quinta-feira, janeiro 31, 2002



Parir


O Grito - Munch, Edvard

O parimento, esse que resulta na gente e em outros bichos, é prerrogativa das vivíparas ou ovíparas fêmeas e é um ato heróico pra quem expele o rebento. Mas pra quem nasce é só um fato involuntário. E pelo que se espalha por aí, na espécie humana todo mundo já nasce com uma memória genética pra trás e uma zerada pra frente. Nascer é um fato duro que se desdobra em outros mais, e a sucessão deles é a tal da vida, essa que pode ser boa, mais ou menos ou uma merda.

Já parir-se a si mesmo não é ato nem é fato mas uma necessidade da raça humana, requisito pra adaptação e não carece ser fêmea porque qualquer gênero já vem apto, pronto pra elaborar dentro de si o ser que se quer ser. Esse parto é doloroso e não tem prazo e pode se repetir quantas vezes se precise.

Sucede que muitas vezes o ser que daí redunda surge fragmentado em mil nacos ou muito mais e então leva o resto da vida tentando juntar os cacos, renascendo outras vezes. Quando não consegue, pira. Porém tem uns que se parem prontos, inteiros, quase completos, faltando poucos retoques. Mas seja lá que tipo for, nascendo-se inteiriço ou fracionado, essa parição provoca um grande grito porque a dor é na alma.