terça-feira, abril 09, 2002



Menstruação


Plínio, o Velho era um cara sabido. Manjava das coisas do mundo e sacava como a natureza funcionava. É certo que no tempo em que ele viveu (entre os anos 23 e 79 dessa nossa dita era cristã) a ciência era pouca e os fenômenos físicos, químicos e biológicos além de provocarem um medo danado no povo incendiavam a imaginação e geravam explicações simplórias e delirantes dos mais sapientes.

E Plínio era um e escreveu o que pensava saber na sua famosa Historia Naturalis dando pitaco em quase tudo. Legou ao mundo algumas informações relevantes pra se deslindar a evolução do conhecimento humano, e ajudou também a difundir alguns preconceitos, inclusive contra a mulher, que vigoram até hoje nos grotões atrasados dos continentes do mundo, como esse do efeito devastador da menstruação.

(...) Porém dificilmente não encontraremos nada mais prodigioso que o fluxo menstrual. A proximidade de uma mulher neste estado faz o mosto azedar; os cereais se tornam estéreis, os enxertos morrem, as plantas dos jardins secam, se ela sentar-se sob uma árvore seus frutos cairão, o resplendor dos espelhos ficam turvos e nada mais refletem, o fio de aço se debilita, o brilho do marfim desaparece, os enxames das abelhas morrem; inclusive o bronze e o ferro oxidam imediatamente e o bronze fica com um odor espantoso; enfim os cachorros que provarem de algum resíduo desse líquido serão acometidos de raiva e sua mordedura inocula um veneno sem remédio. Tem mais: o betume, essa substância tenaz e viscosa que, a uma época precisa do ano aflora e sobrenada um lago da Judéia, que se chama Asphaltites, não se deixa dividir por nada, pois adere a tudo que o toca, exceto por um fio infectado por este veneno. Diz-se inclusive que as formigas, esses animaizinhos minúsculos, lhe são seníveis: elas jogam fora os grãos que carregam e não voltam a recolhê-los. Este fluxo tão curioso e tão pernicioso aparece de trinta em trinta dias na mulher, e, com mais intensidade a cada três meses. (..)

E arremata (...) Se as regras coincidem com um eclipse da lua e do sol, os males que causam são irremediáveis. O mesmo ocorre com ausência de lua: então o coito é funesto e mortal para os homens. (...)