Memória
Era como nós, em tudo semelhante, mas tinha um diferencial que incendiava a imaginação daquele bando de menino peralta, eu incluso, que jogava bola na frente da casa dele: uma imensa tatuagem no peito e outras menores nos braços.Charles, nem sei se esse era o seu nome verdadeiro, mas o povo que morava nas redondezas se referia a ele assim. Um marinheiro dessa marinha mercante, estrangeiro, meio ruivo e forte, que se apaixonou por uma linda negra brasileira, arriou âncora lá e morava ali, perto de casa. A gente brincava nas cercanias, mas não tinha intimidade com eles, espiava de longe aquele idílio e trocava idéia sobre possíveis aventuras nos mares do mundo e cobiçava ardente e carnalmente aquela calipígia companheira dele que usava roupas provocantes, e vez por outra não usava nada tomando sol no quintal. A gente brechava e ficava doidão. Todos nós fomos penalizados várias vezes com pesadas penitências por confessar ao padre nossos pecaminosos atos carnais na intenção da moça e também pelo pecado da inveja por querer ser Charles.
Faz tempo isso, é provável que eles já nem existam mais. Eu me mandei dali ainda pequeno, dei uns rolês por aí e fui, de certa forma, um marinheiro errante, deparei com muitos aventureiros tatuados e não e com muitas mulheres negras fascinantes, mas nada que se compare com aquele casal. Pois eles foram responsáveis, indiretamente, pelo início da perda de inocência de uma cambada feliz de curumins.
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