segunda-feira, junho 04, 2001
Na zona do delírio
Tem vez assim que um desencontro, um desentendido no amor, uma pretensão descartada, essas coisas me deixam borocoxô, que até penso em me mudar pro tal do dito mundo metafísico, aquele onde os semideuses comandam, e tudo se resolve com indolor precisão. Ali, o humano é quase nada, e se pode tudo, e tudo se subverte, principalmente na física, e as paralelas se encontram desde o início do traço. Nesse mundo não há distinção entre o novo e o mais antigo, e os dois se conjuminam numa perfeita harmonia.
Mas o diabo desse mundo, desse nosso natural, onde tudo se reduz ao que à natureza convém, dá uma rasteira na gente e acaba com o delírio, pois tudo aqui é contado e é medido e nem as pedras se encontram com muita facilidade, embora se diga o contrário.
A diferença fundamental entre este daqui e o de lá é a forma de se relacionar. Naquelas imaginárias bandas toda relação é fria, igual e racional. Nas bandas de cá, quase sempre é quente, emocional e intensa, muito embora não se saiba com exatidão se vai pra frente ou se acaba.
A mim me apetece a relação que incendeia. Daí que mesmo com toda instabilidade da humana coisa, das surpresas e sobressaltos, e até das eventuais impossibilidades, é nesse mundo de cruel realidade que eu prefiro viver. Pra mim, é melhor o inusitado que provoca rebuliço, que a certeza cheia de monotonia.