sábado, agosto 10, 2002

           Saartjie Baartman, uma mulher
                                              


Ali, na região de Hotentote, na África do Sul, as mulheres da etnia khoi-khoi sempre foram assim de belas feições e formas exuberantes, com nádegas salientes e coxas desenvolvidas. Saartjie Baartman também era igual às demais e tinha uma particularidade: acentuada hipertrofia nos lábios vaginais.

Em 1810 um sacana holandês-inglês, o médico William Dunlop zanzava por lá, deparou-se com ela e sacou logo que podia ganhar uma grana fácil exibindo-a na Europa, pois destoava do padrão da mulher européia geralmente desprovida desses atributos. Ela só tinha 21 anos e foi convencida a viajar com a promessa de melhorar de vida.

Na verdade passou a ser explorada da mais infame, sórdida e degradante maneira, exibida nua como um animal selvagem, “como um caso assombroso da natureza” em circos, bares, bordéis e até universidades. Passou a ser conhecida como Vênus hotentote.

O pessoal de Londres que na época combatia a escravidão fez pressão e ele se mandou com ela pra França e continuou fazendo a mesma coisa lá. Submetida a todo tipo de humilhação, tendo cada naco da sua anatomia vasculhada, servindo até aos baixos instintos sexuais de quem quisesse ter um “gozo animal” morreu, certamente de banzo e desamparo, entregue ao alcoolismo, contaminada pela sífilis e tuberculose numa lenta agonia, aos verdes 25 anos e teve seus incomuns órgãos sexuais e o cérebro retirados e colocados num vidro com formol passando a ser atração de museus. Seus ossos também foram guardados. Sua saga macabra continuou até 1976 quando a África do Sul começou um movimento pela repatriação dos seus restos mortais e restauração da sua dignidade.

Agora a assembléia nacional da França aprovou a devolução do que restou e que era patrimônio do Museu do Homem de lá.

Depois de quase duzentos anos finalmente ela retornou pro seu canto, mas a vergonha não foi apagada, não acabou o preconceito nem a mancha da discriminação que ainda pulula por esse mundo onde o vivente humano até hoje não aprendeu a respeitar os semelhantes nem os diferentes.


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