sexta-feira, junho 29, 2001
Permeando o tempo
Desde antanho, de muito atrás no tempo, que o sentimento do amor se incorporou aos viventes humanos como um diferencial dos outros animais viventes. E aí tanto traz alegria quando chega, quanto dissabor quando se esvai. E mesmo assim, provocando tais e previsíveis reações é tão bom que todo mundo quer ter e não vive bem sem um.
E por causa desses momentos tem hora que é exaltado e tem outras que nem tanto. Ainda assim, depois de uma desilusão quase ninguém desiste de continuar buscando outro de novo.
Foi sempre assim e vai continuar sendo. Taí Camões num dia qualquer, entre 1524 e 1580, remoendo suas aflições de amor, sua dor de cotovelo em dois sonetos.
Amor é Fogo
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer,
é solitário andar por entre a gente,
é um não contentar-se de contente,
é cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é um ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?
Busque Amor
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para manter-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai que de esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.