia
Queimou-se todo dinheiro
Que Satanás possuía
Queimou-se o livro de pontos
Perdeu-se vinte mil contos
Somente em mercadoria.
Reclamava Lucifer:
— Horror maior não precisa
Os anos ruins de safra
Agora mais esta pisa
Se não houver bom inverno
Tão cedo aqui no inferno
Ninguém compra uma camisa
(...)
Leitores vou terminar
Tratando de Lampião
Multo embora que não possa
Vos dar a explicação
No inferno não ficou
No céu também não chegou
Por certo está no sertão.
Quem duvidar desta história
Pensar que não foi assim-
Querer zombar do meu sério
Não acreditando em mim
Vá comprar papel moderno
Escreva para o Inferno
Mande saber de Caim.
segunda-feira, agosto 04, 2003
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