domingo, agosto 12, 2001
Emasculando ninguéns
Na mídia, toda notícia, seja ela boa ou ruim, traz sempre um malícia embutida. E a tétrica notícia do jornal informava que ali morreu mais um, e o corpo que jazia estendido naquele chão devia ser de um jovem de não mais de 20 anos, que além das várias escoriações também havia sido castrado. E perguntava o porquê.
E essa pergunta me remeteu a um castrado famoso que viveu lá pela França há 800 anos passados, o Pierre Abélard, aquele Abelardo, o grande amor de Heloísa. O da história real de amor de Abelardo e Heloísa. Teria sido o motivo parecido? Uma intolerância igual aquela?
Abelardo era um moço brilhante, que transitava garboso pela elite intelectual da Europa, e aos 22 anos já era guru de muita gente daqueles países lá, tinha uma escola de filosofia e refundou os conceitos da dialética. Heloísa tinha só 17, se interessava pelas coisas do saber, e era atraente demais. Foi estudar com ele por ordem do tio dela, cônego Fulbert, e não deu outra: paixão doida e muito amasso e sacanagem. Se lambuzavam de amor, numa trepação que resultou em gravidez. E por causa disso esse Fulbert aí mandou cortar a cru os possuídos de Abelardo, que assim mutilado e desapetrechado de suas bolas viris virou abade. Heloísa foi ser freira e trocaram cartas de amor até ele morrer ao 63 anos. Bela, verídica e trágica história de amor que inspirou tantas outras famosas de amores impossíveis.
O moço que morreu anônimo e capado talvez não se interessasse pelas coisas do espírito como Abelardo, mas será que houve uma história de amor por trás dessa castração? Como ele era pobre, desprovido da grana e da fama, não circulava nos circuito culturais, provavelmente nunca se saberá se foi vingança passional, queima de arquivo, ou só a desova corriqueira de um "presunto". E dessa vez com mais requinte.