quinta-feira, setembro 06, 2001
Tísicos
Aprecio esse povo que faz poesia, mas nunca quis ser um. E se fosse, seria provavelmente um romântico comedido, já que os estabanados morrem antes. Ou morriam. (Isso no século 19 e início do 20, segundo minha estatística pessoal).
Nas minhas ânsias juvenis lia sobre as vidas atormentadas de uns e as fragilidades de outros. E talvez resida aí o meu receio em poetar desde cedo, pois os bichos, esses desconsolados pelos desdéns das musas perdiam a noção do que era demasia e viviam como se fossem poemas ambulantes, tristes pelos cantos e embriagados nas madrugadas sucumbiam desvairados, quase todos tísicos, golfando sangue nas hemoptises.
Quem tinha grana e sentia paura da morte na hora do pega-pra-capar se mandava pra Suíça pra escapulir do fim melancólico, pois o remédio indicado pra essa enfermidade naqueles tempos era a mudança de ares e clima. É o que fizeram aqueles dois tísicos que eu gosto: Manuel Bandeira e Paul Eluard. Se conheceram num sanatório naquelas bandas de lá e se influenciaram mutuamente. O primeiro viveu foi muito, o outro que foi casado com aquela Gala que depois se casou com Dalí, aquele do bigode teso e impostor talentoso, manteve o triângulo amoroso e pifou mais cedo. Grandes poetas. Taí um e outro:
O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação
Nous Deux
Nous deux nous tenant par la main
Nous nous croyons partout chez nous
Sous l'arbre doux sous le ciel noir
Sous tous les toits au coin du feu
Dan la rue vide en plein soleil
Auprès des sages et des fous
Parmi les enfants et les grands
L'amour n'a rien de mystérieux
Nous sommes l'évidence même
Les amoureux se croient chez nous.