terça-feira, fevereiro 18, 2003



Mais uma mulher daquelas

Essa moça, essa Violante Montesino viveu num tempo esquisito, naquele em que desilusões amorosas quase sempre desembocavam numa tísica galopante e trágica ou num confinamento voluntário (vez por outra também desastroso) nos conventos ou mosteiros.

Uns, na tentativa de abafar o amor e as paixões nos corações desesperados, se isolavam de si mesmos e definhavam até a morte. Outros se isolavam dos demais nesses lugares ermos porém não conseguiam sufocar o desejo do corpo nem as necessidades da alma e hajam palavras avassaladoras de louvor ou de lamento ao que foi perdido e siriricas solitárias, embora depois a ressaca da culpa provocasse até auto-flagelo pra amenizar os temidos pecados.

Parece que com Violante foi assim e ela foi ser, aos 28, no glorioso ano de 1630, Sóror Violante do Céu, no Convento de Nossa Senhora do Rosário, da Ordem de S. Domingos ali em Portugal e se revelou uma tremenda poeta barroca das boas. Talvez a maior. Taí uma de suas agruras traduzida em versos:

A uma suspeita

Amor, se uma mudança imaginada
É com tanto rigor minha homicida,
Que fará, se passar de ser temida,
A ser, como temida, averiguada?

Se só por ser de mim tão receada,
Com dura execução me tira a vida,
Que fará, se chegar a ser sabida?
Que fará, se passar de suspeitada?

Porém, já que me mata, sendo incerta,
Somente o imaginá-la e presumi-la,
Claro está, pois da vida o fio corta.

Que me fará depois, quando for certa,
Ou tornar a viver para senti-la,
Ou senti-la também depois de morta.



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