terça-feira, julho 03, 2001


Manifestos pessoais de amor

Esse povo historiador costuma dividir a história universal em eras, grandes feitos e guerras. A mim me apetece mais saber como se desenvolviam as ralações humanas, o dia-a-dia das pessoas, e como o povo através do tempo, pensava e amava. Daí que os registros escritos de poemas, cantigas e cartas me fascinam, porque são a expressão dos verdadeiros sentimentos humanos.

Essas Lettres portuggaises, conhecidas como Cartas de Amor foram escritas em 1669, e atribuídas durante muito tempo a uma religiosa chamada Mariana Alcoforado. Depois descobriu-se que o secretário Guilleragues, do Gabinete de Luís XIV, e amigo do poeta Racine, teria sido o autor. Persiste a controvérsia, já que a freira existiu e o destinatário marquês de Chamilly também. O que importa é que revela verdades da paixão que só o amor é capaz de expor.

Traduzidas assim para o galaico ( língua irmã siamesa do português, que nossos ancestrais falavam lá pela tal idade média, naquele emaranhado de palavras chamado galaico-português), ficam mais evidentes as dramáticas manifestações de afeto. Taí uns trechos de uma.

“Considera, meu amor, ata que punto fuches confiado. ¡Ah! infeliz, fuches enganado e enganáchesme con falsas esperanzas. Unha paixón sobre a que fixeras tantos proxectos de praceres, non che causa agora senón unha mortal desesperación, que só pode ser comparada coa crueldade da ausencia que a provoca. ¡Como! ¿Esta ausencia para a que, a miña dor, por máis que se esforce, non pode atopar un nome abondo funesto, privarame, entón, para sempre de fitar eses ollos nos que eu vía tanto amor e que me facían coñecer impulsos que me enchían de gozo, que o eran todo para min ata o punto de só precisar deles para vivir?

¡Ai! os meus están privados da única luz que os animaba, tan só lles quedan as bágoas; non os usei senón para chorar sen descanso, dende que souben que estabades decidido a un afastamento que me é insoportable e polo que morrerei en pouco tempo.”...