sexta-feira, outubro 26, 2001



Feromônio

Gente e bicho tem muita coisa em comum no comportamento e libido e até nas sacanagens e artes das seduções e enganos. Um tempo atrás vi um documentário sobre bichos cujo nome era Pequenas Histórias de Amor. Me chamou atenção a dos insetos, pois sim , insetos esses tais que picam, ferroam e azucrinam, mas que por detrás disso tudo dão pinta que também amam .

A mais impressionante foi a das vespas. Como se sabe, a fêmea não tem asas (o que considerei profundamente injusto. A natureza também tem lá suas discriminações talibãs), e ela tem um imenso traseiro e anda pelo chão. Pra encontrar o macho procura uma haste pra subir, e lá em cima arrebita o tcham, solta o feromônio e enlouquece o bicho (onde ele estiver), que do jeito que vem no vôo, tchum, engata nela e saem voando (ele tem que pegá-la num ponto elevado, pois não consegue levantar vôo com ela a partir do chão), aí ela fica enroscada nele, bonitinha, durante cinco dias, na clássica posição papai e mamãe. A maior duração de transa contínua que já tomei conhecimento.

Eles fazem tudo engatadinhos, comem, bebem, se divertem. Achei interessante quando eles pousam assim numa folha que tem orvalho, ele bebe e afasta a cabeça pra ela beber também, num gesto aparentemente carinhoso. Aquilo é inteligência ou instinto? E rola uma paixão durante aqueles dias. Me ocorreu que o diretor (ou roteirista) de Nove e Meia Semanas de Amor se inspirou naqueles danadinhos.

Mas findo aquele período de louca paixão ele desengata e se manda em busca de outra, pois o único objetivo da vida do sacana é a reprodução, assim que nem acontece com outras espécies que tão lá na frente na cadeia da vida.

Daí penso que eu e certa pessoa somos bichos de uma mesma espécie cujo feromônio é a palavra e o fascínio que ela tem, e que impele um na direção de cada qual como inseto pra inseto.