quinta-feira, maio 09, 2002




Dançar

É certo que o conceito de arte desde antanho pra hoje elasteceu-se que só e dentro dela cabe tudo. Quem manja das estéticas e não é purista legitima esse inchaço. Eu cá, como não sou crítico de arte e nem sei julgar essas nem outras coisas, apenas aprecio, e se agrada a meus desgastados olhos e emociona o meu estropiado coração tá é valendo.

Pois sim, tá rolando pelas bandas de cá um evento dito cultural que agasalha todo tipo de manifestação artística: seja suposta ou verdadeira. Dei um rolê por lá a convite de uma amiga. Tem de tudo. De estranhas expressões físicas até comportados delírios líricos. Vi coisas que me chamaram a atenção e outras nem tanto. Mas me detive mesmo foi na ala das danças. Deve ser por conta dessa minha frustração atávica pela falta de aptidão pra coisa, desse meu desejo de ser um pé-de-valsa e que eu nunca desenvolvi por timidez ou falta de jeito, e que me deixou assim devagar nesse mister.

O povo dançando lá e eu solitário observando como é legal um bate-coxas nas suas diversas modalidades, desde os ritmos frenéticos que exaurem uns aos de plenas calmarias que embalam outros. A destreza dos dançantes me deu a exata noção do quão eu sou limitado nessa arte de saltitar e por isso mesmo só me aventuro no simples dois-pra-lá dois-pra-cá que uma música lenta propicia. Aí eu "alugo" um reduzido espaço de um metro quadrado e faço minha performance ali, coladinho com uma parceira, o que quase sempre resulta no final em mais amasso que dança.

Pensava cá nas minhas inabilidades todas, na minha falta de talento pra música, pra dança e mais um monte de coisas e de como a natureza poderia ter sido mais generosa comigo, me fazendo talvez parecido com Davi, aquela bíblica criatura, aquele da funda e do gigante e que era chegado a uma fuzarca e é citado várias vezes naquele livro sagrado sempre flagrado numa folia tipo essa: dançava e saracoteava com todo o entusiasmo na presença do Senhor, cingido apenas com um éfode de linho.