sexta-feira, outubro 04, 2002
Um santo
Esse Gregório de Tours ( 538(?)-594) aí era um cara fervoroso, tanto que virou santo. Misto de bispo e historiador gostava de escrevinhar e escreveu vários livros onde demonstrava sua devoção e fé, comentava Salmos, denunciava a fornicação no meio de parte do clero e até estabeleceu uma interessante cronologia do mundo começando por Adão.
No ano de 591 publicou a História dos Francos. Olha só a preocupação do bicho com os rumos e sobrevivência da tal de literatura há mais de 1400 anos atrás, e a sacação dele pra registrar os fatos pra posteridade, cravadas lá no prefácio:
O culto das belas letras está em decadência e morre nas cidades da Gália. Enquanto as boas e as más ações se realizam, a barbárie dos povos se desencadeia, as violências dos reis redobram, as igrejas são atacadas pelos heréticos e protegidas pelos católicos, a fé do Cristo torna-se mais ardente entre muitos mas indiferente entre outros, as igrejas igualmente estão enriquecendo pelos devotos e despojadas pelos infiéis, não podemos encontrar um único letrado bastante versado na arte da dialética para descrever tudo isso em prosa ou em versos métricos.
Freqüentemente muitos se lamentavam, dizendo: “Maldita a nossa época, pois o estudo das letras está morto entre nós e não encontramos no povo ninguém capaz de relatar por escrito os acontecimentos presentes”. Assim, como eu não cessava de escutar essas reflexões e outras semelhantes, disse a mim mesmo que, para que a lembrança do passado se conservasse, ela devia chegar ao conhecimento dos homens que estão por vir mesmo sob uma forma grosseira. Eu não posso calar os conflitos dos medíocres nem a vida daqueles que vivem honestamente. Eu fui sobretudo estimulado, por que freqüentemente escutei dizer em meu círculo, para minha surpresa, que um retórico que filosofa é apenas compreendido por um pequeno número, mas aquele que fala a língua vulgar se faz entender pela massa.
Pois sim.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário