quarta-feira, outubro 10, 2001



Lá pra trás e hoje o povo é um

Esse bicho aí era um religioso, um frei da Ordem Beneditina ali de Portugal, e tava mais a fim dos prazeres da vida mundana, das delícias das sacanagens terrenas que da salvação eterna. No seu leriado barroco confessava aí seu desengano com uma donzela ingrata.

Frei Jerónimo Baía, famoso na corte daquele tempo, escreveu essa poesia por volta de mil seiscentos e cinqüenta e qualquer coisa, e convence a gente que, independente do tempo, qualquer desventura é uma. E disse lá no seu simbolismo mineral o mesmo que diria hoje um desventurado no amor.

Madrigal a uma crueldade formosa

A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?