sexta-feira, janeiro 11, 2002
Besta-fera
Aprecio o povo acadêmico e seu lero sério, e acho bonita aquela tara deles pelo rigor científico e a mania de aferir tudo que há no mundo. Geralmente eles produzem coisas interessantes, embora de vez em quando constatem também apenas obviedades. E todo mundo sabe que uma obviedade constatada vale mais que uma só intuída. Pois sim, o povo das antropologias mais os das sociologias e outros afins, ancorados em organização mundial, estão concluindo um estudo sobre a desumanização do dito vivente humano nesse conturbado planeta.
O resultado preliminar é desalentador e aponta que a nossa espécie tá cada vez mais se brutalizando, perdendo a ternura, rumando lentamente pra animalização total. Certos agrupamentos sociais já banalizaram o crime e práticas cruéis são parte do cotidiano deles. Tá é ficando ruço.
Até me lembrei que talvez fosse bom viver ali pela idade média, quando a luz era pouca, a claridade escassa, e o bestiário vasto. Mesmo com tanto bicho medonho pra assombrar o imaginário do povo e azucrinar as gentes que viviam sobressaltadas e tinham um medo danado da noite, e qualquer urro ou berro era prenúncio de fera monstruosa rondando.
Pro povo dos tempos de agora as feras são outras, e parece que a que mais apavora tem a conformação física semelhante a sua. E bichos assustadores com a leocrota, assim do tamanho de um jumento e veloz, com a parte dianteira, peito e patas de leão, traseira de um veado, cabeça de cavalo e a boca de orelha a orelha, fendida, que em vez de dentes tinha um osso maxilar, parecem inofensivos diante do pavor que um bandido causa.